Euler de França Belém
Euler de França Belém

Sai a biografia bombástica e não autorizada de Marcelo Odebrecht, o ex-primeiro-ministro do Brasil

O empresário da construtora Odebrecht contribuiu para criar a Corruptobrás e gerou um capitalismo apressado e picareta

Ao menos nos últimos anos 15 anos, o Brasil funcionou sob uma espécie de parlamentarismo empresarial e, às vezes, político. O primeiro-ministro, não-trocável, era o empresário Marcelo Odebrecht, presidente da Construtora Odebrecht. Ele era o mandachuva. Os políticos estavam à sua disposição e seu dinheiro — que era mezzo privado, mezzo público, quiçá mais público — estava à disposição dos políticos.

Marcelo Odebrecht, ao corromper a República, se tornou dono da República, ao lado de outros empresários, como os senhores feudais da OAS, Andrade Gutierrez e JBS. Com ligeiras exceções, os políticos eram, digamos, seus funcionários, talvez serviçais. Fala-se que o poderoso chefão da Odebrecht era o Príncipe — havia unificado, por assim dizer, não a Itália, mas a corrupção, que, ao se tornar sistêmica, criou uma empresa gigante, a Corruptobrás ou Corruptobrasil.

A história de Marcelo Odebrecht mescla-se à história do Brasil; na verdade, é a história do Brasil. Uma prova de que o capitalismo privatizou o Estado, que gestou com o PT, o PMDB e PSDB, para citar tão-somente os três grandes partidos, uma bolsa família gigante.  O PT, sobretudo, deu uma bolsa família módica aos pobres e uma bolsa família gigante a um grupo de empresários, por vezes chamados de “campeões”, quando o termo apropriado é espertalhões. O fato é que o petismo não só fortaleceu, mas também contribuiu para a criação de um “capitalismo picareta”.

Há muitas informações para a construção de uma biografia de Marcelo Odebrecht, mas há informações ainda não totalmente expostas e é preciso conectá-las ao que se sabe, ou vai se saber adiante, tanto a respeito de outras empresas como a respeito de políticos e técnicos como Lula da Silva, Dilma Rousseff, Aécio Neves, José Serra, Antônio Palocci, Guido Mantega, Luciano Coutinho. Mas já é possível contar ao menos parte da biografia do empresário da Bahia. E foi isto que fizeram os jornalistas Marcelo Cabral, da “Época Negócios”, e Regiane Oliveira, do “El País Brasil”, no livro “O Príncipe — Uma Biografia Não Autorizada de Marcelo Odebrecht” (Astral Cultura, 416 páginas).

O livro resulta de uma apuração meticulosa nos documentos já expostos pela Operação Lava Jato — revistos pelos jornalistas — e de entrevistas com dezenas de personalidades envolvidas na maior investigação sobre corrupção da história do país.

Marcelo Cabral e Regiane Oliveira mostram que Marcelo Odebrecht era um homem recatado, do lar e da empresa. Entretanto, como queria deixar sua marca na história da Odebrecht, tornando-a uma potência transnacional, articulou, com o apoio de políticos — sobretudo dos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff —, uma mega sistema de corrupção de políticos e outros agentes públicos. Para tanto, subverteu a lógica da própria empresa. Porém, como o novo sistema estava dando certo, com a empresa se tornando uma gigante internacional, com obras em vários países, a famiglia, à Michael Corleone, calou-se. Calou-se pelo menos em parte. Porque, se quisesse, teria freado a loucura empresarial do pupilo, um agente do capitalismo “apressado”.

O livro mostra que Marcelo Odebrecht era “amado” pelos funcionários da Odebrecht. Era generoso com os executivos, sobretudo porque as vacas eram gordíssimas. Como pai de família, é apontado como “exemplar”. Os políticos o achavam “arrogante”, mas não queriam ficar longe de suas contas bancárias, sempre ricas e “democráticas”.

Apesar de tudo, de ter criado a Corruptobrás, Marcelo Odebrecht sentia-se usado pelos políticos e disse aos procuradores do Ministério Público Federal e ao juiz Sergio Moro que se sentia como “o bobo da corte da República”. Dizer que bobo é o povo brasileiro, que foi lesado tanto por empresários quanto por políticos, é de uma injustiça atroz. Mas de Marcelo Odebrecht pode-se dizer tudo, que é corrupto e corruptor, mas jamais que é bobo. É um espertalhão que, de tanto bancar o espertalhão, um dia caiu.

Uma síntese de Marcelo Odebrecht: o Maquiavel do mercado se tornou uma espécie de Rei Lear dos trópicos, talvez de maneira incontornável.

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