Euler de França Belém
Euler de França Belém

Sentença do STJ: Fernando Morais e editora terão de indenizar Ronaldo Caiado em 1,5 milhão de reais

Resenha do Jornal Opção, comentando livro sobre a W/Brasil, agência de Washington Olivetto, levou o senador de Goiás a processar o jornalista, um publicitário e a editora Planeta

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Em março 2005, li o livro “Na Toca dos Leões — A História da W/Brasil, uma das Agências de Propaganda mais Premiadas do Mundo” (Editora planeta, 495 páginas), de Fernando Morais, e escrevi uma longa resenha (a íntegra do meu texto pode ser lida no link: https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/meu-nome-e-deus-mas-pode-me-chamar-de-washington-olivetto%C2%B9-73322/), publicada no Jornal Opção. Destaquei um trecho antevendo que a imprensa nacional não lhe daria importância (como, de fato, não deu). Candidato a presidente da República, em 1989, Ronaldo Caiado planejou ter a W/Brasil como sua marqueteira e, por isso, visitou a sede da agência. Um dos sócios de Olivetto, Gabriel Zellmeister, teria dito ao jornalista e escritor: “O cara [Ronaldo Caiado] era muito louco. Contou que era médico e tinha a solução para o maior problema do país, ‘a superpopulação dos estratos sociais inferiores, os nordestinos’. Segundo seu plano, esse problema desapareceria com a adição à água potável de um remédio que esterilizava as mulheres. Fiuuu! O papo acabou aí”.

Fernando Morais e Washington Olivetto

Fernando Morais e Washington Olivetto

Na época, liguei para Ronaldo Caiado, que, num primeiro momento, avaliou que o jornal estava atendendo o interesse de algum adversário local. Ele primeiro ligou para o diretor responsável do Jornal Opção, Herbert de Moraes Ribeiro, para reclamar. Aos poucos, consegui explicar que possivelmente, até aquele momento, político nenhum tinha lido o livro; portanto, meu objetivo era exatamente fazer aquilo que Fernando Morais não havia feito: ouvir o outro lado e, deste modo, esclarecer o problema. O curioso, portanto, é que não foi o livro que gerou a ação, e sim a reportagem do Jornal Opção. Até meu contato, Caiado não sabia nem da existência do livro. O jornalista Edmar Oliveira, na época seu assessor de imprensa, é testemunha dos meus contatos com o senador. Estava ao seu lado quando conversamos por telefone.

Publicada a resenha, Caiado processou Fernando Morais, que, tudo indica, parece ter inventado a história, porque o pessoal da agência de Olivetto, notadamente Gabriel Zellmeister, não a confirmou totalmente à Justiça. Agora, quase 12 anos depois da publicação do livro e da resenha, o Superior Tribunal de Justiça, confirmando a sentença do Tribunal de Justiça de Goiás, determinou na terça-feira, 11, que o hoje senador Caiado deve receber R$ 1,5 milhão por danos morais. Nada mais justo, considerando que o jornalista não conseguiu comprovar a acusação. Ressalte-se que Gracinha Caiado, mulher do senador, é nordestina. Baiana.

Os condenados — Fernando Morais, Gabriel Zellmeister e a Editora Planeta — podem recorrer. Porém, como não têm provas do que publicaram, certamente serão condenados na próxima instância, o Supremo Tribunal Federal. Pode ficar mais barato pagar R$ 1,5 milhão agora. Os valores tendem a subir…

A defesa de Fernando Morais é o que se pode nominar de amadora. A crítica ao político foi vista pelo jornalista como “singela atribuição de postura que, embora controvertida, não representa nódoa alguma”. Na verdade, a acusação é gravíssima. Zellmeister disse que a obra é fruto de “impressão pessoal” do jornalista. É uma maneira estratégica de tirar o corpo fora.

A Editora Planeta sublinhou que o livro é “sério e bem escrito”. Não há a menor dúvida: Fernando Morais é um dos melhores biógrafos do país, autor de pesquisas sólidas sobre Olga Benario e Assis Chateaubriand, o Chatô. E escreve muitíssimo bem, tanto como repórter quanto como escritor. Mas, ao contrário do que afirma a Planeta, está em jogo, não o livro inteiro, e sim parte dele, na qual se apresenta uma acusação grave, mas sem a prova correspondente. Ao sugerir que não houve danos morais, a Planeta comporta-se como uma espécie de juíza, o que não é.

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