Euler de França Belém
Euler de França Belém

O pacto dos poderosos chefões de Cuba com traficantes de cocaína da Colômbia

Para não quebrar, a ilha negociou com Pablo Escobar. O comércio só ruiu quando os EUA descobriram que Cuba era um entreposto da cocaína do Cartel de Medellín

Arnaldo Ochoa e Fidel Castro: o aliado sacrificado para não manchar a reputação da família Castro | Foto: Reprodução

Para entender por qual razão Fidel e Raúl Castro embarcaram no comércio de cocaína com Pablo Escobar, do Cartel de Medellín, é preciso buscar as raízes do problema — que estão expostas com competência pelo historiador britânico Richard Gott no livro “Cuba — Uma Nova História” (Jorge Zahar, 427 páginas, tradução de Renato Aguiar), no capítulo “Cuba fica só — 1985-2003”. Em março de 1985, Mikhail Gorbachev assume o comando da União Soviética e tenta reformar o sistema socialista. A semicolônia cubana, como a chama Richard Gott, ficou, inicialmente, desconfiada dos propósitos da glasnost (abertura política e cultural) e da perestroika (reestruturação econômica do sistema). Antes de Gorbachev, o governo de Iúri Andropov explicou “formalmente que a garantia de defesa soviética, vigente desde a crise dos mísseis em outubro de 1962, não podia mais ser estendida à ilha”. Raúl Castro ouviu de Andropov, em Moscou, em 1983, que a União Soviética iria cuidar de seus próprios assuntos.

A abertura soviética chegou a empolgar alguns líderes cubanos, mas não Fidel e Rául Castro, que, hábeis politicamente, entenderam que qualquer reforma mais forte na ilha significava retirá-los do poder e que a perestroika iria reduzir investimentos da terra de Púchkin na Disneylândia das esquerdas. O líder cubano Carlos Rafael Rodríguez fez “comentários favoráveis sobre a perestroika”, em Bucareste, o que não agradou a dupla. Em 1989, Gorbachev visitou Cuba e esclareceu: “À medida que a vida segue novas exigências são feitas à qualidade da nossa interação. Isso se aplica particularmente aos contatos econômicos — estes devem ser mais dinâmicos e efetivos, e produzir retornos mais significativos para ambos os países”.

Richard Gott complementa: “Em particular, Gorbachev deixou claro que a velha relação econômica, com os preços subsidiados que há muito ajudavam a manter a relativa prosperidade de Cuba, teria de ser encerrada. E mais estava para vir. No futuro, os russos iam querer receber o pagamento pelos seus bens em dólares norte-americanos”.

Em “A Ilha do Doutor Castro — A Transição Confiscada” (Peixoto Neto, 318 páginas, tradução de Paulo Neves), os jornalistas Corinne Cumerlato e Denis Rousseau relatam: “O Clube de Paris conta entre seus membros a ex-União Soviética, que calcula a dívida cubana em mais de 22 bilhões de rublos e exige um tratamento a parte. A esse rombo somam-se cerca de 11 bilhões de dólares emprestados por Estados ou bancos internacionais, o que representa aproximadamente 80% de seu PIB. Segundo essas estimativas, Cuba detém um dos mais altos índices de endividamento na América Latina”.

Raúl Castro e Fidel Castro: o mano-chefe se preocupava com a fragilidade do sucessor | Foto: Reprodução

Com Cuba em crise, por causa do afastamento paulatino da União Soviética e a perestroika se espraiando no Leste Europeu, Fidel Castro decidiu que todo simulacro de dissidência, ou de apoio às mudanças patrocinadas por Gorbachev, deveria ser contida a ferro e fogo. O general Arnaldo Ochoa Sánchez, “figura lendária e heroica, para os soldados cubanos, atrás apenas de Fidel”, segundo Richard Gott, era a principal preocupação. Arnaldo Ochoa comandou os exércitos cubanos em Angola, Moçambique, Etiópia e, antes, na Venezuela. (Os críticos de Fidel Castro em geral omitem que a participação dos militares cubanos na luta conta a África do Sul, em território angolano, foi decisiva para torpedear e enfraquecer o regime do Apartheid.)

