Elder Dias
Elder Dias

Seu Vandir e a honestidade que está sempre à nossa espreita

Uma crônica para provar que, apesar do sistema político corrompido e dos malandros por aí, o povo brasileiro é uma maioria de gente digna

Elder Dias

O garoto do violino | Pintura de Rufino Tamayo

Segunda feira, perdi minha carteira quando seguia para o jornal, de bicicleta compartilhada, pela Rua 115. Na verdade, não sabia que a tinha perdido por lá, pensei ter esquecido ao pegar a bike, na Praça Universitária.

Dinheiro tinha pouco, além de um cheque a depositar. Mas o mais chato seriam os cartões a bloquear e a pedir novamente, além da segunda via da CNH. Estava já na estação de destino, no Parque Areião. Peguei o caminho de volta na mesma bicicleta, até a praça, mas não imaginava mesmo encontrar mais meus pertences.

Eu teria de contar com uma pessoa que fosse mais do que honesta: que gastasse tempo para dar um jeito de me contatar, já que eu não deixado qualquer telefone nem endereço (físico ou virtual) na carteira.

E aconteceu. Por volta das 14 horas, eu já estava no Campus Samambaia da Universidade Federal de Goiás (UFG), meu outro local de trabalho, quando me ligaram da concessionária. O rapaz me diz então que um senhor tinha achado uma carteira e entrou em contato pelo número da loja que estava num cartão. O senhor era o Seu Vandir.

No meio da tarde, fui buscar meu pequeno tesouro com a Maria do Socorro, que já havia me ajudado de manhã a procurar a carteira na praça e nos arredores, que me cedeu o computador para fazer o boletim de ocorrência virtual e me requisitou como companhia para o almoço em seu apartamento.

Chegamos à casa do Seu Vandir. Na verdade, da mãe dele também, Dona Lígia. Moram talvez na casa mais singela da 115, com quintal de chão batido, criação de galinhas, um cachorro e uma gata de rua que resolveu ficar por lá e eles acolheram. Um pedaço interiorano no meio do Setor Sul. Apesar da poeira por conta da sequidão de agosto, a casa é simples, mas um brinco de tão limpa. Coisa da Dona Lígia, de 88 anos, mas que parece ter no máximo 70 e poucos, com energia de 50.

Por telefone, Seu Vandir já tinha me relatado sobre a carteira e todos os documentos, com os cartões, com o dinheiro e com o cheque. E eu já estava grato demais por tudo isso. Foi quando sua mãe nos serviu bolo e café (alô, Fantástico, olha o tanto que nossa “roça” é boa!). Uma graça! Conversamos um pouco. Ele me falou que foi caminhoneiro como o pai, falecido, que vendem ovos caipiras e outras coisas, como o cachorro que dias antes feriu o galo de morte quando este foi defender a galinha que serviria de alimento para a família. Uma tarde de segunda-feira e sentindo aquela parada na correria urbana, eu me lembrando ali das visitas gostosas, embora raras, aos meus tios de Morrinhos.

Fiquei feliz não pela só pela devolução da carteira, mas pelo empenho que Seu Vandir teve ao fazer isso, ligando para três lugares, olhando os números nos cartões, até que a Belcar se dispôs a entrar em contato comigo, a pedido dele.

Aproveito para dizer uma coisa final: quando eu compro briga por conta de discursos de ódio que vejo nas redes sociais, não é nada contra meu interlocutor. E não é para “defender bandido”. É que minha opção será sempre por acreditar nas pessoas e nas melhores saídas para as situações.

Apesar do sistema político e dos malandros por aí, o povo brasileiro é uma maioria de gente honesta. Hoje foi mais uma prova. Obrigado por isso, Seu Vandir!

2 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
2 Comment authors

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Adalberto de Queiroz

Bravo! a Elder e ao Sêo Vandir.

Arthur de Lucca

Gostaria que alguém me esclarecesse a pequena dúvida: “se os “honestos” são a maioria” porque que, vez e outra são noticiados esses casos raros de “devoluções” de “pertences” a seus respectivos donos, como se fosse uma coisa mais anormal que existe?