“É nosso dever amar a Alemanha, mas também é nosso dever ler o ‘Fausto’ de Goethe, parte um e parte dois.” — Katia Mann

“O Mágico” (Companhia das Letras, 543 páginas, tradução de Christian Schwartz e Liliana Negrello), do escritor irlandês Colm Tóibín, é um romance. Mas é um romance ou uma biografia romanceada?

Romance sobre pessoas reais resiste como literatura ou se torna biografia disfarçada? “O Mágico” é literatura?

É preciso enfatizar que, ao transformar o escritor alemão Thomas Mann em personagem, Colm Tóibín não falseia sua vida. Não a azeda nem a edulcora. As informações básicas são apresentadas de modo escrupuloso — e com uso delicado e fidedigno de seus diários.

De alguma maneira, ao romancear a vida de Thomas Mann, de sua mãe, a brasileira Julia da Silva-Bruhns (fala-se de “marzipã feito de açúcar brasileiro” e de romã), de seu irmão, o escritor Heinrich, de sua mulher, Katia (judia; a família foi perseguida pelo nazismo dos alemães), e de seus filhos, como Klaus e Erika, Colm Tóibín escreve uma biografia, por assim dizer, com alma. Um romance-biografia de vivos. Não de mortos.

O leitor percebe a história de vidas reais acontecendo à sua frente e, por isso, certamente se interessará ainda mais por entendê-las.

Colm Tóibín usa sua imaginação poderosa para recriar a história da família Mann e seu tempo — dando-nos um painel amplo dos séculos 19 e, sobretudo, 20.

Digamos que o fictício leitor João Paulo Sinésio Carneiro-Gomes de Lima compre “O Mágico”, leve-o para sua casa e comece a lê-lo, de maneira displicente, como os leitores não especialistas costumam fazer. Noutras palavras, em busca de uma boa história. O que concluirá ao ler a prosa precisa, límpida e ágil de Colm Tóibín?

Se nada souber da história de Thomas Mann, ou mesmo se souber pouco, terá um belo romance pela frente. Porque a questão central é esta: o livro de Colm Tóibín resiste como literatura. A vida do autor de “A Montanha Mágica” e de “Doutor Fausto”, recriada pela imaginação, rendeu literatura de qualidade.

Thomas Mann, escritor alemão e filho de uma brasileira | Foto: Reprodução

Se resiste como literatura, dada a capacidade de criação de Colm Tóibín, o livro resiste como biografia?

O mais interessante é exatamente isto: o livro de Colm Tóibín resiste como literatura e como biografia.

A vida da família Mann, desde o pai e a mãe de Thomas Mann, está muito bem contada. A história da bissexualidade do escritor está narrada com precisão, o que pode ser conferida nas várias biografias publicadas (confira uma lista mínima abaixo). E, sim, Katia Mann, a inteligente e operosa mulher do escritor, sabia de seu homoerotismo e não parecia muito preocupada com isto. Mesmo mais velho, ele sentia atração por homens mais jovens. O casal teve seis filhos, quase todos intelectualmente dotados.

A dedicação extrema de Thomas Mann à literatura — era infatigável; escrever era uma espécie de sacerdócio (e também lia muito) —, sua paixão pela música, a relação complicada com Heinrich Mann, o combate ao nazismo, o exílio nos Estados Unidos e a relação distanciada com os filhos — um deles, Klaus Mann (autor do romance “Mefisto”, rendeu um filme), se suicidou, aos 42 anos — são descritos com fidelidade pelo romance. Com a graça e a leveza habituais de Colm Tóibín.

Colm Tóibín: escritor irlandês | Foto: Reprodução

Fica-se com a impressão de que, de alguma maneira, o criador irlandês emula — ou mimetiza — a prosa de Thomas Mann. Com a diferença de que, se Thomas Mann era mais sutil e enviesado, Colm Tóibín é mais explícito nas narrativas, sobretudo da vida privada (sem grosseria nenhuma).

“O Mágico” ilumina a vida e a obra de Thomas Mann. É, por assim dizer, um convite à leitura da obra e ao conhecimento mais detido da vida do escritor de “Os Buddenbrook”, o romance que garantiu o Nobel de Literatura ao “proseador” germânico.

