O coronavírus, o delírio dos que se julgam imunes e os seguidores cegos de Bolsonaro

Os ricos donos da fé evangélica teimam em reunir seus rebanhos na certeza de que Deus os protegerá. Assim como os seguidores cegos do presidente

Cristiano Alves Pimenta

Especial para o Jornal Opção

É preciso reconhecer, estamos com medo, eu estou. Nas últimas 24 horas morreram quase 900 pessoas na Itália. De fato, começamos nossa quarentena (nem todos, é verdade) antes que o vírus começasse a matar em grande escala, e o ficar dentro de casa funciona como uma espera. Mas o que esperamos exatamente? Algo vai passar, mas a espera é desconcertante porque o que esperamos é invisível. Veremos apenas seus efeitos e o mais cruel deles é a morte. O que esperamos trancados em nossas casas é a passagem da morte, e o que nos angustia é que não sabemos quem ela vai levar. Nossos avós? Nossos pais? Irmãos? Amigos? Ou nós mesmos?

Cena do filme O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman | Foto: Reprodução

Assim, esse mal invisível se aproxima lenta e pesadamente. Talvez a ideia de um enorme e ameaçador cometa que estivesse em direção à terra, lento e em altíssima velocidade ao mesmo tempo, sirva com imagem. Por outro lado, ver minha cidade esvaziada me faz lembrar de filmes como “Eu sou a lenda” (2007). Mas na cidade em que Will Smith vivia se escondendo dentro de casa, durante a noite, o mal era encarnado pelos zumbis infectados. Nas nossas cidades os infectados ou estão morrendo nos hospitais ou passam despercebidos, contaminando com partículas microscópicas os lugares onde puseram as mãos e também o ar. A ideia do vírus flutuando no ar lembra uma partícula de césio, uma radiação mortífera.

Talvez sirva a imagem de que agora jogamos xadrez com a morte, como no filme “O Sétimo Selo” (1957), de Ingmar Bergman. Ela nos espreita e qualquer lance errado — como levar a mão ao rosto sem tê-la lavado — pode nos levar a um xeque-mate.

Sabemos que um vírus tem uma estrutura, um DNA, que permite que, depois de decifrado, seja criada uma vacina. O vírus tem uma estrutura simbólica. É isso que permitirá que ele seja dominado. Sim, mas, como dizer?, ainda não. Ou seja, enquanto não for decifrado, ele será um real opaco e mortífero, como uma sombra que cai sobre nós. Depois de sua decifração, depois da vacina, se tornará, retroativamente, um gatinho domesticado pela ciência. Mas, por enquanto, não. Neste momento nosso cotidiano está modificado, perturbado, não apenas porque mudamos nossa rotina, mas porque sabemos que o vírus é a angustiante morte nos espreitando.

Cena de O Sétimo Selo | Foto: Reprodução

De todo modo, a melhor representação do que estamos vivendo, pelo menos para mim, é a história narrada no Antigo Testamento, aquela do Êxodo, em que o Deus de Moisés decretou a morte dos primogênitos numa tenebrosa noite. Todos tentavam se proteger da escuridão se refugiando em suas casas enquanto a peste mortífera passava e levava consigo até mesmo o filho do Faraó. Eliseba, angustiada, pergunta a Moisés: “Isso passará, Moisés, isso passará?”. Moisés lhe responde: “É a promessa de Deus, Eliseba”.

O Deus da nossa época não é mais o Deus Pai, mas a ciência que, por enquanto, não tem poderes para fazer frente ao vírus. Estamos entregues a uma contingência impossível de ser calculada com precisão. Como sabemos, não é totalmente seguro que nem mesmo jovens não morram.

Nessa aproximação da maldição há algo que se desnuda: o delírio que muitos inventam como forma de defesa. Os ricos donos da fé evangélica teimam em reunir seus rebanhos na certeza de que Deus os protegerá. Igualmente, os seguidores cegos de um presidente — com a visão tapada, para dizer o mínimo — se reúnem nas ruas numa celebração desafiadora. A inconsequência é tão natural que precisará de um tempo a mais para recuar intimidada. No melhor dos casos, os menos cínicos, se sentirão envergonhados.

Cristiano Alves Pimenta é psicanalista membro da EBP (Escola Brasileira de Psicanálise) e da AMP (Associação Mundial de Psicanálise). É graduado em Filosofia (USP) e mestre em Psicologia Clínica (UNB).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.