Euler de França Belém
Euler de França Belém

O russo Daniil Kharms é precursor da literatura do absurdo. Ionesco, Beckett e Camus são seus filhos

O diretor Marcos Fayad adapta para o teatro alguns dos textos do escritor que, perseguido pelo stalinismo na União Soviética, morreu de fome aos 37 anos

O livro “Os Sonhos Teus Vão Acabar Contigo” traz contos, poesias e dramaturgia magníficos do escritor russo Daniil Kharms, com tradução de primeira linha de Aurora Fornoni Bernardini, Daniela e Moissei Mountian

O russo Daniil Kharms (1905-1942) era contista, poeta ou dramaturgo? Era tudo isto. Só que sua arte escorregadia, vista como precursora da literatura do absurdo — seria pai do irlandês Samuel Beckett, do romeno Eugène Ionesco e do francês Albert Camus —, mistura gêneros, confunde (ao exibir o avesso da realidade) e diverte os leitores. Sua alógica é desnorteante e isto talvez justifique porque era e é tão lido e amado pelas crianças (e, claro, pelos adultos). O manifesto da Oberiu (Associação para uma Arte Real), do qual participava o escritor, assinala: “Quando vierem nos ver, esqueçam tudo o que estão habituados a ver nos outros teatros. Talvez muita coisa pareça absurda”. Sua literatura arranca a roupa das palavras, da vida e da lógica. A exposição da “irrealidade” do mundo restaura um novo modo de vê-lo. Abre os olhos cansados pelo hábito. O diretor e ator Marcos Fayad adaptou histórias de Daniil Kharms e as levará ao teatro do Sesc, no Centro de Goiânia, sob o título de “Cerimônia Para Personagens Estranhos — Miniaturas Grotescas”, na quarta-feira, 5, na quinta, 6, e na sexta, 7, às 20 ho­ras. A base é o livro “Os Sonhos Teus Vão Acabar Contigo” (Kalinka, 291 páginas, tradução de Aurora For­noni Bernar­dini, Daniela Mountian e Moissei Mountian). Felizmente, sua o­bra complexa e multifacetada chega ao Brasil cercada do aparato crítico adequado e em tradução direta do russo. A Cosac Naify lançou “Esqueci Como se Chama” (47 páginas, tradução de Luís Felipe Labaki, ilustrações de Gon­çalo Viana). São “histórias e poemas”. “Poesia Soviética” (Algol, 654 páginas), com traduções do russo de Lauro Machado Coelho, contém poemas e contos-causos de Daniil Kharms.
O pai de Daniil Kharms, Ivan Pávlovitch Iuvatchóv, por ter participado do movimento populista Naró­d­naia Vólia (Vontade do Povo), foi condenado à morte, mas, como teve a pe­na comutada, o regime czarista o exilou. Na Ilha de Sacalina, conheceu o con­tista Anton Tchékhov, que ficou im­pressionado com o “tipo pitoresco”. O menino Daniil Iuvatchóv possuía “uma memória privilegiada, uma grande sensibilidade, um excelente ou­vido musical e uma pronunciada tendência para escrever, desenhar e… jogar xadrez”, informa Aurora Fornoni Bernardini.

Rebelde estético
Em 1924, participa, como poeta, de ações de vanguarda. Torna-se um leitor obcecado. Leu todos os russos mais importantes. Púchkin e, sobretudo, Gógol eram seus mestres literários. Expurgado do Instituto Eletro­técnico de Leningrado, em 1926, não consegue se formar em engenharia.

Num período em que contestar não era de bom alvitre, e sim um perigo, Daniil Kharms era um contestador. “Sua obra toda é uma formidável contestação mediada pela linguagem abstrusa, dessacralizante”, afirma Aurora Fornoni Bernardini. O trotskista Victor Serge o convida a participar dos círculos da intelligentsia (frise-se que Stálin abominava trotskistas e mandou matar Liev Trotski no México, em 1940). O poeta namorava Ester Russakova, parente de Serge.