Em suma, “O Mágico” é um belo romance e não decepcionará os leitores, especialmente aqueles que não são especialistas na vida e na obra de Thomas Mann. Os especialistas certamente dirão: nada de novo no front. Talvez tenham de concluir que a novidade é a invenção literária do autor de “Carlota em Weimar” (sobre Goethe, que o escritor amava) como personagem… consistente. O homem, que parecia insípido, tinha uma vida (interior) rica (daí a literatura de alta qualidade, com personagens complexos e matizados). É provável que a leitura dos diários tenha possibilitado a Colm Tóibín vasculhar a vida íntima do escritor, um indivíduo relativamente reservado.

Julia da Silva-Bruhns (Julia Mann), brasileira: mãe de Thomas Mann | Foto: Reprodução

(Espera-se que, sendo irlandês, Colm Tóibín escreva, em seguida, a vida de James Joyce, autor de “Ulysses”. Esclarecendo que a prosa de Colm Tóibín pouco ou nada tem a ver com a do autor de “Finnegans Wake”. Ele talvez seja mais filho de Henry James, que também “biografou” romanceando, em “O Mestre”, e, aqui e ali, de Thomas Mann.)

Tratemos, a seguir, unicamente dos processos referentes à criação de “Morte em Veneza” e “A Montanha Mágica”.

Morte em Veneza

Thomas Mann apreciava a música do alemão Richard Wagner e do tcheco-austríaco Gustav Mahler. Num concerto de Mahler, o escritor observou o compositor e regente com atenção. “Thomas podia ver uma carga erótica nele, uma força que era mais física do que espiritual”, anota Colm Tóibín.

Numa visita a Veneza, depois de observar bem, Thomas Mann decidiu que escreveria uma história ambientada na cidade. “Ocorreu-lhe que seria um grande consolo se pudesse dar vida a Mahler em uma história.” Era o prenúncio de “Morte em Veneza”, novela publicada em 1912.

No Hotel des Bains, no Lido, Thomas Mann — era um hábito — começou a observar o garoto polonês Władysław Moes (1900-1986).

Władysław Moes “era loiro, com cachos que desciam quase até os ombros”. Sua beleza deixou Thomas Mann obcecado. Assim como o alemão transformou o jovem polonês num personagem, com o nome de Tadzio, 109 anos depois, em 2021, Colm Tóibín transformou o autor de “Morte em Veneza” em personagem, porém sem mudar seu nome.

Katia Mann, que era esperta e atenta, percebeu o interesse de Thomas Mann por Władysław Moes. Ela participava dos jogos do marido, à distância, só observando. (No livro “Na Rede dos Magos — Uma Outra História da Família Mann”, de Marianne Krüll, na página 254, há um registro do escritor em seu diário: “Abraço em K. Minha gratidão pela bondade presente em seu procedimento quanto a minha problemática sexual é profunda e calorosa”. Na página 131, Colm Tóibín registra: “Assim como Thomas não faria nada para colocar sua felicidade doméstica em risco, Katia reconheceria a natureza de seus desejos sem qualquer reclamação”.)

“Thomas reparou na brancura da pele do menino, no azul de seus olhos, em seu jeito de permanecer imóvel. (…) Não era apenas sua beleza que afetava Thomas agora, era sua maneira de se conter, de ficar quieto sem ser mal-humorado, de se sentar com a família mantendo-a à distância”, escreve Colm Tóibín.

O personagem central da novela é Gustav Aschenbach (a rigor, talvez as “personagens” sejam a beleza e a sensualidade), e não o menino Tadzio. Ainda que inspirado em Mahler, o protagonista não é um compositor, e sim um escritor (no filme de Visconti é o contrário). “Seu personagem, fosse Mahler, Heinrich ou ele mesmo, viera a Veneza para ser confrontado pela beleza e animado pelo desejo”, pontua Colm Tóibín.

Heinrich Mann e Thomas Mann, irmãos escritores: o primeiro seria mais germânico e o segundo mais latino | Foto: Reprodução

“E a história teria de sugerir que o desejo era sexual, mas também, claro, distante e impossível. O olhar do homem mais velho seria ainda mais feroz por não haver nenhuma chance de algo mais acontecer. A mudança na vida do protagonista seria ainda maior pelo fato de que aquele encontro ser passageiro e não levar a lugar nenhum. Jamais poderia ser tornado público ou aceitável, domesticado pelo mundo. Atravessaria os portões de uma alma que um dia se acreditara inexpugnável”, escreve o prosador irlandês.

