Euler de França Belém
Euler de França Belém

Modelo de jornalismo sem opinião do JN está se esgotando. O Em Pauta deveria inspirá-lo

O “JN” e o “Em Pauta” têm perfis diferentes, mas o segundo, com sua opinião abalizada e até divertida, poderia influenciar uma leve mudança no telejornal-pai

Reprodução

Há excesso de opinião no jornalismo brasileiro? Excesso, não há. Mas, aqui e ali, falta opinião abalizada a respeito de alguns temas. Nas emissoras de televisão, nas quais faltava opinião e sobravam narradores-apresentadores e repórteres-narradores, o quadro está mudando, especialmente na Globo News. Neste canal, há comentaristas preparados discutindo vários temas, inclusive economia, assunto quase sempre árido para os mortais. Mara Luquet e Thaís Herédia, entre outros, explicam o que está ocorrendo na economia, talvez com uma ênfase excessiva no mercado financeiro, com clareza e seriedade. Míriam Leitão é hors concours: sempre competente e de uma seriedade exemplar. Quando conversa com um especialista às vezes fica-se com a impressão de que ela, sim, deveria ser a entrevistada, tal a qualidade de sua opinião, informação e formação.

Entretanto, se a Globo News avançou e está avançando — a análise política é de alta qualidade, especialmente com Renata lo Prete, Eliane Cantanhêde e Gerson Camarotti (que funde bem reportagem e opinião, permitindo que esta seja estribada naquela) —, quem dirige o “Jornal Nacional” insiste em manter a velha fórmula de divulgar sem comentar as notícias. O modelo ficou antiquado. É como se seus profissionais não tivessem opinião e, por isso, tivessem de recorrer à opinião de alguém da sociedade. Porém, mesmo quando um especialista fala, tentando explicar um fato mais intrincado, o tempo é tão curto que o telespectador fica com a impressão de que viu e ouviu um ET. Num tempo reduzido, um jornalista especializado analisa um fato de maneira mais precisa e compreensível.

Não há a menor dúvida de que William Bonner e Renata Vasconcellos, com seus substitutos, como Chico Pinheiro e Heraldo Pereira, são apresentadores de primeira linha. Mas até quando vão se comportar como meros narradores? No “Bom Dia Brasil”, Chico Pinheiro e Ana Paula Araújo ousam um pouco mais e opinam sobre os fatos, na maioria das vezes com precisão e, até, de maneira corajosa. Há o risco de tornar o “Jornal Nacional” monótono, no caso de excesso de opinião. Mas chegou a hora, ou está passando da hora, de o editor apostar numa opinião política e econômica abalizada para ajudar os telespectadores a entenderem o que está acontecendo no país e no mundo. Se não fizer isto, o “JN” vai informar, com certa qualidade, mas vai deixar o seu telespectador parcialmente desconectado da realidade. Não se trata de substituir os apresentadores-narradores, que são necessários, até porque o tempo do telejornal é curto, e sim, diria um economista, de agregar valor, de tornar a informação mais rica e compreensível.

O próprio William Bonner, profissional sério e equilibrado, eventualmente poderia deixar a torre de marfim, a pose de deus grego, e opinar sobre alguns acontecimentos. Até um adjetivo — ao lado do advérbio, é a alma (a carnadura) da língua, ainda que precise dos ossos e dos músculos dos verbos e substantivos — bem colocado, um digamos “é um absurdo!”, daria um pouco mais de colorido e humanidade à apresentação. O sucesso de Maria Júlia Coutinho, ao apresentar as notícias do tempo, decorre de que passa as informações de maneira correta, mas com alma; o tempo, que parecia uma coisa morta, se tornou uma coisa viva. De algum modo, Maju retira a fleuma do jornalismo do “JN”.

Não se está recomendando, frise-se, que o “Jornal Nacional” se torne um “Em Pauta”, porque os perfis dos telejornais e dos telespectadores são diferentes. O que se está sugerindo é que o “JN”, que faz um jornalismo de primeira linha, dada a equipe de profissionais competentes, absorva alguma coisa, não muita coisa, do “Em Pauta”, em especial a análise precisa de uma Renata lo Prete, de uma Thaís Herédia, de uma Miríam Leitão. De repente, dou-me conta que citei apenas mulheres, grandes mulheres — competentes e íntegras. Mas há, claro, homens muito bons, como o preciso e elegante Jorge Pontual (o lorde do jornalismo brasileiro; se me dissessem que é inglês, eu não duvidaria) e Gerson Camarotti, que, repito, é excelente. Acima de tudo, é um repórter que sabe analisar e conectar os fatos.

O “Jornal Nacional” funciona bem, mas é sempre possível melhorar o que já está dando certo.

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ADALBERTO DE QUEIROZ

Pelo menos o cenário muda, a partir de segunda-feira, 19/06, vejamos se outras mudanças virão, Euler.