Euler de França Belém
Euler de França Belém

O comunista Luiz Carlos Prestes autorizou assassinato de uma garota de 16 anos

Livro de Sérgio Rodrigues revela que, acreditando que a jovem era dedo-duro, um grupo de esquerdistas decidiu matá-la

Sérgio Rodrigues e a capa de seu livro sobre Elza Fernandes | Fotos: Reproduções

A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi que o velho falava como se escrevesse, vírgulas e tudo. Tamanho poder de articulação era coisa de um outro tempo, e foi só então que a idade quase impossível do homem — noventa e quatro, estava no jornal — desabou na sala diante dele como um rochedo, um totem, uma pirâmide

O jornalista Sérgio Rodrigues escreveu um livro de história espantoso (ele tripudia, com acerto, de parte dos historiadores de esquerda), travestido de romance. “Elza, a Garota” (Nova Fronteira, 238 páginas), muito bem-escrito, conta a história de Elvira Cupello Calônio, codinome Elza Fernandes, assassinada, a mando do líder comunista Luiz Carlos Prestes, em 1936.

Elza Fernandes é uma parte esquecida da história da esquerda brasileira. Intencionalmente esquecida. A Olga Benario que não deu certo (do ponto de vista histórico, claro; porque a mulher de Prestes foi brutalmente assassinada pelos nazistas). Namorada de Antônio Maciel Miranda, o Miranda, foi acusada de passar informações para a polícia e, por isso, foi estrangulada por um grupo de comunistas, entre eles Francisco Natividade Lyra, o Cabeção. Prestes, sem ter informações objetivas — tudo indica que a garota de 16 anos era inteiramente inocente —, mandou matá-la. Não lhe deu qualquer chance de se defender. A frieza de Prestes impressiona o mais frio dos mortais.

Olga Benario e Elza Fernandes têm algo em comum. A primeira foi morta por um ditador de direita, Hitler. A segunda por um quase-ditador de esquerda, Prestes. Olga e Elza  têm quatro letras e começam e terminam com vogais, têm duas vogais e duas consoantes, no centro do nome têm duas consoantes. Mas há uma diferença crucial, séria e substantiva: Olga “ganhou” história, Elza só agora, com o livro de Sérgio Rodrigues, começa a ter sua própria história.

Quando terminei de ler o livro, pensei: o livro poderia ter 138 páginas a menos. Estava, estou, errado. Elza mereceu todas as 238 páginas. Deixou de ser uma omissão.

A esquerda tem o hábito de dizer: 30 mil mortes (ditadura argentina) e 300 ou 400 mortes (ditadura brasileira) são a mesma coisa. Pois é: mas, quando se trata da morte de Elza, o discurso não vale. Uma morte, a de Elza, não vale outra morte, a de Olga. A plebeia, analfabeta, merece ser escondida, para que a “aristocrata” alemã, russófila, possa ficar no altar da glória histórica (e, insistamos, sua morte também é lamentável).

[Texto publicado em 2009]

Trecho de Elza, a Garota, de Sergio Rodrigues

Tinha dezesseis anos. Ou assim dizem. As versões variam. Em algumas, Elza é mulher feita, vinte e um. Na maioria tem dezesseis. A idade altera talvez o grau de escândalo da união, mas não o fato de que Elza era a namorada, mulher, companheira, concubina, amante, amásia oficial do secretário-geral do Partido Comunista do Brasil — o cargo máximo da organização — em 1935. O ano em que a esquerda brasileira tentou o lance mais ousado e sofreu a maior derrota de sua história. Miranda tinha quase a idade do século. Bem-apessoado, simpático, dizia a todos os companheiros que amava Elza e pretendia, assim que as circunstâncias políticas permitissem, fazer dela uma mulher honesta. Antes, porém, precisava se desincumbir daquele trabalhinho de tomar o poder no país.

Luiz Carlos Prestes: mais importante líder comunista da história do Brasil | Foto: Reprodução

Elza Fernandes era mais para miúda, embora estivesse na média das mulheres brasileiras de sua época: um metro e cinquenta e oito. Talvez ainda fosse crescer. Os legistas que examinaram seus ossos cravam dezesseis anos, relatando um corpo em formação. A idade exata é um dos mistérios do lacunar personagem, que nem direito a um tamanho definitivo conseguiu ter em nossa História, oscilando entre meninota e adulta. Essa é uma das falhas mais clamorosas entre as muitas do processo 1.381 do Tribunal de Segurança Nacional, que em novembro de 1940 condenou Luiz Carlos Prestes e mais seis pessoas a penas de trinta anos de prisão pela morte de Elvira Cupello Calônio, ocorrida no dia primeiro de março (ou pouco antes, ou pouco depois) de 1936. Penas que seriam todas abreviadas pela anistia de 1945.

