Por que o bolsonarismo ataca tanto as mulheres — Juliana Dal Piva, Patrícia Campos Mello, Patrícia Lelis e Miriam Leitão?
03 outubro 2026 às 21h00

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Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira — Liev Tolstói, no romance “Anna Kariênina”
Há quatro coisas que impressionam na direita bolsonarista. Primeiro, a violência contra mulheres. Segundo, a hipocrisia na defesa da família. Terceiro, o modo de tratar as mulheres como objeto. Quarto, a vocação antidemocrática.
Quando defende a família, um tipo de família nuclear, supostamente modelar, a direita não está cometendo um erro. Porque é um direito seu defender o tipo de família que avalia como correto.
O problema é outro. Ao menos parte da direita — Flávio Bolsonaro na primeira fila — diz uma coisa e pratica outra. Ao mesmo tempo que faz a defesa da família tradicional — marido e mulher “certinhos”, sempre prontos para fotos clássicas —, frequenta hotéis de luxo com garotas de programa.
O problema não é a sexualidade ativa e despudorada de Flávio Bolsonaro — e tantos outros. Mas o discurso público em defesa de uma família na qual, pelo que pratica, não parece acreditar. Seu discurso sobre a família é falso. O que ele professa, no dia a dia, é o sexo livre, com várias parceiras, regiamente pagas (espera-se que não dê calote. Preso, Daniel Vorcaro não tem como pagá-las).

Costuma-se sugerir que, dos Bolsonaros, Flávio é o mais dionisíaco, o mais apegado aos prazeres mundanos. O que mais articula e concilia. É tão de direita quanto o pai e os irmãos. Sobretudo, precisa da direita — a bolsonarista — para se manter no topo.
Apontado como mafioso, por negociar em vários fronts, dos legais ao ilegais — como Mike Corleone, do filme “O Poderoso Chefão” —, com menos radicalismo do que o pai e hermanos, Flávio Bolsonaro é uma incógnita. Se eleito presidente, pode ser mais aberto do que Jair Bolsonaro? Talvez não. Porque precisa da direita bolsonarista para sustentá-lo no (e fora do) poder.
Flávio Bolsonaro, menos ideológico do que os irmãos e o pai, lembra, e não vagamente, o ex-presidente Fernando Collor. A impressão que se tem é que poderá constituir um governo nebuloso — semelhante ao do príncipe das Alagoas. Para encobrir os malfeitos, o fisiologismo, poderá recorrer à ideologia — que o aliado de PC Farias não tinha.
Num livro, uma desmontagem da engrenagem bolsonarista, Juliana Dal Piva mostra como os Bolsonaros mantêm negócios nebulosos envolvendo imóveis. A estrutura de enriquecimento foi concebida, ao menos em parte, por uma ex-mulher de Bolsonaro
O bolsonarismo parece “odiar” as mulheres, notadamente as independentes. Há as rainhas do lar, que são elogiadas e até aceitam a cornice, quiçá com algum desagrado, mas sem resistência ampla.

Mas as mulheres que expõem seus pensamentos em jornais e emissoras de televisão são execradas pelo bolsonarismo.
Jair Bolsonaro criticou, com extrema grossura, várias mulheres. Disse que não estupraria a deputada federal Maria do Rosário (PT do Rio Grande do Sul) porque era “feia”. Quer dizer, se fosse bonita, a estupraria. A ofensa, de matiz duplo, é gravíssima.
Na Presidência, sem nenhuma compostura devida ao menos ao cargo, Jair Bolsonaro atacou — e o mote justo é este: atacou — a jornalista Patrícia Campos Mello, da “Folha de S. Paulo”. Não porque cometeu algum erro, e sim por publicar reportagens sobre os equívocos do governo do líder da direita. O nível de seu linguajar, quando se referiu à jornalista, é de sub baixo claro.
O bolsonarismo atacou (e ataca) Thaís Oyama, Victoria Abel, Vera Magalhães e Miriam Leitão. Autora de um livro excepcional, “O Negócio do Jair — A História Proibida do Clã Bolsonaro” (Zahar, 328 páginas), a jornalista Juliana Dal Piva tem sido atacada com frequência pelo bolsonarismo.

