Euler de França Belém
Euler de França Belém

Presidente da Iugoslávia “assediou” mulher de João Goulart na sua frente

Josip Broz Tito não tirou os olhos de Maria Thereza Goulart e chegou a gritar: “Que mulher! Por ela, eu faria uma revolução”

Wagner William conseguiu um feito: escreveu uma história do Brasil a partir de “Uma Mulher Vestida de Silêncio — A Biografia de Maria Thereza Goulart” (Record, 643 páginas). O jornalista e pesquisador relata a vida da mulher de João Goulart — ministro do Trabalho no governo democrático de Getúlio Vargas, vice-presidente de Juscelino Kubitschek, vice-presidente de Jânio Quadros e presidente da República entre 1961 e 1964 — e, possivelmente sem ter a intenção, faz um apontamento antropológico do comportamento das mulheres entre os séculos 20 e 21. Apreciando-se ou não o governo de Jango, o livro faz um resgate, favorável mas sem passionalidade, de sua trajetória política.

Talvez por ser belíssima, que chamava a atenção de todos, Maria Thereza às vezes é vista tão-somente como “a mulher de Jango”. O que Wagner William mostra é que ela, que se casou com menos de 20 anos, dotada de personalidade forte, se fazia ouvir pelo marido. Criança e adolescente, tinha o hábito de conversar sozinha e com os animais, que adorava. Há histórias curiosas. Assim como João Goulart, Maria Thereza atirava muito bem e montava a cavalo como os melhores cavaleiros. Entretanto, como a beleza sobrepõe-se, porque atrai olhares que são verdadeiros grudes, se tornou conhecida como a “musa” do presidente e, durante certo tempo, do país. Revistas e jornais brasileiros e até de outras nações destacavam, nesta ordem, sua beleza, sua elegância e seu charme. Na verdade, trata-se de uma mulher discreta, mas a beleza é sempre indiscreta, porque não dá para escondê-la ou camuflá-la.

Maria Thereza Goulart com os filhos João Vicente e (no colo) Denize; é sua fotografia preferida | Foto: Álbum de família

Sobre João Goulart, há várias histórias que merecem registro. “Jango mostrou-lhe [a Maria Thereza] uma foto dele com 3 anos. Usava vestido e tinha cabelos compridos. Explicou que era uma promessa que a mãe fizera. Dona Tinoca havia perdido o filho mais velho, Rivadávia, mas as filhas estavam bem de saúde. Para enganar o destino, prometeu que, se tivesse um menino, ele seria batizado com nome de santo e o vestiria com roupas de mulher até que completasse 3 anos.” Maria Thereza ouviu a história de teatro grego, e, irreverente como sempre, indagou: “Quando perguntavam teu nome, tu dizia ‘Joana’?” O bravo estancieiro, que não hesitava em sacar o revólver, só riu.

João Goulart jogou como zagueiro do time infanto-juvenil do Sport Club Internacional, o Colorado de Porto Alegre. “Mas encerrou a carreira esportiva por causa de uma doença venérea, que provocou uma artrite gonocócica. Seu joelho esquerdo ficou semiparalisado, o que faria com que ele mancasse por toda a vida.” Jango era mulherengo e, por isso, Maria Thereza hesitou em se casar.

Adolescente, Maria Thereza escrevia poesia. Uma delas: “Eu queria, ele queria/Eu pedia, ele negava/Eu chegava, ele fugia/Eu fugia, ele chorava”. Na escola, jogava vôlei, apesar da baixa estatura, e tocava piano e violão. Lia romances e chegou a pedir para suas colegas a chamarem de Esmeralda, personagem do romance “O Corcunda de Notre-Dame”, do escritor francês Victor Hugo. Chegou a atuar “em alguns capítulos de uma radionovela transmitida pela Rádio Fronteira do Sul”.