Sobre um ponto, ainda que cegamente, a fúria cartorial brasileira não tem dúvida: Elza adentra o processo instaurado em abril de 1940 para apurar a autoria de seu assassinato como morta aos vinte e um. Assim é citada — nascida em Sorocaba em 1914, filha de Francisco Cupello Calônio e Emilia Luiza. O problema é que, pelo restante da papelada, depoimentos a fio, meses e meses, vão aparecendo referências aos dezesseis anos de Elza, à menoridade de Elza, ao corpo de criançola de Elza, e fica tudo por isso mesmo. Até o laudo dos legistas, a análise óssea, aponta decisivamente para uma adolescente, mas em momento algum o processo tenta esclarecer a contradição que o perpassa como uma lança: quantos anos tinha a morta, afinal?

A professora Marly Vianna, ex-dirigente do PCB e uma das acadêmicas brasileiras que mais tempo e energia dedicou ao estudo dos acontecimentos de 1935, me disse, na sala cheia de livros de seu apartamento no Leblon, estar convencida de que a idade de Elza foi rebaixada pela polícia, pela imprensa e até pela medicina legal para tornar o crime mais hediondo aos olhos de uma opinião pública já maciçamente predisposta contra os comunistas desde o malogro da insurreição de novembro. Invenção correlata ao clichê “comunista come criancinha”, a tenra idade da moça cumpriria o papel de retocar um quadro em si bastante feio, carregando nas tintas da covardia. Ou seja: Elza tinha vinte e um mesmo, dezesseis era fabricação da direita.

Elza Fernandes: morte nas mãos de grupo comunista | Foto: Reprodução

Respondi que não era bem assim. Miranda também dizia que Elza tinha dezesseis. Sara Becker, militante comunista de São Paulo que às vésperas da insurreição de 35 foi enviada ao Rio, conheceu a namorada do secretário-geral do Partido na casa de Rosa Meirelles, uma das bases informais da conspiração, onde Elza ia todo fim de tarde filar um café com pão. Sara tinha dezoito na época e me descreveu Elza como uma garota da mesma idade dela. Foi resoluta nesse ponto: a mesma idade. O que, se não prova os dezesseis, menos ainda prova os vinte e um. E tem o diabo daquela ossatura em formação de que falam os legistas. Comprados pelo governo? Não seriam caros, é verdade, mas para quê? Aos olhos da Justiça — e de um tribunal de exceção, em que condições muito restritas de defesa eram oferecidas aos acusados — não seria necessário encontrar agravante legal nenhum, menos ainda fabricá-lo. Idade alguma tornaria o homicídio mais homicídio. Tanto que, oficialmente, continuou valendo até o fim a citação da vítima como nascida em 1914. Se era para mentir sua idade, por que não trabalhar direito e falsear a data de nascimento na citação?

A tese dos vinte e um vai ficando menos verossímil à medida que se mergulha no assunto. É mais fácil imaginar um erro de documentação, um 1919 virando 1914 por culpa do garrancho do escrivão ou de um pai analfabeto ou bêbado — ou ambos — que se atrapalhou na hora de fazer o registro, anos depois do nascimento. Ou quem sabe a confusão não teria sido provocada por uma daquelas mentiras profissionais que os comunistas tinham sempre na manga para confundir a repressão, leques de nomes falsos, idades falsas, histórias falsas? A paulista Elza aparece referida aqui e ali como mineira. Quando, em janeiro de 1936, foi presa junto com Miranda no apartamento da Avenida Paulo de Frontin, no Rio de Janeiro, em que de forma temerária os dois eram vizinhos de um “comunista público” como Jorge Amado, sua história maluca já era outra. Contou à polícia em seu primeiro depoimento não saber o nome de seu namorado nem o de seu pai. Quanto à sua origem, porém, foi decidida: disse ter vindo de São Paulo. A pé.

Até loura dizem que ela foi. Mas aí já é um outro disfarce.

Nesta história, Elza terá dezesseis porque um dia os peritos Nilton Salles e Rubem Pereira de Araújo, do Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro, após examinarem a ossada exumada num quintal suburbano, escreveram o seguinte:

Os núcleos de ossificação e as cartilagens de conjugação oferecidos no esqueleto examinado são os comumente observados nas mulheres de quinze a dezesseis anos de idade. Observam-se ainda inclusos os quatro dentes do siso. (…) A sua idade deveria ser de dezesseis anos quando se deu a morte.