No livro, uma desmontagem da engrenagem bolsonarista, Juliana Dal Piva mostra como os Bolsonaros, sobretudo Jair Bolsonaro, mantêm negócios nebulosos envolvendo imóveis. A estrutura de enriquecimento foi concebida, ao menos em parte, por uma ex-mulher de Bolsonaro sênior.
Talvez seja possível sugerir que, quando se trata de Malu Gaspar, os petistas se tornam bolsonaristas — quer dizer, perdem a noção de limite. Já Patrícia Lelis, com sua língua implacável, consegue desconcertar até a turma dos gabinetes do ódio da direita
Retornou à imprensa a história de como Flávio Bolsonaro comprou uma casa em Brasília, avaliada em 14 milhões — mas “pagou” bem menos, com o apoio do vorcariano Banco de Brasília, o BRB. No caso da família, imóveis, sempre em grandes quantidades, parecem rimar com lavatório de dinheiro.
Agora, no ICL, Juliana Dal Piva tem publicado reportagens tão sérias quanto as da revista “Piauí” a respeito dos “negócios” dos Bolsonaros (fica-se com a impressão de que os Bolsonaros são uma família de PCs Farias, mas o alagoano ao menos sabia latim e lia Nelson Rodrigues). Os ataques redobraram. Não são espontâneos — são articulados e fomentados pelos onipresentes gabinetes do ódio da máquina bolsonarista.

O bolsonarismo esbarrou num jornalista que, sem papas na língua, responde aos ataques com críticas e denúncias bem formuladas. Patrícia Lelis, que domina as redes sociais como poucos, não brinca em serviço. Bate duríssimo no bolsonarismo e na sua turma. Parece nada temer. O bolsonarismo parece desconcertado com sua coragem, irreverência e persistência.
Patrícia Lelis excede? A impressão que se tem é que não. Aprendeu que, na batalha contra a falta de limite da direita, é preciso usar armas parecidas. Por isso critica, sem dó nem piedade, o pastor-deputado federal Marco Feliciano (acusado de estuprá-la), Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro, entre outros.

Há, também, Malu Gaspar, que tem sido atacada mais pelo petismo. As críticas são excessivas. Porque, ao contrário de tantos colegas, a jornalista se recusa a aderir à defesa de Lula da Silva e do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Ela até pode, quem sabe, votar no petista-chefe, mas não faz a sua defesa. Pelo contrário, publica tudo, desde que checável, que chega às suas mãos. Por isso irrita o voto útil da esquerda.
Quanto a Malu Gaspar, a esquerda, parte dela, sobretudo nas redes sociais, repete o esquema desrespeitoso do bolsonarismo. É possível discordar da jornalista, avaliando com correção o que publica,, mas sem exceder nas opiniões, que, a rigor, nem são análises.
Talvez seja possível sugerir que, quando se trata de expor Malu Gaspar, os petistas se tornam bolsonaristas — quer dizer, perdem a noção de limite.
A direita bolsonarista — Flávio Bolsonaro como centroavante — trata as mulheres, e não apenas as jornalistas, como objeto. Sugerem que devem ser donas do lar, seres perfeitos e cultuadas (devem ser “santas”). Bibelôs. Porém, os homens, como em países fundamentalistas, podem tudo — inclusive “desfrutar” de brasileiras e estrangeiras arregimentadas por Daniel Vorcaro e outros menos votados.
Por fim, há a vocação antidemocrática do bolsonarismo. Os Bolsonaros servem-se da democracia, não para fortalecê-la, e sim para combatê-la. Quem sabe, até destruí-la. Quem acredita na vocação democrática deles acaba por ser, direta ou indiretamente, um órfão da ditadura civil-militar. Porque querem é outra ditadura, similar à que vigorou de 1964 a 1985, e não uma democracia sem o PT.