Popular e herói histórico, Arnaldo Ochoa, se tivesse apoio externo, sobretudo soviético, poderia se tornar o Fidel Castro dos tempos da perestroika. Por isso, provavelmente, Fidel Castro decidiu liquidá-lo, e contra a vontade de Raúl.

Há outro indício: Fidel Castro sempre considerou o irmão fraco em termos políticos e, no caso de sua morte, poderia ser controlado por militares carismáticos, como Arnaldo Ochoa. Eliminada a principal figura militar, os demais militares ficariam quietos e, de fato, ficaram. Por isso, ao voltar da África, a chamado de Fidel de Castro, para “receber” uma promoção, Arnaldo Ochoa foi preso.

Em “Cuba Sem Fidel — O Regime Cubano e Seu Próximo Líder” (Novo Conceito, 352 páginas, tradução Jorge F. Soares), Brian Latell apresenta a versão corroborada por especialistas em Cuba: “Fidel desejava evitar que o mais popular comandante cubano das Forças Armadas, atraído então pelos movimentos de reforma que proliferavam à época na União Soviética e no Leste Europeu, se tornasse algum dia um ponto de aglutinação para os críticos reformistas do regime. Ochoa comandara, no total, mais de 300 mil soldados cubanos em diferentes missões no exterior e continuava a ser extremamente popular”. Brian Latell ressalva: “Não havia indícios de que planejasse investir contra o regime e, para Raúl, essa era uma possibilidade inconcebível”. O escritor Norberto Fuentes, amigo de Arnaldo Ochoa, contesta a tese de que o general tenha conspirado contra Fidel Castro, embora todos admitam que, nos últimos anos, teria perdido o respeito pelo líder supremo. Achava-o “covarde”.

Arnaldo Ochoa: um general tido como heroico | Foto: Reprodução

A prisão de Arnaldo Ochoa e de outros integrantes do primeiro escalão do regime, em 1989, “merecia” uma justificação palatável para os militares e para a população. O general seria o comandante das operações privadas, e não estatais, com o chefe do Cartel de Medellín, Pablo Escobar, na época um dos reis do tráfico internacional de cocaína. Brian Latell diz que a acusação de Fidel Castro— sim, ele personifica o regime — é fictícia. “Os rumores sugeriam que a acusação de corrupção tinha mais a ver com política do que com irresponsabilidade financeira. As prisões ocorreram apenas dois meses após a visita de Gorbachev a Havana”, diz Richard Gott. Ele pergunta: “Teria havido um complô para substituir Castro por uma liderança reformista, favorável à introdução da glasnost e da perestroika em Cuba?” Latell fornece uma resposta: “Os principais ‘crimes’ de Ochoa haviam sido questionar a autoridade dos irmãos Castro e pensar na possibilidade de desertar. Fidel chegou à conclusão de que Ochoa precisava ser condenado por um crime realmente hediondo […] a fim de evitar qualquer reação indesejada […] da parte dos militares. As acusações de tráfico de drogas serviram como uma cortina de fumaça”. Richard Gott acrescenta que, na esteira da perseguição a Arnaldo Ochoa, foi preso o general José Abrantes, ministro do Interior (Minint). “Ele tinha feito referências favoráveis à reforma de Gorbachev num discurso na União de Escritores e Artistas em Havana.” Os gêmeos Patricio e Tony de la Guardia, amigos de Arnaldo Ochoa, também foram presos.

A ilha do doutor Castro

Cumerlato e Rousseau são incisivos: “Uma dupla suspeita continua a pesar sobre Fidel Castro: a de ter se livrado de um oficial prestigiado, que lhe fazia sombra, e a de ter ao mesmo tempo feito desaparecer perigosas testemunhas que podiam implicá-lo num caso de tráfico de drogas internacional. Em 13 de julho de 1989, às 4 horas da manhã, um pelotão de execução fuzilava quatro oficiais superiores, detidos apenas um mês antes e acusados de terem montado uma rede internacional de tráfico de cocaína. Os quatro foram condenados ao final daquele que foi, segundo muitos analistas, o último processo stalinista do mundo comunista ocidental, em plena perestroika soviética e pouco meses antes da queda do muro de Berlim”.

