Euler de França Belém
Euler de França Belém

“Nova” Veja “demitiu” o “velho” Reynaldo Azevedo porque não falam mais a mesma língua

Afastamento tem a ver com a conversa do articulista e Andrea Neves, na qual sugere que reportagem sobre Aécio Neves é nojenta, mas este pode ter sido só o motivo imediato

As pessoas, jornalistas ou não, dizem o que lhe convém, o que lhe, de algum modo, lhe protege. Sob o comando do novo diretor de redação, André Petry, a revista “Veja” sofreu uma mudança relativa, equilibrando mais a cobertura, com textos um pouco mais moderados. Se antes, o banditismo político estava mais associado ao PT, símbolo do estatismo — o suposto “adversário” da publicação da Editora Abril —, e de seus aliados, como o PMDB e o PP, o novo chefe, com anuência dos dirigentes da revista, incluiu alguns tucanos, sobretudo Aécio Neves, senador afastado pelo Supremo Tribunal Federal, como patronos de negócios ilícitos em associação com empresas, como Odebrecht, OAS e, mais recentemente, a JBS-Friboi. A mudança de norte editorial fez algumas vítimas, e mesmo antes da ascensão de André Petry. Mario Sabino e Diogo Mainardi foram os primeiros a sair. É provável que não se sentiam mais em casa. A queda — supostamente para o alto — do comandante-chefe Eurípedes Alcântara, tido como príncipe do liberalismo na redação, foi a mais significativa. Em seguida, saíram colaboradores que eram críticos radicais do petismo, como Rodrigo Constantino e Gustavo Ioschpe, e colaboradores mais moderados foram convocados. Depois de várias edições com os petistas na capa, como se tivessem inventado a corrupção no Brasil — de fato, contribuíram para torná-la sistêmica —, chegou a vez de Aécio Neves, o que “chocou” a nação tucana e jornalistas afins. Afinal, a “Veja” não era tucana? Não era e não é. Trata-se de uma publicação crítica e se aproximou do PSDB porque, sendo liberal, encontrou certa identidade com alguns de seus integrantes, como José Serra e Fernando Henrique Cardoso, e passou a tratar os adversários do liberalismo, como o PT, como seus oponentes.

Capa da Veja que provocou a crise entre a revista e Reynaldo Azevedo

Cedo ou tarde, haveria um confronto entre a nova direção da “Veja” e o enfant (nem tão enfant) terrible Reynaldo Azevedo. A recente moderação está em descompasso com o mosqueteiro quase solitário. A revista está num passo e o jornalista, noutro. Em algum momento, os dois se chocariam. Como não dá para demitir a revista, a saída, logicamente, seria o afastamento do articulista-blogueiro. Apontado como um dos jornalistas mais lidos da “Veja”, amado pelos leitores — e detestado pela esquerda ortodoxa, notadamente a petista —, Reynaldo Azevedo começou a criticar a Operação Lava Jato, ou, como afirma, a possibilidade de se criar um Estado policial a partir de um “combate justo” à corrupção. Frise-se que, jornalista decente, não é contrário à Lava Jato. Pode-se sugerir que, aqui e ali, está se aproximando de Mino Carta. O diretor de redação da “CartaCapital” sugere que o juiz Sergio Moro está se tornando um “inquisidor” — o que, evidentemente, é um exagero (o magistrado não é uma “força” autônoma e está cumprindo a lei). A “Veja”, pelo contrário, embora com uma ou outra restrição à operação (notadamente a respeito de uma exposição de Deltan Dallagnol), lhe é inteiramente favorável. Publicamente, Reynaldo Azevedo não criticava o “patrão”, mas seus textos não mais correspondiam à linha editorial dominante.

Aécio Neves e Andrea Neves: irmãos que, juntos, “governaram” Minas Gerais

A imprensa está atribuindo a demissão de Reynaldo Azevedo à divulgação da gravação de sua conversa com Andrea Neves, a irmã de Aécio Neves há pouco presa pela Operação Lava Jato. É o motivo imediato, mas não o central.

Reynaldo Azevedo frisa que pediu demissão, quer dizer, ele próprio rompeu o contrato. O articulista sabe que, ao chamar de “nojenta” a cobertura da revista a respeito de Aécio Neves, se não pedisse para sair, seria afastado. Tornou-se, de algum modo, uma espécie de cavalo-de-troia na redação — dando munição aos críticos da “Veja”.

No comentário explicando sua saída da “Veja”, Reynaldo Azevedo afirma que a divulgação de sua conversa com Andrea Neves teve o objetivo de derrubá-lo. É provável que seja verdade. Mas a verdade mais ampla inclui o que se escreveu acima: “Veja” e Reynaldo Azevedo não falam mais a mesma língua (fica-se com a impressão de que o articulista não aprecia quando a revista publica críticas ao tucanato, como se este fosse intocável). O jornalista, que escreve na “Folha de S. Paulo”, parece mais identificado com aquilo que se escreve no “Estadão”.