Como havia rumores sobre cólera em Veneza, Thomas Mann incorporou o problema à sua história. “Ele misturaria o desejo do homem mais velho a uma sensação de doença, de decadência.” Aschenbach, como decide não escapar da cidade, morre devido à doença.

A Montanha Mágica

No início da década de 1910, com uma “mancha tuberculosa num dos pulmões”, Katia foi internada em Davos, na Suíça, para um tratamento rigoroso.

Do sanatório, Katia escrevia cartas para Thomas Mann, dando detalhes dos acontecimentos. O escritor, que era um homem glacial, “sentia falta” de sua mulher, a quem, ao seu modo, amava.

Katia cobrava uma visita e Thomas Mann decidiu vê-la. De cara, “conheceu a espanhola que andava gritando ‘tous les deux’, em referência a seus dois filhos, que sofriam de tuberculose”. Um homem, viciado em chocolate, não parava de falar em se matar.

Thomas Mann e Katia “conversaram sem parar” nos primeiros dias da visita. Muitas pessoas morriam no sanatório. O escritor “ficou surpreso com o tom casual dela quando falou dos mortos”.

Um médico sugeriu que Thomas Mann fosse examinado. “Imagine só! Nunca conheci uma pessoa perfeitamente saudável antes”, disse o Simão Bacamarte de Davos. O escritor aceitou fazer exames e, após ver os resultados, o médico quis interná-lo. Porém, saudável, o autor de “Confissões do Impostor Felix Krull” não aceitou a recomendação. E, de fato, não estava tuberculoso. O raio X o impressionou, por isso descreveu-o com presteza no romance.

Como tinha o hábito de examinar as cousas do mundo com extrema atenção, sempre imaginando que poderia resultar num conto ou num romance, Thomas começou a “observar os internos”. “Saber sobre eles começou a interessá-lo quase ao ponto da obsessão.”

Como o tempo parecia “parado” no sanatório, com as coisas se repetindo, Thomas Mann disse a Kátia “que sempre soubera que o tempo passava devagar num lugar desconhecido”. “Mas, mais do que tudo, não sabia se seu plano de dramatizar a própria passagem do tempo, ou a desaceleração do tempo, como se o tempo em si fosse um personagem, teria algum sentido para os leitores do livro.”

Ao voltar para casa — que, sem Katia, havia se tornado bagunçada —, Thomas Mann decidiu planejar a escritura de “A Montanha Mágica”, que contaria a história do jovem Hans Castorp. O livro é um romance de formação. O personagem é “educado” — “forma-se” — no sanatório. Os contatos com os internos, as contradições da vida, as dores (o sofrimento), a “proximidade” da morte, os debates entre Naphta e Settembrini contribuem para o amadurecimento do garoto.

Katia Mann e Thomas Mann: ela deu o mote para “A Montanha Mágica” | Foto: Reprodução

Katia saiu do sanatório, mas, ao escrever o livro, é como se Thomas Mann fosse o interno, vasculhando tudo o que acontecia por lá. Baseou-se, em parte, nas histórias contadas por sua mulher, inclusive nas suas cartas, mas o restante é produto de sua imaginação poderosa e de sua extremosa capacidade de pesquisar.

A primeira leitora de “A Montanha Mágica” foi Katia. “Vou ter muito o que dizer. Amo que você tenha me transformado num homem no livro, e num homem tão doce. Mas isso é coisa pequena. Mais importante é o fato de que você mudou tudo para nós. Sua seriedade agora veio à tona. O livro é cheio de seriedade. Será lido por todos os alemães que se importam com livros, e será lido pelo mundo todo. (…) É um livro que encontrou seu momento. (…) O jeito como o tempo é retratado, e como o livro vai se tornando lento! E quando tocam ‘Valentin’s Prayer’ no gramafone e a figura que sou eu volta à sala, retorna dos mortos!”

“A Montanha Mágica” foi um romance bem-sucedido desde o início e Thomas Mann gostaria de ter ganhado o Nobel de Literatura por ele, e não com “Os Buddenbrook”.

Colm Tóibín trata também da elaboração de “Doutor Fausto”, um dos romances mais importantes de Thomas Mann e uma releitura (ou diálogo) hábil e perceptiva do “Fausto” de Goethe. O livro acabou provocando intriga com o compositor Arnold Schoenberg, em parte provocada pela pianista e compositora Alma Mahler, amiga de ambos. A obra é uma crítica corrosiva ao nazismo, aos que aderiram, aos que, para se manter no pódio ou para crescer, ficaram calados ou apoiaram o regime totalitário de Adolf Hitler. E também é sobre a revolução da música erudita… moderna.