“Esqueci Como se Chama, com tradução de Luís Felipe Labaki, e “Poesia Soviética”, com tradução de Lauro Machado Coelho, contêm alguns dos trabalhos de Daniil Kharms, o precursor da “literatura do absurdo”

Em eventos públicos, Daniil Kharms declama poemas de sua au­toria e de Nikolai Gumilióv, o que le­va à sua primeira detenção, em 1924.

O comunismo na União Soviética — era mais do que a Rússia — perseguia e matava escritores e tinha uma obsessão especial com os poetas, como Maiakóvski (se matou), Marina Tsvetáieva (se suicidou), Anna Akhmátova e Óssip Man­dels­tam. Este formulou, mais do que es­creveu (escrevia mentalmente e nem sempre fazia anotações) um poema no qual diz que Stálin, o montanhês do Kremlin, tinha bigodes de barata. Depois de uma consulta a Boris Pasternak, sobre a importância de Mandelstam como bardo, Stálin enviou-o para o degredo, onde morreu de tifo, faminto e desorientado. Daniil Kharms, autor de uma arte complexa e, portanto, difícil de ser usada como propaganda pelo regime comunista, morreu de fome, em 1942, num hospital psiquiátrico.

Na apresentação do autor, o livro da Kalinka relata que, sob o stalinismo — e o stalinismo não caiu inteiramente com a morte de Stálin, em 1953 —, a literatura e a dramaturgia de Daniil Kharms foi esquecida deliberadamente. “Sua obra só começou a ser publicada integralmente em solo natal no fim da década de 1980, nos últimos anos da União Soviética.” Mesmo sob pressão, sabendo que não seria publicado, o autor “não deixava de” escrever e organizava seus textos “em ca­dernos que ele mesmo costurava”. Sa­bia de seu valor. Além de sua segunda mulher, Marina Málitch, e alguns amigos, poucos sabiam dos escritos míticos de Daniil Kharms. A glasnost de Mikhail Gorbachev abriu as portas à sua arte.

Por não escrever uma literatura que agradasse os adeptos do realismo socialista, uma literatura que funcionasse como instrumento para a ação política, Daniil Kharms passou a ser ignorado pelo sistema, como se fosse um pária. Amigos, como o poeta Samuel Marchák e a pintora Alissa Póret, o incentivaram a escrever literatura infantil. “Foram esses trabalhos, os únicos de fato publicados em vida, que lhe deram algum sustento.” Luís Felipe Labaki traduz uma bela e divertida história, “Sobre como Kólka Pánkin voou para o Brasil e Piêtka Erchóv não acreditava em nada”. O nonsense prevalece. “Eu vou para o Brasil”, afirma Pánkin. “E onde fica esse Brasil?”, inquire Erchóv. Pánkin explica: “O Brasil fica na América do Sul, lá é muito quente, tem macacos e papagaios, crescem palmeiras, voam beija-flores, circulam animais ferozes e vivem tribos selvagens”.

Pánkin convence um piloto de avião a levá-los ao Brasil. Lá os dois encontram-se com índios e a conversa se dá em “indigenês”. Pánkin, o mais afoito, leva uma surra dos índios. Mas os dois russos de fato foram ao Brasil?

É provável que sim, ainda que, se não na realidade, por meio da imaginação. Não convém esclarecer (se é possível) a história, das mais divertidas e arrebatadoras, que certamente agrada tanto crianças-adolescentes quanto adultos.

Escritores e intelectuais que não se deixam controlar, mesmo sob um regime totalitário, tendem a ser presos e, por vezes, destruídos. Daniil Kharms, preso em 1931, acabou exilado, em Kursk. O motivo da condenação, “a três anos de trabalhos forçados”, foi a criação da Oberiu, em 1928. Na volta do exílio, em 1932, passou a estudar os “objetos e suas interações”, ao lado do poeta Aleksándr Vvediénski e do filósofo Iákov Drúskin. A partir daí, começou a produzir uma literatura do absurdo. “O cômico e o nonsense se unem”, em várias obras de Daniil Kharms, “para expressar suas especulações filosóficas”. Aurora Fornoni Bernardini sintetiza: “O autobiográfico e o fantástico se unem para criar seu estilo”. Vvediénski sumarizou: “Kharms não fazia arte, ele era arte”.