Infelizmente, minhas pesquisas nos dois cartórios de registro civil de Sorocaba não conseguiram fixar acima de qualquer dúvida a idade de Elvira Cupello Calônio. Tomara que alguém possa acrescentar nos espaços em branco aquilo que eu não tive como descobrir. Muita coisa eu não consegui descobrir, mas essa é uma das primeiras.

Exatamente quantos anos tinha Elza quando, julgada traidora pela cúpula do PCB, foi estrangulada pelos companheiros com uma cordinha de varal e enterrada dentro de um saco de aniagem no quintal de uma casa erma em Guadalupe.

Que idade ela terá para sempre.

Molina tinha acabado de completar quarenta e três anos e estava em busca de uma história que valesse a pena contar quando encontrou Xerxes, ou foi encontrado por ele. Sua sensação, vizinha do tédio e do cansaço, de que já não havia no mundo história que compensasse o trabalho de narrá-la, fosse com palavras, fosse com imagens ou por qualquer outro meio —  gestos, dança, sinais de fumaça, telepatia — começou a se modificar naquela tarde de abril em que pisou pela primeira vez no apartamento do velho, um dois-quartos apertado no Flamengo, atendendo a seu anúncio nos classificados. Poucos dias depois nada restava de sua inapetência narrativa, e ele mal dava conta de dividir seus dias entre a leitura de jornais antigos, as conversas com Xerxes em sua sala atulhada de livros e as horas febris passadas diante do computador, batucando telas e telas de uma prosa que, Molina já não tinha dúvida nenhuma, finalmente precisava ser escrita. Embora provavelmente ainda não devesse ser lida, mas isso não lhe ocorreu naquela hora.

Xerxes — decidiu chamá-lo assim mesmo, por razão semelhante à que fez uma moça batizada Elvira ficar conhecida como Elza — não se limitou a lhe dar uma grande história num momento em que, desempregado e imerso numa reclusão de misantropo que só Camila, sua namorada vinte anos mais nova, conseguia romper, Molina era sitiado por histórias tão pequenas, tão mesquinhas, que o mundo parecia confinado num presente estúpido sem origem nem consequência. Pensando mais tarde naqueles dias, percebeu que era como se Xerxes fosse mais do que a fonte, o contador: era a própria História encarnada. Talvez seja compreensível que, em tal estado de espírito, Molina tenha deixado de levar em conta os sinais de que nem tudo era o que parecia ser.

Disse Xerxes: Quanto menos está em jogo, maior a violência dos litigantes. Faça dois homens esfomeados disputar uma fatia de pão com banha e a luta será cruenta, quiçá mortal. Agora ponha dois capitalistas de charutos nos beiços para discutir, entre goles de conhaque e sobre os despojos sangrentos de um banquete, quem vai arrastar para o seu lado do contrato aquela migalha percentual correspondente a milhões: pronto, que belo clima de civilidade presidirá a mesa!

A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi que o velho falava como se escrevesse, vírgulas e tudo. Tamanho poder de articulação era coisa de um outro tempo, e foi só então que a idade quase impossível do homem — noventa e quatro, estava no jornal — desabou na sala diante dele como um rochedo, um totem, uma pirâmide. Civilidade hipócrita, prosseguiu Xerxes, não se discute, mas ainda preferível a uma punhalada na carótida. Donde se conclui que, na sociedade de classes, a convivência pacífica é um luxo burguês.

Molina tinha chegado da rua aceleradinho, exasperado, depois de arranhar o carro de Camila no poste ao tentar estacioná-lo numa vaga absurda e em seguida ver dois flanelinhas disputando a tapa o direito de lhe cobrar pelo privilégio de parar ali. A sensação de apocalipse iminente que pairava no ar da cidade, com seu presente eterno achatado atrás e na frente, feito carro popular espremido para caber numa vaga de velocípede — aquele zumbido familiar não tinha entrado com ele porta adentro. Entendeu que na sala penumbrosa, coberta de livros e fotografias em preto-e- branco encaixilhadas em pesados porta-retratos, o tempo era outro. Teve a presença de espírito de dizer ao velho que seu raciocínio era gracioso, mas desconsiderava séculos de impérios fundados em crimes. Toda elite é violenta, pontificou, pedante. Chegou a estranhar sua própria voz. Xerxes sorriu.

Achei que o comunista aqui fosse eu, disse, empertigado em sua poltrona, tamborilando no castão da bengala apoiada no chão entre os caniços branquelos que despontavam da bermuda larga. Era um dia anormalmente abafado para o início do outono, mas o corpo longo e ossudo de Xerxes estava envolto num cardigã cinza sobre a camiseta branca, meias felpudas de padrão escocês, chinelos de couro nos pés compridos. A violência da elite, ele disse, eu conheço bem, e seus olhinhos claros, de um verde de água suja, fixaram os de Molina. Mas essa é outra história. Foi você quem chegou aqui contando o caso dos guardadores de automóvel que quase se matam pelas migalhas que caem da mesa da pequena burguesia, isto é, da sua mesa.