João Goulart e Maria Thereza, quando namorados, em 1953, em Niterói, na Praia de Icaraí | Foto: Álbum de família

Na ditadura, mesmo morando fora do país, João Goulart e Maria Thereza foram perseguidos, embora, politicamente, fossem inofensivos — ao contrário do cunhado de Jango, Leonel Brizola, que tentou organizar, com auxílio de Cuba, uma resistência armada. A história está relatada no livro — que é equilibrado e, embora favorável ao casal, não é apologético. Não se trata de uma hagiografia.

Guerra Fria e a hora das vivandeiras

Milionário, graças ao trabalho intenso desde muito jovem — e não há indícios de que, no poder, tenha se tornado corrupto —, João Goulart não tinha nada de comunista. O mais provável é que, ao verificar a capacidade de a esquerda fazer barulho e fomentar “satisfações” e ampliar “insatisfações”, o fazendeiro do Rio Grande do Sul tenha percebido a possibilidade de usá-la, não para demolir o capitalismo, e sim para atualizá-lo — como havia feito Getúlio Vargas em quase 20 anos de governo, da ditadura à democracia. Mas, no tempo de Guerra Fria, não havia meio-termo: ou se era radicalmente pró-Estados Unidos ou pró-União Soviética. João Goulart, com seus aliados comunistas — que nada tinham de hegemônicos —, ao se postar no centro do espectro político, ficou carimbado como “esquerdista”.

Maria Thereza Goulart, no auge de sua beleza, em Washington, em 1956, quando João Goulart era vice-presidente da República | Foto: Reprodução

Havia, da parte de Jango, a intenção de implantar uma República Sindicalista no Brasil? É provável que não. Talvez quisesse até uma ditadura, similar à que pretendia Jânio Quadros. Mas, se a história da ditadura proceder, e talvez não proceda, não seria comunista, e sim nacionalista, nos moldes da de Getúlio Vargas, que, por sinal, teve uma forte queda pelo fascismo de Benito Mussolini e pelo nazismo de Adolf Hitler. Hábil e agudo observador da cena internacional, acabou alinhando-se, por meio do presidente Franklin D. Roosevelt, aos Aliados (Inglaterra, França, Rússia e Estados Unidos) — mandando 25 mil militares para lutar na Itália contra o nazifascismo. O chanceler Oswaldo Aranha teve um peso decisivo no apoio do Brasil aos Aliados.

Na Guerra Fria, civis — as vivandeiras de sempre — e militares obtiveram apoio, interno e externo (dos americanos, mas o golpe civil-militar foi made in Brasil, inteiramente. Nós “adotamos” a tese de que até golpes têm de ser “fabricados” pelo povo da terra de T. S. Eliot e William Faulkner, como se fôssemos incompetentes até para isto), para a derrubada do presidente João Goulart. Entre 31 de março e 1º de abril de 1964, sem grande alarde e reação, os militares, com amplo apoio civil, arrancaram Jango da Presidência e, sim, implantaram uma ditadura civil-militar, que durou de 1964 a 1985. Entre o fim da década de 1960 e o início da década de 1970 — até 1974, pelo menos —, a esquerda armada atacou o governo, com o objetivo de retirar os militares do poder, e instalar outra ditadura, a do proletariado, eufemismo para “Nomenklatura”, a elite comunista (ou “nova classe”, segundo Milovan Djilas). As ditaduras de esquerda, como a da União Soviética e a de Cuba (os comunistas estão no poder há 60 anos), são longevas e não caem facilmente. A brasileira durou 21 anos e curiosamente quem começou a “matá-la” foi um general, o presidente Ernesto Geisel. Inquirido sobre a razão por que decidira acabar o regime militar, numa entrevista à Fundação Getúlio Vargas, que resultou num livro excelente, admitiu que era “uma bagunça”.

A síntese exposta acima está contada no livro de Wagner William — que escreve, com rara clareza, e pesquisa muito bem — de maneira detalhada. Não com minha ênfase em determinados aspectos, mas de maneira precisa, tanto com base na bibliografia quanto nas pesquisas próprias e em depoimentos, como o de Maria Thereza.

