Euler de França Belém
Euler de França Belém

O triste Samba de Orley

Ao contrário do que sugere Orley José, o governo não vai implantar ideologia de gênero na escola; só propôs estender e escancarar a ideologização já cotidiana e sub-reptícia na cultura brasileira

Thiago Cazarim

O mestre em Linguística Orley José da Silva publicou um artigo (http://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/planos-de-educacao-querem-experimentar-a-ideologia-de-genero-nesta-geracao-de-criancas-38069/), na edição online do Jornal Opção, no domingo, 14, no qual discorre sobre o que se supõe ser a tentativa de implantar o ensino do que o autor chama de “Ideologia de Gênero” nas escolas públicas do Brasil. Esta tentativa seria, segundo o texto de Orley José, capitaneada pelo governo federal, e se trata de uma tentativa de interferir na formação cultural de nossas crianças e da nossa juventude.

Não obstante discordar razoavelmente (não completamente, na verdade) de que o governo atua com força na área LGBT (apenas recordemos o veto da presidente Dilma Rousseff ao Kit Anti-Homofobia e sua fala desastrosa de que o governo não faria propaganda de costumes [sexuais]), na qualidade tripla de militante de esquerda, homem gay e professor de música do Instituto Federal de Goiás, portanto, da rede pública federal de ensino, senti-me na obrigação de elevar o debate posto por Orley José.

Por alguns instantes, pensei em elencar uma série de argumentos teóricos, figuras retóricas e fatos históricos da militância docente e LGBT, mas acho que uma escrita “parabólica” ilustraria muito melhor às almas que não hesitam em bradar contra a suposta Ideologia de Gênero do projeto inicial do atual PNE a defesa que faço (enquanto gay, militante e professor) da escola como espaço adequado e necessário para a discussão das questões sexuais e de gênero de forma ampla. (Além disso, esta é uma artimanha de quem eventualmente se ocupa das letras. Afinal, se Cristo lançava mão da parábola para persuadir seus interlocutores, quem sou eu para não seguir os passos do Mestre? Mas, como sou mais humilde do que aparenta, não me arrisco às parábolas. Limito-me a uma série de exemplos bem diretos, quase jornalísticos.)

Vejamos uma lista de situações cotidianas que pretende expor com leveza as inúmeras ironias contidas na falaciosa denúncia da ditadura gayzista. (E também para mostrar que os gays, professores e marxistas são pessoas que se divertem e que têm na alegria o mote de suas lutas.)

1) Mariana acaba de dar seus primeiros passos. Toda vestida de branco e rosa, caminha parcamente diante de seus genitores, que já planejam as primeiras aulas de balé.

2) Augusto odeia esportes, jogos e brincadeiras agressivas, não fala palavrão, não cospe no chão, não arrota em público. Augusto foge da bola como o diabo da cruz e o vampiro do sol. Augusto, mariquinha, efeminado, homem menor em sua masculinidade.

3) O padre de Cuiabá, famoso por condenar a Ideologia de Gênero, recomenda em um de seus mais assistidos vídeos que se ensine os meninos a brincar de guerra e de luta. Afinal, isto tudo não é um processo de doutrinação ou intervenção cultural, é apenas a Mãe Natureza se manifestando. (Recomendo, aliás, o brilhante cartum recentemente feito por Laerte a este respeito.)

4) Ainda sobre a Natureza, o que fazer com a Biologia, essa marota, que define que os pares cromossômicos XX e XY nem sempre estejam diretamente ligados ao processo de divisão celular, este sim responsável pela formação de nossa genitália?

5) Em nossas escolas, os meninos “naturalmente” jogam futebol (ai, ai, o futebol outra vez…) e as meninas “naturalmente” fazem ginástica. Afinal, os esportes, Obra Magna do Criador, jamais foram inventados e usados para classificar, dominar e objetificar os corpos e as almas. Glória a Deus por essa sempiterna instituição!

Deixo ao leitor a tarefa de lidar com a ironia (nada fina, porque não sou dado a sutilezas) dos exemplos acima.

