Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira — Liev Tolstói, no romance “Anna Kariênina”

Há quatro coisas que impressionam na direita bolsonarista. Primeiro, a violência contra mulheres. Segundo, a hipocrisia na defesa da família. Terceiro, o modo de tratar as mulheres como objeto. Quarto, a vocação antidemocrática.

Quando defende a família, um tipo de família nuclear, supostamente modelar, a direita não está cometendo um erro. Porque é um direito seu defender o tipo de família que avalia como correto.

O problema é outro. Ao menos parte da direita — Flávio Bolsonaro na primeira fila — diz uma coisa e pratica outra. Ao mesmo tempo que faz a defesa da família tradicional — marido e mulher “certinhos”, sempre prontos para fotos clássicas —, frequenta hotéis de luxo com garotas de programa.

O problema não é a sexualidade ativa e despudorada de Flávio Bolsonaro — e tantos outros. Mas o discurso público em defesa de uma família na qual, pelo que pratica, não parece acreditar. Seu discurso sobre a família é falso. O que ele professa, no dia a dia, é o sexo livre, com várias parceiras, regiamente pagas (espera-se que não dê calote. Preso, Daniel Vorcaro não tem como pagá-las).

Miriam Leitão: uma das mais importantes jornalistas do país | Foto: Reprodução

Costuma-se sugerir que, dos Bolsonaros, Flávio é o mais dionisíaco, o mais apegado aos prazeres mundanos. O que mais articula e concilia. É tão de direita quanto o pai e os irmãos. Sobretudo, precisa da direita — a bolsonarista — para se manter no topo.

Apontado como mafioso, por negociar em vários fronts, dos legais ao ilegais — como Mike Corleone, do filme “O Poderoso Chefão” —, com menos radicalismo do que o pai e hermanos, Flávio Bolsonaro é uma incógnita. Se eleito presidente, pode ser mais aberto do que Jair Bolsonaro? Talvez não. Porque precisa da direita bolsonarista para sustentá-lo no (e fora do) poder.

Flávio Bolsonaro, menos ideológico do que os irmãos e o pai, lembra, e não vagamente, o ex-presidente Fernando Collor. A impressão que se tem é que poderá constituir um governo nebuloso — semelhante ao do príncipe das Alagoas. Para encobrir os malfeitos, o fisiologismo, poderá recorrer à ideologia —  que o aliado de PC Farias não tinha.

Num livro, uma desmontagem da engrenagem bolsonarista, Juliana Dal Piva mostra como os Bolsonaros mantêm negócios nebulosos envolvendo imóveis. A estrutura de enriquecimento foi concebida, ao menos em parte, por uma ex-mulher de Bolsonaro

O bolsonarismo parece “odiar” as mulheres, notadamente as independentes. Há as rainhas do lar, que são elogiadas e até aceitam a cornice, quiçá com algum desagrado, mas sem resistência ampla.

Juliana Dal Piva: a jornalista decifrou os negócios dos Bolsonaros com imóveis | Foto: Reprodução

Mas as mulheres que expõem seus pensamentos em jornais e emissoras de televisão são execradas pelo bolsonarismo.

Jair Bolsonaro criticou, com extrema grossura, várias mulheres. Disse que não estupraria a deputada federal Maria do Rosário (PT do Rio Grande do Sul) porque era “feia”. Quer dizer, se fosse bonita, a estupraria. A ofensa, de matiz duplo, é gravíssima.

Na Presidência, sem nenhuma compostura devida ao menos ao cargo, Jair Bolsonaro atacou — e o mote justo é este: atacou — a jornalista Patrícia Campos Mello, da “Folha de S. Paulo”. Não porque cometeu algum erro, e sim por publicar reportagens sobre os equívocos do governo do líder da direita. O nível de seu linguajar, quando se referiu à jornalista, é de sub baixo claro.

O bolsonarismo atacou (e ataca) Thaís Oyama, Victoria Abel, Vera Magalhães e Miriam Leitão. Autora de um livro excepcional, “O Negócio do Jair — A História Proibida do Clã Bolsonaro” (Zahar, 328 páginas), a jornalista Juliana Dal Piva tem sido atacada com frequência pelo bolsonarismo.