Maria Thereza mesmerizou Tito

Relatemos, a partir do livro de Wagner William, duas histórias menos divulgadas. Hoje, seria um escândalo dos diabos. Uma sobre o príncipe Philip, marido da rainha Elizabeth, e a outra sobre o presidente da Iugoslávia, Josip Broz, o Tito (1892-1980), que assediou Maria Thereza abertamente, e na frente de sua mulher, Jovanka Broz (1924-2013).

Mauro Borges e Josip Broz Tito (à direita), em Goiás, em 1963. O governador goiano recebeu-o, pois outros governadores queriam ficar longe do líder comunista | Foto: Reprodução

O príncipe Philip visitou o Brasil, em março de 1962. A embaixada inglesa recomendara aos jornalistas que era preciso “manter certa distância física”.  O nobre inglês, por sua vez, não cumpriu a orientação sobre a “necessária” distância física.

Ao ser apresentado a João Goulart e à primeira-dama, Philip “disse que já conhecia Maria Thereza pelos jornais e revistas, mas que ela era muito mais linda pessoalmente. O príncipe não manteve ‘certa distância’. Tascou um longo, bem longo, e nada protocolar beijo na mão da primeira-dama. Maria Thereza ficou sem ação e permaneceu com o braço estendido, achando estranho o que estava acontecendo. A face de Jango demonstrou abertamente seu descontentamento. De passagem, ele sussurrou um breve comentário no ouvido da esposa: ‘Que puxada, hein?’”

Em seguida, Philip fez novos elogios. José Carlos Barros de Carvalho, secretário de Maria Thereza, suavizava, ao traduzir, mas admitiu: “Ele está elogiando a senhora”. Elegante, não quis informar que o duque de Edimburgo estava se excedendo.

Em setembro de 1963, quando veio ao Brasil, Tito tinha 71 anos e não estava alinhado com a União Soviética. “Aceitava o lucro nas transações comerciais e havia muito se afastara” dos comunistas da terra de Lênin e Stálin. A direita reacionária, representada por Adhemar de Barros e Carlos Lacerda, governadores de São Paulo e da Guanabara, e Auro de Moura Andrade atacaram a ameaça vermelha. “Jango pagava caro por algo que não fizera. Na verdade, quem tivera a ideia do convite foi Jânio Quadros. Oficialmente, a visita serviria para aumentar o intercâmbio comercial entre os dois países. Outro objetivo seria a assinatura de um convênio pelo qual o Brasil poderia usar o porto de Rijeka, na Iugoslávia.” A economia, como se sabe fora dos círculos radicais, é avessa à ideologia. Empresários não precisam de Marx nem de Hayek. Precisam de grana no banco — sinônimo de lucro — para pagar seus funcionários e sobrar um excedente para reinvestir ou mesmo acumular. O resto é embromazil de quem nunca pagou salário de um trabalhador e não recolheu impostos para manter o gigantismo do Estado.

Maria Thereza Goulart: estrela na imprensa do país e até do exterior | Foto: Reprodução

Tito e Jovanka foram recebidos no aeroporto de Brasília — capital que, de tão nova, não havia deixado de usar fraldas — pelo casal João Goulart e Maria Thereza. “Desde o primeiro contato, Tito, que seguia com os olhos qualquer mulher que passasse a seu lado, passou a mirar em Maria Thereza”, revela Wagner William. O presidente, que havia lutado contra o nazismo e enfrentara o stalinismo, sob risco de ser assassinado, como Liev Trotski, ficara mesmerizado — como tantos outros homens — ante a beleza da brasileira, que lembrava, e não vagamente, Audrey Hepburn.

No dia seguinte, Maria Thereza e Jovanka se encontraram. A iugoslava ofereceu um aparelho de raios X para a LBA e ganhou uma joia projetada por Burle Marx. À noite, Jango e sua mulher ofereceram um jantar, no Palácio do Planalto — “decorado com 5 mil orquídeas” —, ao casal comunista.

