Euler de França Belém
Euler de França Belém

Plástica remoçou a “pele” mas não renovou o jornalismo do “Jornal Nacional”

Feita a plástica, que remoçou a “pele”, falta dotar o “Jornal Nacional” de um jornalismo mais esclarecedor e de reportagens que retratem a diversidade e complexidade do Brasil

Durante anos, jornais impressos faziam reformas gráficas, que são mais fáceis de se fazer, às vezes para esconder a ausência de uma reforma editorial. Aos poucos, os leitores percebiam que era apenas mais do mesmo. Até os erros, eventualmente, não variavam. Na televisão, em praticamente todos as emissoras, não têm sido muito diferente. Mudam os cenários, mas o conteúdo e o enfoque permanecem os mesmos. A TV Globo apresentou a “nova” cara do “Jornal Nacional” na segunda-feira, 19. Não há dúvida de que plasticamente ficou mais bonito, mas, embora possa não ter sido a experiência dos demais telespectadores, fiquei com a impressão de que o cenário, com o fundo em movimento, distrai a atenção da apresentação das notícias.

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Se mudou a plástica, se promete fazer um jornalismo mais interativo com a sociedade — os telespectadores podem ser abordados de maneira mais fácil e, decerto, querem interagir ou, digamos, participar de maneira mais efetiva, como agentes —, o “Jornal Nacional” não mudou o conteúdo. Persiste o jornalismo tradicional, com escasso comentário analítico e sem reportagens que abarquem todo o país e que não o mostrem apenas pelo aspecto folclórico. País continental, o Brasil não é só litoral, como cantou Milton Nascimento. Mas o “Jornal Nacional” tem uma pegada carioca, às vezes paulista e, não raro, brasiliense. Falta (o) Brasil no “Jornal Nacional”. Falta ao carro-chefe da TV Globo se tornar “nacional”, mais brasileiro. Faltam reportagens mais consistentes — e seus repórteres sabem produzi-las, tanto que, quando acionados, criam textos e imagens extraordinários.

A respeito da opinião, todo cuidado é pouco. Um telejornalismo só de opinião se tornaria tão chato que levaria os telespectadores a migrarem, rapidamente, para outras emissoras. Mas uma opinião curta mas consistente deve ser apresentada aos telespectadores, para que ajude a compreender os fatos. Fatos apresentados de forma crua, sobretudo a respeito de assuntos áridos, são de uma inutilidade completa. Um jornalista experimentado pode explicá-los rapidamente, sem se tornar chato. O professor universitário Demétrio Magnoli, nas suas incursões na Globo News, tem explicado a política internacional muito mais do que os correspondentes, que, com imagens de outras emissoras e redes e leitura de jornais, pouco acrescentam ao que já se sabe a respeito dos acontecimentos.

Feita a plástica, que remoçou a “pele” — frise-se que o novo às vezes nasce velho —, falta dotar o “Jornal Nacional” de um jornalismo mais esclarecedor e, também, de reportagens que retratem a diversidade e complexidade do Brasil.

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