Mas vou me demorar um pouco mais para rebater apenas um ponto do lamentoso canto de Orley José contra a Ideologia de Gênero. Caríssimo, o governo não vai implantar nada, apenas propôs estender e escancarar a ideologização que já é cotidiana e sub-reptícia em nossa cultura. Aliás, não arrisco aqui dar esses louros ao governo petista, visto que esta proposta só será realmente posta em operação como resultado das disputas políticas da nossa militância, a dos professores, a da esquerda política e a da população LGBT. Não deposite tantas esperanças neste governo, Orley! Até mesmo para a oposição isto será decepcionante, asseguro!

Digamos com franqueza: qual das nossas instituições não possui ideologia de gênero? A moda, o esporte, a teledramaturgia, o exército, as religiões: todas estas e quantas mais se puder imaginar, sim, delineiam diariamente, e não sem peso, relações de gênero e sexualidade em nossas crianças e adolescentes.

Portanto, sejamos coerentes: se queremos o fim da Ideologia de Gênero, não adianta apelar à Natureza (pois esta não é capaz de responder pela cultura) nem tampouco à tradição (que não passa de uma forma ideológica dissimulada). O fim da Ideologia de Gênero, se fosse possível, só viria com o fim da cultura — e, ao que me consta, nenhum projeto neste sentido tem sido demandado.

Como não estamos a bradar pelo nosso fim enquanto seres primeiramente culturais (primeiridade ontológica, não necessariamente cronológica), bom seria repetir aqui uma indagação recorrente em minha rotina como docente de música. “Mas você não acha, professor, que ouvir músicas ‘pesadas’, com letras ‘depravadas’ ou que retratem a violência de forma crua no ambiente escolar seria estimular nossos estudantes a se perderem na vida?”. A esta questão, como à questão da Ideologia de Gênero, respondo o mesmo. Os e as estudantes, inevitavelmente, tomarão contato com discursos, produtos, ideias, imagens e representações variadas do que seja sexo, gênero, violência, afetividade. Não seria melhor que estes assuntos e polêmicas fossem desenvolvidos também no ambiente escolar, como momento formativo e de diálogo? Ou alguém seria inocente o bastante para achar que o ambiente extraescolar intervém menos na formação de um indivíduo do que a discussão da igualdade de gênero?

Não sei quanto aos senhores, mas eu é que não vou entrar no passo desse Samba de Orley. Enquanto puder, chamarei à roda os estudantes sob minha responsabilidade para dançarmos e cantarmos juntos as nossas dúvidas, incompreensões, certezas e anseios. A escola, sim, será o palco dessa festa. Porque aprender a conviver com a diferença, a alegria, o desejo e a angústia, graças a Deus!, também é assunto da escola.

Thiago Cazarim é professor de música do Instituto Federal de Goiás.

6 respostas para “O triste Samba de Orley”

  1. Avatar Francisco Gomes Neto disse:

    Não sou preconceituoso, não desrespeito a opção sexual de quem quer que seja. No entanto, não admito de forma alguma, que uma ideologia contrária à da Criação de Deus, seja imposta como normalidade, sobrepondo à Família na sua forma NATURAL. Nascemos Homens e Mulheres. Ponto. Biologicamente e cientificamente, dois sexos: masculino e feminino. Se, a partir daí, uns e outros optam por abdicar de sua natureza sexual, que seja respeitado(a). Mas querer influenciar isso de forma didática é afrontar a Instituição Familiar, que já sofre uma pesada degradação social imposta por agentes públicos nocivos, mídia em geral, criminosos diversos, entre outros. Não à discriminação e punição exemplar pra quem a pratica. SIM À FAMÍLIA NATURAL, instituída por DEUS.

  2. Avatar Eneida disse:

    Ainda bem que vc respondeu àquele texto: trata-se um desserviço, uma maneira de contornar a ciência, tripudiar dela, usando as suas categorias. Aquilo não é um samba de Orly. É o samba do crioulo doido.

    Obrigada

  3. Avatar djcaco disse:

    Alguma cidade do país aprovou esse LIXO?

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