E o senhor é o quê, operário?

Sentiu, ao dizer isso, que soava agressivo, embora não tivesse essa intenção. Tentava descontrair o ambiente, brincar com o velho. Talvez para impedi-lo de notar o quanto se sentia deslocado em sua sala à margem do tempo. Ele não pareceu levar a mal, mas ficou sério.

Sou um intelectual revolucionário, disse, é o que teria respondido muito tempo atrás, um pequeno-burguês que conseguiu, por meio da reflexão, da leitura disciplinada da teoria leninista e da prática política e sindical, superar as limitações patéticas de sua classe e ascender a uma consciência superior, onde refulge a inexorabilidade da História. Maria!, gritou de repente. Aguardaram em silêncio até a empregada, que também era idosa, vir da cozinha. Café, comandou, emendando, mas isso foi muito tempo atrás. Hoje eu sou só um velho comunista. Pode me chamar de pequeno-burguês que eu não ligo. Já fui chamado de tanta coisa: zinovievista, trotskista, esquerdista, direitista, oportunista. Você é o quê, jornalista?

Respondeu que sim. Era mais simples e menos perigoso do que se declarar escritor. Alguém que se declara escritor sempre corre o risco de ouvir a pergunta, ah, e escreveu o quê? Embaraçoso, se você nunca escreveu nada. De toda forma, o anúncio no jornal não mencionava a palavra escritor. Procurava, em sua formulação curiosa, um redatorjornalista — roteirista com amor pela História e paciência com os achaques de um velho revolucionário derrotado, para ajudá-lo a escrever suas memórias.

Instigado por Xerxes, Molina fez um resumo de sua carreira, tentando, provavelmente sem êxito, maquiar os sinais de decadência que proliferavam à medida que a ordem cronológica mudava os cargos de editor para colaborador, e os veículos, de grandes jornais para revistinhas suspeitas. O velho ouvia tudo compenetrado. Sentindo que a exposição estava carente de brilho, Molina pensou em acrescentar que era um dos grandes especialistas mundiais na maior série televisiva da história, The Twilight Zone. Desistiu a tempo: improvável que aquilo lhe valesse pontos com Xerxes. Terminou de enumerar seus feitos esquivos e explicou que agora tudo estava mudado, era independente, não admitia mais patrão, estava investindo num jornalismo mais lento e menos superficial como só é possível nos livros, eis porque, quando leu o anúncio nos classificados, pensou tá pra mim. Tagarelava abjetamente, de puro nervosismo. O silêncio do velho desconcertava. Totem, esfinge. Como se contivesse um julgamento mudo mas implacável daquele presente esvaziado, feito no tribunal de uma época mais autêntica tanto na miséria quanto na glória. O volume das memórias de Xerxes devia ser ciclópico, e a ideia do trabalho que o aguardava pareceu de repente assustadora.

Isto é, se pegasse o emprego. Mas tinha que pegar o emprego, não tinha? Já era seu. Um livro. Pagamento mensal garantido por três meses, o velho explicou, talvez mais. Nada tão luxuoso quanto sua carência de desempregado o fez enxergar naquelas circunstâncias, mas decente com certeza. Descobriu depois que o dinheiro era do próprio Xerxes, não havia editora, ONG ou fundação metida naquela história de registrar as memórias de um matusalém comunista. Chegavam abafados os uivos dos ônibus freando lá embaixo, no sinal quase em frente ao cinema onde, anos atrás, uma geração carioca mais equivocada que a média se convencera de que Jean-Luc Godard ia mudar a história da humanidade.

O que você sabe, perguntou Xerxes, sobre a insurreição de 1935?

A Intentona?

O outro confirmou com a cabeça.

Bom, o que todo mundo…

Resposta errada, filho. O que todo mundo sabe sobre a Intentona é necas, xongas. Ninguém sabe mais nada de quase nada, é verdade, mas sobre a Intentona sabe menos ainda. Pergunte aos universitários, e o velho deu um sorrisinho sarcástico para sublinhar que aludia ao programa de perguntas e respostas da TV, aquele em que os candidatos tinham o direito de repassar a uma junta de universitários algumas das questões que não conseguiam responder. Os universitários, na maioria das vezes, tampouco. Pergunte aos universitários, o velho prosseguiu, mesmo os de História, e eles mal vão saber diferenciar a Coluna Prestes da quartelada de 35, quer apostar?

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