Marcelo Mariano
Marcelo Mariano

Por que jornalistas boicotaram a cobertura dos jogos do Brasil na Arábia Saudita?

Seleção brasileira disputou amistosos no país do Oriente Médio em meio à investigação sobre colunista crítico ao governo local

Neymar driblando jogadores sauditas | Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Passada a Copa do Mundo, o interesse da sociedade pelo futebol naturalmente diminuiu, principalmente após a seleção brasileira não ter conquistado o mundial e ter escolhido disputar amistosos contra times inexpressivos, como El Salvador e Arábia Saudita — também jogou contra equipes melhores, como Estados Unidos e Argentina, mas, mesmo assim, quase ninguém prestou a atenção.

Futebol à parte, chamou a atenção o país escolhido para os dois últimos confrontos: a Arábia Saudita, uma das nações mais fechadas e conservadoras do mundo, apesar do príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman — que, na prática, já é quem governa —, tentar passar uma imagem de modernização — autorizou as mulheres a dirigir e a entrar em estádios há pouco tempo.

Contudo, a Arábia Saudita continua decapitando pessoas em praça pública às sextas-feiras e, além disso, difunde a ideologia wahhabita do islamismo sunita pelo mundo. O wahhabismo é vertente seguida por grupos terroristas como o autoproclamado Estado Islâmico e a al-Qaeda, responsáveis por uma série de atentados tanto no Oriente Médio quanto no Ocidente.

Os amistosos da seleção brasileira contra a Arábia Saudita e a Argentina, realizados em Riade e Jidá, respectivamente, fez com que jornalistas boicotassem a cobertura devido aos abusos cometidos pelo governo local. Este é o caso de Fernando Kallás, do SporTV e do Diario AS, da Espanha. “A Arábia Saudita é o câncer do Oriente Médio”, disse, no Twitter, o jornalista brasileiro baseado em Madri.

Jornalista brasileiro Fernando Kallás | Foto: Reprodução/Twitter

No Facebook, um de seus seguidores não gostou da ideia. “É dever do jornalista informar. O brasileiro que gosta e acompanha a seleção não pode ficar sem informação. Imagine se todos os jornalistas seguissem o seu exemplo”, afirmou o usuário identificado como Marcus Ronaldo.

Fernando Kallás, que é de origem libanesa, foi categórico na resposta: “Como árabe casado com uma mulher árabe e com vários membros de nossas famílias vivendo hoje no Líbano e na Síria, sofremos diariamente com o wahhabismo. As maiores vítimas de ataques a bomba e suicidas são os próprios árabes. Mês passado morreram 315 pessoas na cidade da minha mulher na Síria em apenas um ataque. Uma das vítimas foi o tio dela. Além de milhares civis, incluindo crianças, que a Arábia Saudita já matou em ataques aéreos ao Iêmen. Tenho um compromisso pessoal de nunca pisar na Arábia Saudita”.

O jornalista rebateu, ainda, o argumento de que sua função é informar. “Você tem razão que meu dever é informar. Informar que você deveria ignorar um amistoso insignificante e se preocupar com a conivência da CBF [Confederação Brasileira de Futebol] com um país que é uma ameaça ao mundo que você vive.”

Jamal Khashoggi

Como se não bastassem as atrocidades mencionadas, as partidas do Brasil na Arábia Saudita ocorreram justamente em meio a investigações sobre a morte do jornalista Jamal Khashoggi, que desapareceu no início do mês após ter entrado no Consulado Geral saudita em Istambul, na Turquia.

Colunista do jornal estadunidense “The Washington Post”, Jamal Khashoggi era um dos principais críticos do governo saudita. A polícia turca investiga o caso e sempre disse ter evidências suficientes para afirmar que o jornalista foi morto dentro do consulado antes mesmo da Arábia Saudita admitir a sua morte — não deixa de ser irônico o fato de que a Turquia, um dos países cujo governo mais persegue a imprensa, esteja à frente das investigações.

A Arábia Saudita é um grande aliado dos Estados Unidos na região. O presidente dos EUA, Donald Trump, garante que tomará medidas duras, mas afirmações do republicano não são levadas a sério, uma vez que o país movimentaa bilhões de dólares em compras de armas estadunidenses. Além disso, um acirramento das tensões pode favorecer o Irã, adversário dos sauditas na região com o qual Donald Trump joga duro.

A presença da seleção brasileira na Arábia Saudita pelo menos fez com que houvesse uma cobertura deste caso direto do país comandado por Mohammed bin Salman — algo raro para a imprensa internacional. O experimentado jornalista Marcos Uchôa foi o responsável por levar as informações sobre Jamal Khashoggi ao público brasileiro.

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