O próximo a cair tende a ser Augusto Nunes? Não se sabe. Talvez não. Mas a linguagem do jornalista não combina com o novo “estilo” da revista dirigida por André Petry.

As conversas entre Andrea Neves e Reynaldo Azevedo

Andrea Neves – Tudo bem e você?

Reinaldo Azevedo – Se eu não aguento mais, imagino vocês…

Andrea Neves – Virou uma salada de frutas, um negócio maluco.

Um dos assuntos discutidos é um dos pontos da delação da empreiteira. A acusação de que o empresário Alexandre Accioly, dono da academia Bodytech, emprestou uma conta em Cingapura para Aécio receber propina. O caso foi revelado pelo BuzzFeed. Ele nega as acusações.

Andrea Neves – Aí aparece uma história maluca, que já tinha aparecido um mês atrás mais ou menos naquele site BuzzFeed, dessa conta do Accioly em Cingapura. Que era, em tese, o mesmo dinheiro da minha em Nova York, que é o tal dinheiro da [usina] Santo Antônio. É essa coisa mágica, que ninguém consegue explicar, porque que o Aécio poderia ganhar uma bolada desse tamanho numa obra que é do governo federal. […]

Andrea Neves – Agora, que está acontecendo na Veja, o que o pessoal fez…

Reinaldo Azevedo – Ah, eu vi. É nojento, nojento. Eu vi.

Andrea Neves – Assinaram todos os jornalistas e vão pegar a loucura desse cara para esquentar a maluquice contra mim.

Reinaldo Azevedo – Tanto é que logo no primeiro parágrafo, a Veja publicou no começo de abril que não sei o que, na conta de Andrea Neves. Como se o depoimento do cara endossasse isso. E ele não fala isso.

Andrea Neves – Como se agora tivesse uma coleção de contas lá fora e a minha é uma delas.

Reinaldo Azevedo – Eu vou ter de entrar nessa história porque já haviam me enchido o saco. Vou entrar evidentemente com o meu texto e não com o deles. Pergunto: essas questões que você levantou para mim, posso colocar como se fosse resposta do Aécio?

Andrea Neves – Nós mandamos agora para a Veja uma nota para botar nessa matéria.

Reinaldo Azevedo – Não quer mandar para mim também?

Andrea Neves – Mando.

Andrea Neves – Você tem vários casos, todos juntados. Como eles queriam que o Aécio aparecessem como campeão de inquéritos…

Reinaldo Azevedo – Sim, esse era o objetivo.

Andrea Neves – […] É inacreditável, é uma covardia.

Reinaldo Azevedo – […] É incrível, a Odeberecht agora virou a grande selecionadora de quem sobrevive e morre na política. A Odebrecht nunca teve tanto poder. É asqueroso. Me manda esse levantamento, me interessa, sim.

Reinaldo Azevedo – A gente precisa ter elementos objetivos de um certo senhor mineiro aí, cuidando da candidatura dele ou à presidência ou ao governo do Estado.

Andrea Neves – Como assim?

Reinaldo Azevedo – O nosso procurador-geral.

Andrea Neves – Você está achando?

Reinaldo Azevedo – Ôxi.. fiquei sabendo que está tendo conversas. Eu só preciso ter gente que endosse isso de algum jeito. Ter um pouco mais de elementos concretos. Que ele está, está. Presidência talvez não, mas o governo de Minas, sim.

Andrea Neves cita, em tom de chacota, a presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia. Ela é mineira.

Andrea Neves – Vai disputar com a Carminha (risos).

Reinaldo Azevedo – Ah, deve ser né. Sua prima (risos).

Numa conversa, Reynaldo Azevedo menciona um poema de Cláudio Manoel da Costa e diz: “É um poema lindíssimo que ele fala justamente de uma coisa que eu constatei quando fui a Belo Horizonte. A cidade cercada de montanhas. E aí ele diz assim: essas montanhas poderiam ter endurecido o coração. Mas não, tiveram efeito contrário”. Andrea Neves declama um trecho: “Bárbara bela, do Norte estrela, que o meu destino sabes guiar, de ti ausente, triste, somente as horas passo a suspirar”. Ela acrescenta: “Reinaldo, posso te ligar num segundo? É que nós estamos com um problemão agora com o Jornal Nacional…”.

A impressão que se tem é que não se trata de uma conversa entre um repórter e uma fonte, e sim entre aliados políticos.

As explicações de Reynaldo Azevedo

Pedi demissão da Veja. Na verdade, temos um contrato, que está sendo rompido a meu pedido. E a direção da revista concordou.

1: não sou investigado;

2: a transcrição da conversa privada, entre jornalista e sua fonte, não guarda relação com o objeto da investigação;

3: tornar público esse tipo de conversa é só uma maneira de intimidar jornalistas;

4: como Andrea e Aécio são minhas fontes, achei, num primeiro momento, que pudessem fazer isso; depois, pensei que seria de tal sorte absurdo que não aconteceria;

5: mas me ocorreu em seguida: “se estimulam que se grave ilegalmente o presidente, por que não fariam isso com um jornalista que é critico ao trabalho da patota.