Jovanka e Tito chegaram no horário marcado, às 21 horas. Mas os anfitriões não estavam lá — o que não era de bom tom. O motivo? O costureiro-eslilista Dener Pamplona de Abreu (1937-1978). “Prontos para deixarem a Granja do Torto, Jango, de casaca, e Maria Thereza, deslumbrante em mais um vestido criado pelo costureiro, usava luvas, colar, coque, mas estava sem brincos, algo imperdoável para o estilista. O carro com o casal já saía da Granja do Torto, quando Dener não hesitou e correu até postar-se na frente do automóvel. Ameaçou se jogar. Avelar parou o carro. Dener aproveitou e correu para o lado de Jango”, assinala Wagner William. O presidente perguntou: “O que foi, Dener?”

Maria Thereza Goulart e o costureiro Dener Pamplona, responsável por parte de sua elegância | Foto: Reprodução

“Presideeeeeeente, por favor, peça à dona Maria Thereza que coloque esses brincos. Já falei com ela, mas ela não quer usar. O penteado que sua senhora está usando exige brincos. Por favor, só o senhor pode conseguir isto”, disse Dener. Entre irritado e divertido, Jango anuiu: “Teca, coloca o brinco porque o Dener está mandando”. Quando o presidente condecorou Tito com o Grande Colar da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, a esfuziante primeira-dama estava usando brincos.

No dia seguinte, Tito e Jovanka ofereceram um banquete para Jango e Maria Thereza. Estava sobrando caviar e, por parte de Tito, concupiscência. “O iugoslavo já se sentia mais à vontade, mesmo perto de sua mulher. Durante o banquete, distribuía lembranças aos convidados e olhares para as convidadas.” Seu inglês estropiado não era, claro, o da rainha. Barros de Carvalho, secretário da primeira-dama brasileira, procurava “interpretá-lo”. Ao traduzir, suavizava as palavras do dom Juan, que, embora encanecido, estava entusiasmado com a bela Maria Thereza.

A mulher de Jango “estava fascinante, com um vestido salmão inteiramente bordado e um casacão” do “mesmo tom”. “Assim que o casal presidencial entrou no salão, houve um silêncio de admiração. E Tito cravou os olhos na primeira-dama.” Teria dito, sem travas na língua: “Que mulher! Por ela, eu faria uma revolução”. O iugoslavo não escondia o fascínio pela jovem de 26 anos — que reunia, numa só mulher, beleza, delicadeza, charme e elegância. It — numa palavra.

João Goulart e Maria Thereza: o presidente não sabia, mas caminhava para o fim de sua trajetória política | Foto: Reprodução

Depois de beber todas e mais algumas, Tito começou a discursar, de improviso, para agradecer o governo patropi, Jango e Maria Thereza. Mas, de propósito ou pelo efeito do álcool, quase esqueceu que havia no recinto outro presidente e, também, marido. Chegou a mencionar Jango. Mas, “esquecendo” o protocolo, começou “a elogiar a primeira-dama, suas roupas e seus atributos físicos, de maneira vibrante. Nesse momento, Barros Carvalho parou de fazer a tradução, embora Tito continuasse falando, lançando olhares para Maria Thereza. Empolgado, já misturava o idioma inglês com o servo-croata. Carvalho, com boa intenção, nada dizia. Porém o silêncio do tradutor acabou aumentando o constrangimento. Pelos gestos e olhares, seria fácil adivinhar a quem se referia”.

Percebendo que havia alguma coisa “errada”, João Goulart “olhou para Barros de Carvalho e perguntou discretamente: — O que ele está dizendo”. O tradutor redarguiu: “É melhor não traduzir, presidente, porque ele está elogiando a dona Maria Thereza de maneira exagerada”. Jango, “visivelmente constrangido, deu um sorriso nervoso e contido”.