No livro “El Magnífico — 20 Ans au Service Secret de Castro” (Hugo doc, 305 páginas), Juan Vivés nota que um grande número de pessoas participou da operação com o colombiano Pablo Escobar — o que indica claramente uma participação do Estado na proteção aos traficantes de cocaína. “Todo mundo sabe que o tráfico era impossível de ocorrer sem que Fidel e Raúl não estivessem a par”, acrescenta Juan Vivés.

Pablo Escolar e Fidel Castro: parceiros nas sombras | Fotos: Reproduções

O ex-espião cubano tem razão: num Estado policial, como o cubano, seus dirigentes sabem de praticamente tudo que ocorre no país, sobretudo num pequeno território como o de Cuba. Se Fidel Castro não sabia que traficantes usavam Cuba como base para transportar cocaína para a Flórida, nos Estados Unidos, pode-se tachar o sistema de espionagem e o dirigente político de incompetentes. Como o sistema de espionagem é eficiente, monitorando toda a ilha e repassando informações para os irmãos Castro, é pouco provável que Fidel Castro seja o marido traído da história.

Juan Vivés frisa que Raúl Castro era o chefe do acordo com Pablo Escobar e revela que o líder cubano mantinha relações com narcotraficantes das Farc. Os sandinistas da Nicarágua também estavam envolvidos com o tráfico — todos em busca dos “vitaminados” dólares.

O ex-espião Juan Vivés revela que o capitão cubano Jorge Martínez, subalterno de Arnaldo Ocha, foi o contato de Raúl Castro e do nicaraguense Daniel Ortega com Pablo Escobar. As informações de Juan Vivés são de um ex-espião importante do sistema de informações de Cuba. Ressalto que era amigo de Arnaldo Ochoa.

“O nível de detalhes em que [Fidel] Castro está envolvido é absolutamente extraordinário. Realmente excede a imaginação pensar que ele [Fidel] não consentiu o tráfico de drogas”, assinala Jacqueline Tillman, ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos.

John Fernández, porta-voz da DEA em Miami, sugere cautela e, solitariamente, aponta que não há prova cabal da relação direta de Fidel Castro com os traficantes.

Andrés Oppenheimer, correspondente do “Miami Herald”, citado por Richard Gott, diz que o ex-ministro “[José] Abrantes afirmou que Fidel Castro estava a par de que embarques de cocaína passavam ocasionalmente pelo território cubano, e numa ocasião autorizara a venda da cocaína capturada pela guarda costeira cubana. Não obstante, teria ficado furioso ao compreender a escala do que estava sendo feito pelas suas costas”.

Ninguém, nem mesmo os manos Fidel e Raúl Castro, nega a negociação com os traficantes colombianos. Fidel e Raúl Castro negam, apenas, que tenham participado do esquema. A versão oficial é apresentada em “Fidel Castro — Uma Biografia Consentida — Do Subversivo ao Estadista” (Revan, 492 páginas), da jornalista brasileira Claudia Furiati: “O primeiro elo entre o coronel [Tony de la Guardia] e os narcotraficantes se concretizaria no Panamá, através de seu funcionário Miguel Ruiz Poo e um primo deste, também cubano (Reinaldo Ruiz), casado com uma colombiana. No início de 1987, acertaram que um avião procedente da Colômbia aterrissaria em Cuba com caixas de computador IBM repletas de cocaína. Lanchas vindas de Miami recolheriam a droga embalada em caixas de charuto cubano. A operação, realizada em abril, proporcionou ao grupo 320 mil dólares. Em maio, um outro avião aterrissava na base militar da praia de Varadero com o mesmo objetivo, completando-se, no ano, cinco operação exitosas e uma que falhou porque o avião não chegou à base”.

Fidel Castro, Tony de la Guardia e seu irmão gêmeo, Patricio de la Guardia: os dois foram traídos pelo poderoso chefão de Cuba | Foto: Reprodução

Não deixa de ser estranho que Claudia Furiati não questione os fatos de que aviões estrangeiros tenham entrado em Cuba e de que uma movimentação financeira muito alta (em dólares) tenha ocorrido e o onipresente e onipotente Fidel Castro — com o apoio do chefe militar, Raúl — não tenha ficado sabendo.