Em 1941, em plena Segunda Guer­ra Mundial (1939-1945), Daniil Kharms é preso. Levado para uma “cela psiquiátrica”, o escritor morreu, em 1942, esfaimado. Tropas nazistas ha­viam cercado Leningrado. Como a po­lícia política promovia uma caçada aos adversários, tratados como “inimigos” do regime, Marina Málitch repassou “uma mala com os manuscritos de Kharms para Iákov Drúskin”. Este preservou os textos — correndo risco de ser denunciado — até ser possível publicá-los.

Com a morte de Stálin, em 1953, e a ascensão de Nikita Kruchev, que iniciou o processo de desestalinização, a partir de 1956, a justiça soviética reabilitou Daniil Kharms. “Mas seus textos basicamente não foram editados nesse momento, embora circulassem por meio de samizdát (edições clandestinas).” A primeira edição das obras completas do escritor não saiu na Rússia, mas na Alemanha, entre 1978 e 1981.

Ouvido musical

Daniil Kharms, um dos mais importantes escritores russos, escreveu contos, poesias e peça de teatro. Perseguido pelo stalinismo, morreu de fome, em 1942, durante o cerco nazista em Leningrado. Estava preso num hospital psiquiátrico

Numa história, transcrita integralmente, Daniil Kharms anota: “Havia um homem ruivo que não tinha olhos nem orelhas. Ele também não tinha cabelo, de modo que só poderíamos chamá-lo de ruivo condicionalmente. Ele não podia falar, porque não tinha boca. E também não tinha nariz. Não tinha sequer pés e mãos. Não tinha barriga, não tinha costas, e espinha dorsal também não, nem mesmo vísceras ele tinha. Ele não tinha nada! De modo que não está claro de quem estamos falando. Pois o melhor é não falarmos mais dele”. Conta-se a história, em tese sem pé nem cabeça, mas por certo se está falando do tempo inominável de Stálin. Mas não é uma mera resposta política. É uma resposta literária, é literatura. “Um acontecimento envolvendo Petrakóv” termina assim: “É isso, sem tirar nem pôr”. Mas o “is­so”, que seria esclarecedor, não é na­­da luminoso. Noutro texto, relata-se que “uma mosca bateu na testa de um senhor que passava correndo, atravessou a cabeça do homem e saiu pela nuca”.

A peça “Elizaveta Bam”, traduzida por Moissei Moutian, é de 1927, escrita pouco depois da morte de Kafka. A história é parecida com os romances “O Processo” e “O Castelo”. Elizaveta Bam diz: “O que é que eu fiz? Se pelo menos eu soubesse… Fugir? Mas para onde?” Ela pergunta: “Podem me dizer do que sou culpada?” Uma pessoa responde: “A senhora mesma sabe”. A acusada discorda: “Não, não sei”. A novela “A velha”, traduzida por Daniela Moutian e Moissei Moutian, é a história de um homem e de uma velha. Ela está morta ou ele está sonhando? Nunca se sabe. A história é trágica e cômica, além de onírica, mas é o modo elétrico de contá-la que a torna estupenda. As coisas estão acontecendo ou não estão acontecendo? São imaginadas?

De olho na história, que corre mais rápida sob o comunismo — tu­do era para ontem, na visão dos bolcheviques —, Daniil Kharms segue es­crevendo sua literatura revolucionária, que não é necessariamente o mesmo que engajada, no sentido ideológico. Ao contrário de outros escritores, que se tornaram servos do bolchevismo, não faz panfletos. “Em seus escritos pessoais — em que o autobiográfico e o fantástico se unem para criar seu estilo —
Kharms foi sempre extremamente livre”, postula Aurora Fornoni Bernardini.

