Os legatários do fascismo europeu entram na pós-modernidade

Saindo do armário, a extrema direita está dando as caras de novo, com teses não liberais e criticando a imigração e as políticas de gênero

Halley Margon

De Barcelona

Nikos Mijaloliakos: líder neonazista da Grécia | Foto: Reprodução

O neofascismo europeu está tomando um banho de loja e tratando de se rejuvenescer. Quer entrar de vez nos pós-modernismos com um projeto que parece estar dando frutos. Uma vasta e detalhada pesquisa publicada em meados de junho de 2020 pelo jornal “El País”, da Espanha, tenta estabelecer os contornos e definir o conteúdo dessa gente a cada dia mais disposta a sair do armário. Maculada pelos crimes contra a humanidade e as barbaridades de todos os quilates cometidos pelos regimes nazifascistas na primeira metade do século e, na península Ibérica, até quase três décadas depois, só com muito vagar foi dando as caras de novo.

Não se trata apenas de hordas patéticas como a agremiação neonazista do grego Nikos Mijaloliakos (o Amanhecer Dourado) que, após surpreendentes votações em 2012 e 2016, nas quais alçou o posto de terceiro partido do país, foi expelida do Parlamento nas eleições de 2019  — com menos de 10% dos votos nacionais não aparece na pesquisa (há um documentário sobre esse curto ápice, “As Garotas do Amanhecer Dourado”, de 2017, dirigido por Havard Bustnes). A referência é também a formações políticas muito mais consolidadas e portentosas como a de Marine Le Pen na França — e elas são muitas por toda a Europa. De todo modo, há para quase todos os gostos e nenhum deles está para brincadeiras.

Marine Le Pen: direita da França | Foto: Reprodução

Dezessete partidos

A pesquisa envolveu 50 acadêmicos, de 46 instituições e de cerca de vinte países, e ajuda a entender “a heterogênea onda de formações conservadoras, nacionalistas e radicais que percorrem o continente” há pelo menos dez anos. A esses pesquisadores foi pedido que se pronunciassem sobre temas como: a ideologia geral de cada agremiação, suas posturas sobre economia, valores sociais e democráticos, segurança, políticas de imigração e a integração dos estrangeiros.

Matteo Salvini: da direita da Itália | Foto: Reprodução

Volta e meia um Matteo Salvini (Liga do Norte na Itália) ou um Viktor Orbán (Fidesz da Hungria) provoca alvoroço com declarações agressivas ou estapafúrdias sobre como lidar com alguns dos nós da sociedade europeia — a imigração e suas consequências, por exemplo, ou as políticas de gênero. Sua mera existência deixa perplexa a boa consciência que resta no planeta. Parte da má notícia é que alguns deles estão chegando ao poder. No entanto, quando nos deparamos com a lista desses atores (os pesquisados) e suas proezas reais, o susto pode ser bem maior. É verdade que nem todos são gente como o temerário falastrão Salvini ou o apoplético Mijaloliakos, mas estão sem exceção, de acordo com a pesquisa produzida pelo “El País”, pelo menos à direita dos tradicionais partidos de direita. E ampliando seu eleitorado, sua sustentação política.

Viktor Orbán: da extrema direita da Hungria | Foto: Reprodução

Cada um dos 17 partidos pesquisados obteve um mínimo de 11,1% dos votos nos últimos pleitos realizados em seus respectivos países.

Dez deles são considerados o pedaço mais leve da ultradireita ou, como nomina o jornal, direita populista radical — La Liga de Salvini está entre esses moderados — e  sua base eleitoral vai de 12% (Interesse Flamenco, na Bélgica) a 17,8% (Partido Popular Conservador-EKRE, da Estônia). Entre estes situa-se também o mais que conhecido Reagrupamento Nacional (antiga Frente Nacional), de Marine Le Pen, na França.

Nos sete restantes, os mais radicalizados, segundo os critérios da pesquisa, as votações vão de 11,1% (Aliança Nacional-AN da Letônia)  a 49,2% (o União Cívica Húngara-Fidesz) ou o Lei e Justiça-PiS da Polônia, com 43,6% do eleitorado.