O livro que mapeia o enriquecimento de Jair Bolsonaro e família | Foto: Jornal Opção

No livro, uma desmontagem da engrenagem bolsonarista, Juliana Dal Piva mostra como os Bolsonaros, sobretudo Jair Bolsonaro, mantêm negócios nebulosos envolvendo imóveis. A estrutura de enriquecimento foi concebida, ao menos em parte, por uma ex-mulher de Bolsonaro sênior.

Talvez seja possível sugerir que, quando se trata de Malu Gaspar, os petistas se tornam bolsonaristas — quer dizer, perdem a noção de limite. Já Patrícia Lelis, com sua língua implacável, consegue desconcertar até a turma dos gabinetes do ódio da direita

Retornou à imprensa a história de como Flávio Bolsonaro comprou uma casa em Brasília, avaliada em 14 milhões — mas “pagou” bem menos, com o apoio do vorcariano Banco de Brasília, o BRB. No caso da família, imóveis, sempre em grandes quantidades, parecem rimar com lavatório de dinheiro.

Agora, no ICL, Juliana Dal Piva tem publicado reportagens tão sérias quanto as da revista “Piauí” a respeito dos “negócios” dos Bolsonaros (fica-se com a impressão de que os Bolsonaros são uma família de PCs Farias, mas o alagoano ao menos sabia latim e lia Nelson Rodrigues). Os ataques redobraram. Não são espontâneos — são articulados e fomentados pelos onipresentes gabinetes do ódio da máquina bolsonarista.

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Patrícia Lelis: crítica contundente dos malfeitos dos Bolsonaros e aliados | Foto: Reprodução

O bolsonarismo esbarrou num jornalista que, sem papas na língua, responde aos ataques com críticas e denúncias bem formuladas. Patrícia Lelis, que domina as redes sociais como poucos, não brinca em serviço. Bate duríssimo no bolsonarismo e na sua turma. Parece nada temer. O bolsonarismo parece desconcertado com sua coragem, irreverência e persistência.

Patrícia Lelis excede? A impressão que se tem é que não. Aprendeu que, na batalha contra a falta de limite da direita, é preciso usar armas parecidas. Por isso critica, sem dó nem piedade, o pastor-deputado federal Marco Feliciano (acusado de estuprá-la), Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro, entre outros.

Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro: amigos, aliados e, até, “irmãos” | Fotos: Reproduções

Há, também, Malu Gaspar, que tem sido atacada mais pelo petismo. As críticas são excessivas. Porque, ao contrário de tantos colegas, a jornalista se recusa a aderir à defesa de Lula da Silva e do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Ela até pode, quem sabe, votar no petista-chefe, mas não faz a sua defesa. Pelo contrário, publica tudo, desde que checável, que chega às suas mãos. Por isso irrita o voto útil da esquerda.

Quanto a Malu Gaspar, a esquerda, parte dela, sobretudo nas redes sociais, repete o esquema desrespeitoso do bolsonarismo. É possível discordar da jornalista, avaliando com correção o que publica,, mas sem exceder nas opiniões, que, a rigor, nem são análises.

Talvez seja possível sugerir que, quando se trata de expor Malu Gaspar, os petistas se tornam bolsonaristas — quer dizer, perdem a noção de limite.

A direita bolsonarista —  Flávio Bolsonaro como centroavante — trata as mulheres, e não apenas as jornalistas, como objeto. Sugerem que devem ser donas do lar, seres perfeitos e cultuadas (devem ser “santas”). Bibelôs. Porém, os homens, como em países fundamentalistas, podem tudo — inclusive “desfrutar” de brasileiras e estrangeiras arregimentadas por Daniel Vorcaro e outros menos votados.

Por fim, há a vocação antidemocrática do bolsonarismo. Os Bolsonaros servem-se da democracia, não para fortalecê-la, e sim para combatê-la. Quem sabe, até destruí-la. Quem acredita na vocação democrática deles acaba por ser, direta ou indiretamente, um órfão da ditadura civil-militar. Porque querem é outra ditadura, similar à que vigorou de 1964 a 1985, e não uma democracia sem o PT.