Um dos poemas mais celebrados de Daniil Kharms, de 1937, merece tra­dução de Aurora Fornoni Ber­nardini: “Os sonhos teus vão acabar contigo./O interesse pela vida austera/Irá desaparecer feito fumaça. Então/Desejos e paixões irão murchar,/O mensageiro do céu não virá a correr/Nem a juventude do ardente pensar…/Para, meu amigo, de tanto sonhar,/Exime o entendimento de morrer”.

Daniil Kharms escreveu vários poemas infantis, que eram festejados pelas crianças. Era seu “ganha-pão até 1937, ápice do terror stalinista, quando ele será sumariamente despedido das editoras nas quais publicava, acusado de alienar as crianças”. O poema que levou o regime a persegui-lo de maneira implacável foi escrito para crianças; trata-se de “Saiu de casa um sujeito”: “Saiu de casa um sujeito/Com seu saco e seu bastão/E para longe,/E para longe/Foi começando a andar.//Ele foi andando para frente/E para frente olhou./Não dormiu, não bebeu,/Não bebeu, não dormiu,/Não dormiu, não bebeu, não comeu./E eis que uma vez ao alvorecer/Ele entrou num bosque escuro./E desde então,/E desde então,/De vez desapareceu.//Mas se a alguém acontecer/De por acaso o encon­trar,/Então logo,/Então logo,/Venha logo nos contar”.

O poema, de 1937, foi lido pelo stalinismo como uma alusão aos desaparecimentos de adversários ou supostos adversários do comunismo. Noutras palavras, do ponto de vista de Stálin e sua corte, Daniil Kharms era um “opositor” do regime. Sua poesia não pedagógica, sem caráter didático, era apreciada pelas crianças e adultos independentes, mas não pelo regime, que queria, mais do que instruir e divertir, “formatar” homens novos, comunistas.

Aurora Fornoni Bernardini registra que, “hoje”, Daniil Kharms “é lido e recitado por todas elas [crianças], que encontram em seus versos o prazer dos ritmos cadenciados e dos surpreendentes e hílares deslocamentos, tão próprios da infância”. A crítica menciona o poema Iván Toporýchkin (de 1928), que ela traduziu: “Iván Toporýchkin foi para a caçada,/seu cão foi com ele, pulando o cercado./Iván, feito tora, caiu no alagado,/e o poodle no rio caiu feito machado.//Iván Toporýchkin foi para a caçada,/com ele aos pulinhos o cão feito machado./Iván, feito tora, caiu no alagado,/e o poodle no rio, pulando o cercado.//Iván Toporýchkin foi para a caçada,/e o cão foi no rio afundando o cercado./Iván, feito tora, pulando o alagado,/e o cão aos pulinhos caiu no machado”. As crianças ficavam mesmerizadas com sua poesia. Era o artista que mais fazia sucesso com elas. Mas, curiosamente, ele detestava crianças. “O dom de suscitar o riso, reforçado pelo seu aspecto (era alto, magro, usava cachimbo à moda de Sherlock Holmes e chapéu de abas), era inato nele; a própria mulher conta que era só Daniil começar a ler um texto seu, tanto infantil quanto adulto, que ela mesma ria sem poder se controlar”, afirma a professora da Universidade de São Paulo (USP).

Cômico e paradoxo

Aurora Fornoni Bernardini, da USP, e Daniela Mountian são tradutoras competentes e perceptivas das histórias do escritor russo Daniil Kharms

Mas a arte de Daniil Kharms não era meramente engraçadinha, sem propósito estético. Ela, segundo Aurora Fornoni Bernardini, continha “um sistema especulativo e artístico”. Seu sistema filosófico contemplava “a inversão de todos os valores metafóricos, o vazio que engole o indivíduo, o universo que desmorona, ‘restando Deus, que é tudo e, portanto, nada, e seu equivalente — a morte’”.