O Fidesz de Viktor Orbán governa a Hungria desde 2010 (é seu quarto mandato e o terceiro consecutivo — governou antes, de 1998 a 2002). Na União Europeia pertence ao Partido Popular Europeu (ao qual está também filiado o CDU de Angela Merkel na Alemanha e o PP espanhol), mas há dois anos está suspenso por conta de sua “deriva autoritária”. Um dos seus fundadores e fiel companheiro de Orbán é Zsolt Bayer. Num documentário sobre as recentes eleições húngaras (“Hungria 2018” de Eszten Hajadú) aparece no palco de um pequeno auditório vituperando como um falastrão num bar. Reproduzo:

“As creches inglesas convidam travestis a ler histórias para crianças. Resumindo: nos últimos seis meses, na Inglaterra, 1304 crianças foram operadas por seus próprios pais para mudar de sexo. Estamos falando de crianças de 4, 8 e 10 anos cujos pais imbecis os levam a clínicas onde supostos médicos inflam meninas de testosterona e meninos de estrogênio para interromper um processo biológico natural e prepará-las para a cirurgia. Um travesti lê uma história no berçário, o pequeno George, 4 anos, vai para casa e diz: ‘Mamãe, não me sinto mais como George, me sinto como Claire!’. Angela Merkel não tem filhos … os líderes belgas e holandeses também não têm filhos e o líder luxemburguês não pode ter filhos porque sua esposa é homem. [Gargalhadas na platéia.] Os que têm filhos na União Europeia são os líderes poloneses, tchecos, eslovacos e húngaros, que têm cinco.”

Esse tipo de grotesquerie não é apenas risível, às vezes é também terrível, é tenebroso. E quando perde a vergonha de mostrar a cara se transforma numa ameaça. A exibição orgulhosa da própria peçonha estimula a boçalidade da até então bem comportada audiência. O mal e a cretinice acanhada do cidadão comum adora afagos. Não é preciso muito para fazê-los emergir e se tornarem energia política à disposição de aventureiros como Bayer, Orbán ou Abascal.

A realização da pesquisa revela parte da preocupação com essa sombra que avança, de novo, sobre a Europa.

O que os une e como defini-los

Virou moda dizer “não somos nem de esquerda nem de direita” – o diz tanto Le Pen quanto o presidente da França, Emmanoel Macron. Essa declaração de pretensa superioridade moral já não é portanto propriedade dos partidos que pretendem se apresentar como centristas. Agora, nem a extrema direita é mais de direita. Nem toda, é claro. Há os que sem nenhuma inibição desfilam com tochas nas mãos trajando uniformes e símbolos que lembram os bandos hitleristas.  Mesmo assim, para a pesquisa do “El País”, essa “rejeição dos rótulos políticos clássicos… é (um dos sinais) de identidade muito difundido na extrema direita europeia”.

Na tentativa de definir o contorno desses agrupamentos, a pesquisa os nomina em princípio como ultradireita. Mas logo alerta que no bojo dessa etiqueta haveria que anotar dois subtipos. O primeiro seria a direita radical: “Autoritária e iliberal, mas não abertamente antidemocrática, porque aceita o jogo eleitoral e parlamentar e tenta cortar laços com pessoas e organizações assumidamente (pós) fascistas”. O outro subtipo seria a extrema direita: que não é apenas “iliberal, mas também antidemocrática e geralmente exibe atitudes apologéticas intransigentes em relação às ditaduras fascistas do século passado e postulados abertamente racistas, biológicos ou antissemitas”.

Santiago Abascal, da Espanha: flexibilizando a atuação | Foto: Reprodução

Evidentemente, nada está em estado puro e o movimento dentro desses partidos é constante. O próprio RN de Marine Le Pen (13,2% nas últimas eleições francesas), embora se apresente com uma identidade nacional nítida e hoje muito mais palatável a novas fatias do eleitorado que à época que o comandava seu fundador, tem discursos variados e adaptados a cada região do país (às vezes de extrema direita, outras de direita radical, para adotar as nominações escolhidas pela pesquisa — e, ainda, às vezes tão difuso quanto os de um partido de centro). O documentário “O Exército de Marine Le Pen”, de 2018, de Fréderic Biamonti, se embrenha na última campanha eleitoral do partido.

Na Hungria a trajetória de radicalização à direita do movimento de Orbán fez com que fosse suspenso da agremiação europeia a que pertencia (e que reúne a direita tradicional). Na Espanha, o Vox de Santiago Abascal, situado pela enquete como um dos mais extremistas, no curtíssimo período de um ano, desde que viu se multiplicarem seus votos, ratou de flexibilizar a atuação. Alguns pesquisadores o definem como um “partido especialmente reacionário no social… mas que está em pleno processo de auto definição”. Em duas matérias mantém a intransigência radical que em geral o caracteriza: a rejeição às políticas de gênero e, sobretudo, ao movimento independentista da Catalunha.

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