2

Biografias de Heinrich e Thomas Mann

Há vários livros sobre Thomas Mann, seu irmão Heinrich Mann, igualmente escritor, e sua família, como a mãe brasileira Júlia da Silva-Bruhns.

1

“Thomas Mann — Uma Biografia” (Nova Fronteira, 666 páginas, tradução de Luciano Trigo), de Donald Prater é, em português, uma das melhores. Explica a vida e a obra do escritor alemão detalhadamente, com grande conhecimento e uma pesquisa rigorosa. A história da bissexualidade do autor de “Morte em Veneza” é descrita de maneira precisa, sem preconceitos. A mulher do escritor, Katia (Katharina) Mann, sabia de seu interesse por homens. Na fase adulta, ele continuava a observar jovens com atenção, mas, tudo indica, não mantinha nenhum relacionamento com eles. Na juventude, sobretudo, os amores homoeróticos não eram platônicos. Depois, pelo visto, se tornaram mais admiração, ou desejo — reprimido.

2

 “La Casa Del Exilio — Vida y Época de Heinrich Mann y Nelly Kröger-Mann” (Circe, 413 páginas, tradução de Verónica Fernández-Muro), de Evelyn Juers. O livro, evidentemente, é sobre o autor do romance “O Anjo Azul” (levado ao cinema com a atriz Marlene Dietrich). Na página 396, a biógrafa diz que Thomas Mann “considerava o escritor norte-americano Herman Melville superior a Shakespeare”. Harold Bloom não diz o mesmo, mas afirma que a obra dele, como “Moby Dick”, é excepcional. E é mesmo. “Billy Bud” é uma obra-prima similar, com escopo diverso, à novela “Morte em Veneza”.

3

“Os Irmãos Mann — As Vidas de Heinrich e Thomas Mann” (Paz e Terra, 549 páginas, tradução de Raimundo Araújo), de Nigel Hamilton. A obra tem valor porque, mesmo reconhecendo a grandeza de Thomas, o mais bem-sucedido como escritor — ganhou o Prêmio Nobel de Literatura e deixou uma obra mais referenciada —, explica, de maneira ampla, a importância da prosa de Heinrich (que também desenhava bem). Heinrich era mais politizado que o hermano e, antes dele, começou a criticar o nazismo. Thomas Mann demorou um pouco a criticar o caráter nefasto do regime criado por Hitler e pelos alemães. Talvez pensasse que a Alemanha de Goethe e Heine não poderia assentar no poder, por longo tempo, uma excrescência política como o Führer. Heinrich, Erika e Klaus Mann estavam certos: os alemães, empolgados, não derrubariam o sistema nazifascista. Como não derrubaram. O nazismo só caiu sob a implacabilidade do fogo dos Aliados (Inglaterra, União Soviética e Estados Unidos).

4

“Na Rede dos Magos — Uma Outra História da Família Mann” (Nova Fronteira, 512 páginas), de Marianne Krüll. Trata-se de uma pesquisa de primeira linha, com um defeitinho: não trata de “A Montanha Mágica” com o devido destaque. E é o principal romance de Thomas Mann.

5

Em inglês pode ser consultada “Thomas Mann —Life as a Work of Art — a Biography” (Princeton University Press, 600 páginas, tradução de Leslie Willson), de Hermann Kurzke.

6

O livro “Correspondência — Cartas e Esboços Literários” (Ars Poetica, 237 páginas, tradução de Claudia Baumgart), de Julia Mann, é praticamente um documento. Documentos, no plural, mais precisamente.

7

“Terra Mátria — A Família de Thomas Mann e o Brasil” (Civilização Brasileira, 321 páginas, tradução de Sibele Paulino), de Karl-Josef Kuschel, Frido Mann e Paulo Astor Soethe, é um livro de imenso valor, sobretudo para quem se interessa pela “origem brasileira” do escritor.

8

Quando a família de Julia da Silva-Bruhns voltou para a Alemanha, seu pai levou a criada preta Ana. O brasileiro João Silvério Trevisan escreveu, a seu respeito e sobre os Mann, o romance “Ana em Veneza” (Record, 649 páginas).