De todos os livros consultados, o de Claudia Furiati é o único que acusa Arnaldo Ochoa frontalmente, sem qualquer presunção de inocência, e apresenta apenas a versão do governo. Mas pelo menos admite que o tráfico contaminara Cuba e a cúpula do regime, obviamente “perdoando” Fidel e Raúl Castro.

Richard Gott diz que a cocaína era transportada para a Flórida pelo aeroporto de Varadero, em Cuba. O coronel Tony de la Guardia (o mesmo que treinou a guarda que protegia o chileno Salvador Allende, em 1973. Suspeita-se que tenha matado Allende, a pedido de Fidel de Castro, que considerava o líder socialista “fraco”. Não há, porém, provas contundentes) seria o chefe direto do esquema, mas comandado por Arnaldo Ochoa — quando se sabe que o operador de fato era Rául Castro, o chefão militar.

Andrés Oppenheimer relata que “Reinaldo Ruiz [exilado cubano envolvido com o tráfico de cocaína] teria perguntado a La Guardia se ‘el señor’ [Castro] sabia da situação, e recebido um ‘é claro’ como resposta”, anota Gott. Mas este pondera: “Não há provas de que Tony de la Guardia tenha discutido esses planos de traficar drogas com Castro, mas é razoável supor que tenham sido aprovados por [José] Abrantes, o ministro responsável pelo departamento MC” (“Moneda Convertible”, moeda conversível)”.

O historiador Richard Gott frisa que Cuba tem “o maior e o mais sofisticado serviço de inteligência” de sua região, perdendo apenas para a CIA, dos Estados Unidos. Cumerlato e Rousseau chamam Fidel de “dealer máximo”, traficante máximo, num evidente exagero, pois o líder cubano não traficava diretamente — Cuba era usada apenas como entreposto.

Claudia Furiati admite que o envolvimento de Cuba com o tráfico de cocaína foi denunciado primeiramente pelo governo dos Estados Unidos. Fidel Castro recebeu informações objetivas do governo norte-americano. Depois, a agência UPI publicou: “Dois narcotraficantes se declaram culpados de transportar mais de uma tonelada de cocaína através de Cuba” (“o primeiro transporte de cocaína foi feito em abril de 1987. Uma carga de 300 quilos foi transportada num pequeno avião da Colômbia até uma pista de pouso perto de Varadero”, registra Richard Gott). Enquanto o fato não se tornou escândalo internacional, denunciado pelos Estados Unidos, Fidel e Raúl Castro não tomaram nenhuma providência e não acusaram nenhum militar. Há indícios fortes de que Fidel de Castro, sem dinheiro para manter o mínimo de conforto para os cubanos — alimentação básica mesmo —, tenha embarcado numa ideia possivelmente de Raúl Casto, a dos dólares fáceis do Cartel de Medellín.

Como a conexão Cuba-Pablo Escobar se tornou pública, comprometendo a imagem do socialismo cubano, era preciso achar culpados. O mais pragmático era matar dois coelhos com o mesmo tiro: primeiro, arrumava-se um culpado para o tráfico internacional, e segundo, punindo-o, eliminava-se uma possível ameaça política, Arnaldo Ochoa, de 48 anos.

O julgamento de Arnaldo Ochoa e aliados foi uma farsa, no estilo stalinista. O general parecia dopado e confessou crimes — na verdade, uma política de Estado, incentivada por Fidel e Raúl Castro — que não cometera. Mas não estava apenas dopado. Possivelmente para garantir a sobrevivência de familiares e amigos, o general aceitou a “culpa”. Cumerlato e Rousseau registram: “O general Ochoa reivindicou diante do tribunal a responsabilidade de contatos com Pablo Escobar, na época chefe dos traficantes de droga colombianos do cartel de Medellín”.

Além de Arnaldo Ochoa, foram sentenciados à morte o capitão Jorge Martínez, o major Amado Padrón Trujillo, o coronel Tony (Antonio) de la Guardia. O general José Abrantes morreu na prisão. Patricio de la Guardia foi condenado a 30 anos de cadeia. Pelo menos 150 oficiais superiores foram expurgados do Exército.

Texto publicado pelo Jornal Opção em 2012

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