Escritor nato, de matiz filosófico, Daniil Kharms, que anotava tudo, escreveu no seu diário, em 1924, quando tinha 19 anos: “O louco não diferencia o essencial do acidental. (…) Quando um louco se gaba, ele está sendo sincero; já um inteligente é sempre malicioso e desagradável”. Aurora Fornoni Bernardini sublinha que “a mistura do essencial e do acidental, a predileção pela fala dos bobos, loucos, simplórios, bufões etc., com todos os ‘acidentes’ de retórica a ela inerentes, são a primeira marca do absurdo de Kharms. Um absurdo que prenuncia — por sua hilaridade — o Ionesco de ‘A Cantora Careca’ (1950)”.

Mesmo cáusticas, as tiradas do escritor são “sinistramente engraçadas. O cômico e o paradoxo são condições sine qua non de seus escritos. É isso que o separa da aridez kafkiana ou mesmo do absurdo de Beckett, de quem também foi precursor”, destaca Aurora Fornoni Bernardini. O absurdo de Kharms — “a instauração do ‘real’ tal como ele o vê, fixado ‘sob um ângulo agudo’ — estaria”, sugere a crítica, “muito ligado à vida, embora vida de um mundo estourado, onde ‘ eu sou o mundo. Mas o mundo não é eu’, como diz Kharms, onde ‘cada coisa é precisamente o que é’, como diz René Daumal em ‘La Pataphysique et la Révélation du Rire’, muito bem lembrada por Jaccard em sua ‘Conclusão’, onde o riso, feito de ‘angústia e de amor pânico, leva o homem a fazer a terrível experiência do caos’”.

Matvei Iankelévitch escreve que “é justamente nessas manifestações de nonsense que a lógica artificial da civilização torna-se vulnerável ao ilógico de algo inexplicável que se encontra na sua base — algo infinito, impensável: o Real”. Aurora Fornoni Bernardini cita como obras-primas “O que estão vendendo nos mercadinhos de hoje” (a história diz: “Então Tikakéiev apanhou o maior pepino da sacola e deu com ele na cabeça de Koratýguin. Koratýguin pôs as mãos na cabeça, caiu e morreu”. Eis o nonsense do fecho: “Reparem que pepinos enormes estão vendendo nos mercadinhos de hoje!”), de 1936, e “A velha”, de 1939. Para escrever seus textos, de fina elaboração, estudou analistas do riso como Henri Bergson, Luigi Pirandello, Iúri Tyniánov, Viktor Chklóvski e Boris Eikhenbaum. Leu o futurista Velimir Khlébnikov e Roman Jakobson, “que participou ativamente da soirée de abertura da Oberiu”.

Camus seria um dos filhos literários de Daniil Kharms. Os dois escritores (ambos com pretensões filosóficas) têm em comum, no dizer de Aurora Fornoni Bernardini, “o conceito básico de que o absurdo seria o resultado da colisão de dois elementos”. No manifesto da Oberiu lê-se: “O objeto concreto limpo de sua casca literária e rotineira torna-se propriedade da arte”, “ Em poesia, a colisão de significados verbais expressa esse objeto com precisão mecânica. A atenção de Kharms focaliza não a figura estática, mas a colisão de uma série de objeto, suas interações”. A peça “Elizaveta Bam” seria o exemplo preciso das inter-relações e colisões. “As linguagens são as verdadeiras responsáveis pelo absurdo que constrói e descontrói o enredo e a realidade. A peça é considerada, hoje, ‘a primeira e pesada pedra de uma literatura do absurdo, ciente de si’, que precede de duas ou três décadas Camus, Ionesco e Beckett e cuja situação de partida, surpreendentemente, coincide com a de ‘O Processo’ de Kafka (que Kharms certamente não conhecia)”, escreve Paolo Nori, citado por Aurora Fornoni Bernardini. Na literatura de Kharms, expõe a crítica, “o choque se dá também entre o eu e o mundo”. Ela cita o absurdo filosófico do conto “O mundo e nós”, de 1930, do qual recolho um trecho: “Mas bastou eu entender que eu vejo o mundo para deixar de vê-lo. Eu me assustei pensando que o mundo tinha acabado. Mas, enquanto eu pensava nisso, eu entendi que, se o mundo tivesse acabado, eu não estaria pensando desse jeito. Eu procurava o mundo com os olhos, mas não conseguia encontrá-lo”.