3

A bissexualidade do escritor Thomas Mann

“Morte em Veneza”, a famosa novela, levada ao cinema por Visconti, é baseada na paixão repentina do escritor pelo menino Wladislaw “Adzio” Moes, de 11 anos

O que importa mesmo de Thomas Mann é sua obra (talvez ele seja um bom personagem literário à espera de um escritor¹), notadamente “A Montanha Mágica” e “Doutor Fausto”, seus romances mais bem elaborados.

Wladislaw Moes e o ator Björn Johan Andrésen | Fotos: Reproduções

Mas o escritor alemão, filho de brasileira, tem uma obra pequena, “Morte em Veneza”, que talvez seja mais lida e, até, admirada. É seu “O Velho e o Mar”, a novela, digamos assim, mais “oriental” de Ernest Hemingway.

Muito do sucesso da novela (pequeno romance ou conto espichado) de Thomas Mann se deve ao excelente filme homônimo do italiano Luchino Visconti. O menino belo que povoa o imaginário dos leitores-cinéfilos é mais filho do filme de Visconti do que da história literária.

No entanto, o garoto pelo qual o escritor Gustav Aschenbach quedou-se encantado realmente existiu. O efebo Tadzio, personagem do livro, é baseado no polonês Wladislaw Moes (1900-1986), que, quando visto por Thomas Mann, em Veneza, tinha apenas 11 anos.

Wladislaw Moes: o menino que encantou Thomas Mann em Veneza | Foto: Reprodução

Ao resenhar o livro “The Real Tadzio” (Short Books, 104 páginas), de Gilbert Adair, o crítico Carlos Haag, do “Valor Econômico” (o texto é de 2002), escreve que, na novela, o autor aumentou a idade do menino. Hoje, mesmo assim, seria considerado pedofilia, porque os valores, como a tecnologia, também mudam.

Ao ver o menino de 11 anos, em 1911, Thomas Mann ficou mesmerizado. Wladislaw Moes era chamado pela família de “Wladzio” ou “Adzio”. Quando uma pessoa da família chamou “Adzio!”, Thomas Mann, então com 36 anos, o viu e não despregou mais os olhos, tal a beleza da criança. Muitos anos depois, ao saber que havia provocado suspiros no célebre escritor alemão, Adzio disse: “O ‘velho’ me olhava obsessivamente, em especial quando entramos juntos no elevador do hotel [Hotel de Bains], como na novela. Mas ele não foi o primeiro nem o último a me observar assim e pensei: ‘É mais um cavalheiro que gostou de mim’”.

Impressionado com a beleza de Adzio, Thomas Mann voltou para a Alemanha e, imediatamente, começou a escrever “Morte em Veneza”. “Nada é inventado nesta história: Tadzio e família, o cantor malandro e repugnante, o sátiro maquiado do barco e até mesmo o cólera que nos obrigou a deixar a cidade”, escreveu o autor da novela no diário.

Em 1924, uma prima de Adzio leu a obra e, impressionada com a semelhança com a história do parente, teceu alguns comentários. Em 1984, dois anos antes de morrer, o agora velho Adzio foi ao cinema para ver o filme “Morte em Veneza”, do italiano Luchino Visconti. Não aceitou a companhia de ninguém. “Não deixaria ninguém me ver, acabado, tentando recriar o jovem nos moldes da novela de Mann”, contou Adzio ao amigo Jas Fudakowski. Agora, foi a vez de Adzio ficar encantado com a beleza do ator Björn Andresen.

Em Veneza, além de Thomas Mann, Adzio deixou o escritor polonês Henryk Sienkiewicz de quatro. O menino seria um “serafim de Tiepolo”, disse Sienkiewicz. O autor de “Quo Vadis” teve a desfaçatez de implorar a Adzio que se sentasse no seu colo para melhor apreciá-lo. Mais tarde, ao lado do amigo Fudakowski, o “Jaschiu” do livro, Adzio lutou, pela Polônia, em 1921, contra os bolcheviques de Lênin. Depois, tornou-se um “bon viveur”, diz Carlos Haag.

Björn Johan Andrésen: ator sueco | Foto: Reprodução

Em 1939, com a expansão nazista, Adzio foi preso pelos alemães. Quando liberado, descobriu que o patrimônio da família havia sido estatizado pelos comunistas pró-soviéticos. Escapara a um totalitarismo e caíra nas mãos de outro. “Viveu de bicos por anos”, informa Carlos Haag.

