Seleção brasileira disputou amistosos no país do Oriente Médio em meio à investigação sobre colunista crítico ao governo local

Neymar driblando jogadores sauditas | Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Passada a Copa do Mundo, o interesse da sociedade pelo futebol naturalmente diminuiu, principalmente após a seleção brasileira não ter conquistado o mundial e ter escolhido disputar amistosos contra times inexpressivos, como El Salvador e Arábia Saudita — também jogou contra equipes melhores, como Estados Unidos e Argentina, mas, mesmo assim, quase ninguém prestou a atenção.

Futebol à parte, chamou a atenção o país escolhido para os dois últimos confrontos: a Arábia Saudita, uma das nações mais fechadas e conservadoras do mundo, apesar do príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman — que, na prática, já é quem governa —, tentar passar uma imagem de modernização — autorizou as mulheres a dirigir e a entrar em estádios há pouco tempo.

Contudo, a Arábia Saudita continua decapitando pessoas em praça pública às sextas-feiras e, além disso, difunde a ideologia wahhabita do islamismo sunita pelo mundo. O wahhabismo é vertente seguida por grupos terroristas como o autoproclamado Estado Islâmico e a al-Qaeda, responsáveis por uma série de atentados tanto no Oriente Médio quanto no Ocidente.

Os amistosos da seleção brasileira contra a Arábia Saudita e a Argentina, realizados em Riade e Jidá, respectivamente, fez com que jornalistas boicotassem a cobertura devido aos abusos cometidos pelo governo local. Este é o caso de Fernando Kallás, do SporTV e do Diario AS, da Espanha. “A Arábia Saudita é o câncer do Oriente Médio”, disse, no Twitter, o jornalista brasileiro baseado em Madri.

Jornalista brasileiro Fernando Kallás | Foto: Reprodução/Twitter

No Facebook, um de seus seguidores não gostou da ideia. “É dever do jornalista informar. O brasileiro que gosta e acompanha a seleção não pode ficar sem informação. Imagine se todos os jornalistas seguissem o seu exemplo”, afirmou o usuário identificado como Marcus Ronaldo.

Fernando Kallás, que é de origem libanesa, foi categórico na resposta: “Como árabe casado com uma mulher árabe e com vários membros de nossas famílias vivendo hoje no Líbano e na Síria, sofremos diariamente com o wahhabismo. As maiores vítimas de ataques a bomba e suicidas são os próprios árabes. Mês passado morreram 315 pessoas na cidade da minha mulher na Síria em apenas um ataque. Uma das vítimas foi o tio dela. Além de milhares civis, incluindo crianças, que a Arábia Saudita já matou em ataques aéreos ao Iêmen. Tenho um compromisso pessoal de nunca pisar na Arábia Saudita”.

O jornalista rebateu, ainda, o argumento de que sua função é informar. “Você tem razão que meu dever é informar. Informar que você deveria ignorar um amistoso insignificante e se preocupar com a conivência da CBF [Confederação Brasileira de Futebol] com um país que é uma ameaça ao mundo que você vive.”

Jamal Khashoggi

Como se não bastassem as atrocidades mencionadas, as partidas do Brasil na Arábia Saudita ocorreram justamente em meio a investigações sobre a morte do jornalista Jamal Khashoggi, que desapareceu no início do mês após ter entrado no Consulado Geral saudita em Istambul, na Turquia.

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Colunista do jornal estadunidense “The Washington Post”, Jamal Khashoggi era um dos principais críticos do governo saudita. A polícia turca investiga o caso e sempre disse ter evidências suficientes para afirmar que o jornalista foi morto dentro do consulado antes mesmo da Arábia Saudita admitir a sua morte — não deixa de ser irônico o fato de que a Turquia, um dos países cujo governo mais persegue a imprensa, esteja à frente das investigações.

A Arábia Saudita é um grande aliado dos Estados Unidos na região. O presidente dos EUA, Donald Trump, garante que tomará medidas duras, mas afirmações do republicano não são levadas a sério, uma vez que o país movimentaa bilhões de dólares em compras de armas estadunidenses. Além disso, um acirramento das tensões pode favorecer o Irã, adversário dos sauditas na região com o qual Donald Trump joga duro.

A presença da seleção brasileira na Arábia Saudita pelo menos fez com que houvesse uma cobertura deste caso direto do país comandado por Mohammed bin Salman — algo raro para a imprensa internacional. O experimentado jornalista Marcos Uchôa foi o responsável por levar as informações sobre Jamal Khashoggi ao público brasileiro.