6: em qualquer democracia do mundo, a divulgação da conversa de um jornalista com sua fonte seria considerado um escândalo. Por aqui, não.

7: tratem, senhores jornalistas, de só falar bem da Lava Jato, de incensar seus comandantes.

8: Andrea estava grampeada, eu não. A divulgação dessa conversa me tem como foco, não a ela;

9: Bem, o blog está fora da VEJA. Se conseguir hospedá-lo em algum outro lugar, vocês ficarão sabendo.

10: O que se tem aí caracteriza um estado policial. Uma garantia constitucional de um indivíduo está sendo agredida por algo que nada tem a ver com a investigação;

11: e também há uma agressão a uma das garantias que tem a profissão. A menos que um crime esteja sendo cometido, o sigilo da conversa de um jornalista com sua fonte é um dos pilares do jornalismo.

Abraji critica divulgação dos diálogos entre Andrea Neves e Reynaldo Azevedo

Numa nota a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) criticou em nota a Procuradoria-Geral da República pela divulgação dos áudios que exibem conversa entre os jornalistas Andrea Neves e Reynaldo Azevedo: “A Lei 9.296/1996, que regula o uso de interceptações telefônicas em processos, é clara: a gravação que não interesse à produção de provas em processo deve ser destruída. O próprio Ministério Público, aliás, é que deveria cuidar para que isso aconteça. A inclusão das transcrições em processo público ocorre no momento em que Reinaldo Azevedo tece críticas à atuação da PGR, sugerindo a possibilidade de se tratar de uma forma de retaliação ao seu trabalho. A Abraji considera que a apuração de um crime não pode servir de pretexto para a violação da lei, nem para o atropelo de direitos fundamentais como a proteção ao sigilo da fonte, garantido pela Constituição Federal”.

Leia a íntegra da nota da PF

Sobre os diálogos interceptadas da investigada Andrea Neves e do jornalista Reinaldo Azevedo, tornados públicos na tarde de hoje, 23/05, a Polícia Federal informa que os mesmos foram realizados no mês de abril de 2017, por força de decisão judicial do Ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, nos autos da ação cautelar 4316.

O referido diálogo não foi lançado em qualquer dos autos circunstanciados produzidos no âmbito da mencionada ação cautelar, uma vez que referidas conversas não diziam respeito ao objeto da investigação.

Conforme estipula a Lei 9.296/96, que regulamenta a interceptação de comunicações telefônicas, e em atendimento à decisão judicial no caso concreto, todas as conversas dos investigados são gravadas.

A mesma norma determina que somente o juiz do caso pode decidir pela inutilização de áudios que não sejam de interesse da investigação.

Informamos, ainda, que a Procuradoria Geral da República teve acesso às mídias produzidas das interceptações, em sua íntegra, em razão de solicitações feitas por meio dos ofícios 95/2017 – GTLJ/PGR, de 28 de abril de 2017, e 125/2017 – GTLJ/PGR, de 19 de maio de 2017, e respondidos pela Polícia Federal, respectivamente, através dos ofícios 569/2017 – GINQ/STF/DICOR/PF, de 28 de abril de 2017, e 713/2017 – GINQ/STF/DICOR/STF, de 22 de maio de 2017, em face do disposto no artigo 6 da Lei 9.296/96.

Leia a íntegra da nota da PGR

A Procuradoria-Geral da República esclarece que a informação veiculada na matéria do Buzzfeed “PGR anexa grampos de Reinaldo Azevedo com Andrea Neves em inquérito (…)” está errada. A PGR não anexou, não divulgou, não transcreveu, não utilizou como fundamento de nenhum pedido, nem juntou o referido diálogo aos autos da Ação Cautelar 4316, na qual Andrea Neves figura como investigada.

Todas as conversas utilizadas pela PGR em suas petições constam tão somente dos relatórios produzidos pela Polícia Federal, que destaca os diálogos que podem ser relevantes para o fato investigado. Neste caso específico, não foi apontada a referida conversa.

A ação cautelar contém quatro mídias. As duas primeiras referem-se aos termos de confidencialidade firmados com os colaboradores (folhas 55 e 57), anexados com a inicial da cautelar. As outras duas, diretamente juntadas pela PF, referem-se aos relatórios (autos circunstanciados) parciais de análise das interceptações telefônicas autorizadas pelo ministro-relator (folha 249, anexada dia 24/04, e folha 386, anexada dia 19/05).

A Ação Cautelar 4316 ainda não deu a primeira entrada na PGR, tendo sido aberta vista pelo ministro Edson Fachin apenas nesta terça-feira, 23 de maio, com chegada prevista para quarta-feira, 24 de maio.

Nota da Associação Brasileira de Imprensa sobre sobre ação da PGR

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