O conceito de “pequena falha”, adotado por Daniil Kharms, “seria responsável pela quebra, seguida da restauração de ‘certo equilíbrio’. Esta pequena falha é — segundo Kharms — o que tornaria o mundo para nós real. O universo representa certo equilíbrio estável que convém que seja rompido o suficiente para que dele se possa ter consciência”. O autor desarranja o mundo para reordená-lo estética e existencialmente.

O nome verdadeiro de Daniil Kharms era Daniil Ivánovitch Iuvat­chov. Para o escritor, Kharms “possuía”, afirma Aurora Fornoni Ber­nardini, “duas acepções: ‘harm’ (mal) e ‘charm’ (magia) ou ‘infelicidade’ e ‘felicidade’”. Lauro Machado Coelho anota: “Daniil inventou o pseudônimo Kharms, cruzando as palavras inglesas ‘charm’ e ‘harm’ (‘encanto’ e ‘dano’)”.

Marcos Fayad
Adaptar Daniil Kharms é um ato de coragem. Mas coragem não basta. É preciso ter talento e energia — virtudes que não faltam ao extraordinário Marcos Fayad (que adaptou à perfeição “Cara de Bronze”, de Guimarães Rosa), que conta com traduções de excelente qualidade e uma crítica categorizada, como a de Aurora Fornoni Bernardini, que contribui para balizar o entendimento da obra complexa, menos simples do que parece à primeira vista, do escritor russo.

“Destrói-me, esmigalha-me de vez”

No livro “Os Escombros e o Mito — A Cultura e o Fim da União Soviética” (Companhia das Letras, 306 páginas), Boris Schnaiderman escreve: “Preso pelo menos três vezes, vivendo miseravelmente e mal conseguindo sobreviver graças a alguns contos para crianças aceitos por revistas e editoras, deixou a seguinte mensagem” (no diário, em 23 de outubro de 1937, às 6h40):

Meu Deus, agora eu só tenho um pedido a Te fazer: destrói-me, esmigalha-me de vez, arroja-me no inferno, não me detenhas a meio caminho, mas priva-me da esperança e destrói-me depressa, para os séculos dos séculos.

Em 31 de outubro faz outra anotação:

Interessa-me apenas o que é ‘bobagem’; apenas aquilo que não tem nenhum sentido prático. A vida me interessa unicamente em sua manifestação absurda.

“Heroísmo, pathos, valentia, moral, higiene, bons costumes, enternecimento, sofreguidão, são para mim palavras e sentimentos odiosos.

“Mas compreendo plenamente e respeito: o êxtase e a admiração, a inspiração e o desespero, o apaixonamento e a contenção, a devassidão e a virtude, a tristeza e a aflição, a alegria e o riso.

Noutra anotação, Kharms assinala:

Eu me surpreendo com a força humana. Já estamos em 12 de janeiro de 1938. Nossa situação se tornou muito pior ainda, mas vamos nos arrastando. Meu Deus, envia-nos a morte o quanto antes.

“Poucos caem tão baixo como eu caí. Não se pode duvidar do seguinte: caí tão baixo que nunca mais vou me levantar.

Leia mais sobre Daniil Kharms na entrevista de Marcos Fayad concedida ao Jornal Opção

“As ‘miniaturas grotescas’ de Daniil Kharms são metáforas para as situações absurdas que ele viveu durante o regime stalinista”

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