“A ofensa final foi quando Visconti, em visita ao seu país, para encontrar o seu Tadzio, não quis conhecê-lo. Adzio pensou mesmo em processar o diretor para obter uma compensação. A resposta do cineasta foi, de provocação, incluir seu nome, quase imperceptível, ao fundo, na cena em que Aschenbach se registra no Lido. Em novembro de 1986, aos 86 anos, Adzio morreu de hepatite em Varsóvia. Ironicamente, ao se saber desenganado, ele tentou novamente retornar a Veneza e ao Lido, apenar para cancelar a viagem no último minuto ao saber que, coincidência cruel, a cidade estava sitiada por uma epidemia de cólera”, registra Carlos Haag.

O sueco Björn Johan Andrésen, hoje com 56 anos², não foi bem-sucedido na carreira de ator. “Se ele fosse menos belo, o filme teria sido bem menos bom”, afirma Gilbert Adair. Os produtores de Visconti temiam que o filme, se apontado como “gay”, desagradasse as plateias menos progressistas. Andresen, desencantado com a profissão e com sua beleza estonteante (até meio efeminada, ou feminina), disse: “Mal posso esperar para envelhecer. Eu não pedi para nascer com este rosto”.

Thomas Mann era homossexual ou bissexual? Biógrafos em geral dizem que o escritor tinha interesse por homens — e não meramente literário —, mas citam poucos casos concretos (aparentemente, mais de masturbação).

Uma biografia cita um jovem pelo qual o escritor teve interesse sexual, mas não esclarece se tiveram relações sexuais ou alguma paixão, por assim dizer, afetiva.

Thomas Mann parece ter sido feliz com Kátia Mann. No diário, no qual “escondia” e “revelava” seus desejos pelo sexo oposto, o escritor registrou sobre um jovem garçom suíço: “A fama mundial é maravilhosa, mas não pode ser comparada ao sorriso em seus olhos”. Ao escrever tal elogio, no qual sugere que trocaria a fama pela beleza ou pela graciosidade e frescor da juventude, Thomas Mann tinha 75 anos.

Carlos Haag recolhe uma interessante citação do livro “Thomas Mann: Eros and Literature”, de Anthony Heilbut: “Ninguém antes de Mann conseguiu capturar a necessidade gay de justificar-se. ‘Morte em Veneza’ é um guia ‘Baedecker’ para o amor homossexual, visto como uma paixão assimétrica, ligando os sábios feios aos belos bobos. Desde o início, ele articula uma poética do consumismo, o observar a distância. Mann nota os signos e traduz os códigos que revelam homens gays uns aos outros”.

Heinrich Mann, irmão do escritor mais celebrado, disse: “Apesar de tudo, nunca se ouve ao fundo um ‘valeu a pena?’ Quando o desejo aparece, ignoramos o custo”. Carlos Haag vê nessa interpretação a chave do livro.

A questão é: Thomas Mann admirava homens bonitos, mas há evidências de que partisse para o, digamos, “ataque”³?

Klaus Mann, autor do romance “Mefisto”, transformado em filme com título homônimo, era homossexual. Ele se matou, em 1949, aos 42 anos. Era um jovem talentoso, mas, como Heinrich, o irmão de Thomas Mann, não tinha o vigor literário do autor de “Morte em Veneza”. Outro filho do escritor, o historiador Golo Mann, também era homossexual. Erika Mann também se considerava homossexual ou bissexual (teve relacionamentos com homens. Chegou a se casar com o poeta Auden, mas sem qualquer relacionamento sexual).

Uma curiosidade sobre o escritor. Entrevistado por Sérgio Buarque de Holanda, então jornalista a serviço de Assis Chateaubriand, o Lampião do jornalismo patropi, Thomas Mann (ou sua mulher, Kátia Mann) contou que sua mãe era brasileira. E, quando ele e os irmãos eram crianças, cantava canções de ninar numa língua estranha, possivelmente português. Sérgio Buarque havia notado que “seu nariz era excessivo”.

Notas do Jornal Opção

¹ O texto “A bissexualidade do escritor Thomas Mann” é de 2012. Portanto, bem antes de 2021, o ano em que Colm Tóibín publicou seu romance na Europa — lançado no Brasil em 2023.

² Björn Johan Andrésen completará 69 anos na sexta-feira, 26 de janeiro. Ele nasceu em 1955, em Estocolmo, na Suécia.

³ Sim, há. E ele mesmo anotou isto em seus diários.

Entrevista de Thomas Mann a Sérgio Buarque de Holanda