Maria Thereza recebeu uma versão mais edulcorada do intérprete: “Ele está falando que a senhora está muito bonita nesta noite”.

Mais tarde, preparando-se para dormir, João Goulart extravasou, mal-humorado, por causa dos elogios — que hoje seriam vistos como “cantadas” — de Tito à sua mulher. “Não imaginava que os comentários tiveram início assim que Maria Thereza entrou no salão.” Mesmo irritado, ressalvou: “Também, ele tomou não sei quantas vodcas”. Maria Thereza, quiçá para tranquilizá-lo, acrescentou: “É, ele bebeu muito, mas a Jovanka não ficou atrás, não”. Curiosa ou sintomaticamente, Jango era um tremendo mulherengo.

Maria Thereza Goulart (centro), Ieda Maria Vargas (à esquerda), Miss Universo, e a Miss Estados Unidos | Foto: Reprodução

Só Mauro Borges recebe Tito

Depois de beber em grande quantidade, no dia seguinte, bem cedo, Tito e Jovanka se apresentaram como se nada tivesse acontecido. Os governadores não queriam receber o líder comunista. “O governador Mauro Borges, de Goiás, tornou-se a exceção e aceitou receber o iugoslavo. Os casais iriam de automóvel até Anápolis para inaugurar a estação de tratamento de água da cidade, acompanhados pelo governador”, narra Wagner William. Em Alexânia, Jango e Tito entraram num boteco e tomaram a cachaça Três Fazendas. Maria Thereza e Jovanka beberam uma Coca-Cola. “Após a cerimônia em Anápolis, o governador goiano ofereceu um almoço com churrasco e vatapá.” Terá sido mesmo vatapá? Não teria sido arroz com pequi?

Tito deixou João Vicente, filho de Maria Thereza e Jango, contente ao presenteá-lo com um cachorro da raça dálmata. O menino perguntou: “Esse cachorro entende português?”

A imprensa brasileira e até alguns jornais americanos começaram a especular se Maria Thereza era mais bonita do que a primeira-dama Jacqueline Kennedy, dos Estados Unidos. A americana era mais glamourosa e famosa internacionalmente, por certo, mas a mulher de Jango era mesmo a mais bonita. As duas, igualmente, tinham classe. Maria Thereza ainda tem, pois está vivíssima.

Maria Thereza Goulart: beleza e classe. E, para variar, era uma excelente atiradora | Foto: Reprodução

Certa vez, nos Estados Unidos, Juscelino Kubitschek e Pierre Sallinger, ex-secretário de Imprensa de John Kennedy, jantavam num restaurante, e Jackie Kennedy conversou com os dois. “Lamentou a ausência de Maria Thereza na viagem de Jango aos Estados Unidos e fez a pergunta que não poderia faltar: se Maria Thereza era de fato tão bonita pessoalmente quanto nas fotos das revistas.” Era. Se nunca houve uma mulher como Gilda, a do filme, nunca houve no Brasil uma primeira-dama tão bela quanto Maria Thereza Goulart, a Teca, a Tetê — fã incondicional do cantor Frank Sinatra, outro mulherengo inveterado, que lhe enviou uma carta e uma coleção de seus discos.

Por fim, a pergunta de 1 milhão de dólares: procede que Maria Thereza, talvez a mulher mais cobiçada de seu tempo, traía João Goulart? Não há indícios, não há provas. Ela amava Jango. Este, embora a amasse, a traía. O que prova isto? Talvez nada. Ou talvez que mulheres e homens são diferentes — até muito diferentes.

A vedete Angelita Martinez, um dos casos de João Goulart | Foto: reprodução

Entre os que espalharam boatos sobre a infidelidade de Maria Thereza estava o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon. Ao criar a personagem Maria Tereza, para a TV Excelsior, o humorista Chico Anysio contribuiu para fortalecer a fofoca. Maria Tereza, a personagem, enganava o marido, um coronel nordestino. “Chico Anysio sempre negou qualquer intenção de satirizar a primeira-dama”, escreve Wagner William.

Se Maria Thereza era fiel, não se pode dizer o mesmo de seu marido. Quando vice-presidente, João Goulart teve um relacionamento com a vedete Angelita Martinez. Na biografia “Estrela Solitária — Um Brasileiro Chamado Garrincha” (Companhia das Letras, 520 páginas), Ruy Castro conta que o político e o jogador Garrincha mantiveram casos com a jovem de corpo escultural.

“Não se sabia quando o caso começara, mas muitos se lembravam de como terminara: com Jango arrombando a tiros a porta do apartamento de Angelita, num treme-treme da Rua Rodolfo Dantas, em Copacabana. Estavam brigados e, certa madrugada, ele fora visitá-la para uma reconciliação. Ela não quis abrir a porta. Ele esvaziou o tambor do seu 38, fez saltar a fechadura e entrou”, relata Ruy Castro. Wagner William menciona Angelita Martinez, “conhecida como ‘um dos maiores espetáculos da Terra’, ressalta o caso com o craque do futebol, mas não faz menção à história contada por Ruy Castro, cujo livro é arrolado na bibliografia.

Historiador diz que Jango ficou rico vendendo gado, linho e trigo

O livro “João Goulart — Uma Biografia” (Civilização Brasileira, 713 páginas), do historiador Jorge Ferreira, é um excelente complemento para o livro  “Uma Mulher Vestida de Silência —  Biografia de Maria Thereza Goulart” (Record, 643 páginas), do jornalista Wagner William. Transcrevo um trecho da obra:

“Entre 1941 e 1945, [João Goulart] construiu sua fortuna. A riqueza que o acompanhou durante toda a vida foi amealhada nessa fase. Recorrendo sistematicamente ao crédito bancário, comprava gado, engordava-o e vendia com grande velocidade. Tornou-se um dos maiores vendedores de gado aos frigoríficos rio-grandenses. João movimentava suas contas e obtinha crédito em três bancos: Banco Nacional de Comércio, Banco do Rio Grande do Sul e Banco do Brasil. Nos empréstimos bancários, dava como garantia o gado que tinha. Analisando suas transações apenas com o Banco do Brasil, percebemos seu arrojo empresarial. Em julho de 1942, possuía 1.515 novilhos. Com financiamento, comprou outros 1.531. Em agosto do ano seguinte, empenhou junto ao banco suas 4.930 cabeças de gado para obter novo empréstimo. Com o financiamento comprou outras 3.201 cabeças, todas destinadas ao abate. Em junho de 1946, era proprietário de 14.915 bovinos e 9.733 ovinos. Recorrendo novamente ao crédito bancário, comprou 7.150 novilhos, 1.100 bovinos de cria e 20 reprodutores.

“Se contabilizarmos apenas o gado apresentado como garantia aos empréstimos ao Banco do Brasil em 1946 — sem contar o gado referente ao Banco Nacional de Comércio e ao Banco do Rio Grande do Sul —, obtemos a seguinte cifra: 14.915 reses bovinas e 5.733 reses ovinas, avaliadas pelo Banco do Brasil em Cr$ 10.132.600,00. Com o dólar na época valendo Cr$ 20,00, calcula-se, em moeda norte-americana, a fortuna em gado em US$ 506.630,001. Para o valor do dólar em 1946, tratava-se de muito dinheiro. (…) Naqueles anos [1941 e 1950], arrendou 16 fazendas, sendo todas as transações registradas em cartório. Como resultado dos arrendamentos, além da engorda dos bois, em setembro de 1949, por exemplo, colheu 127.500 quilos de linho e 46.900 quilos de trigo.” (Página 46)

Jorge Ferreira, doutor em história, é professor titular de História do Brasil da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do CNPq e da Faperj.

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Luiz Roberto Bendia

Excelente matéria. Parabéns!