Neymar no Goiás e o Brasil à frente de EUA, Alemanha Holanda, França, Reino Unido

O sujeito perverso é difícil de ser tragado. Mesmo num Brasil onde a permissividade com a canalhice e com a mais completa ausência ética se tornou norma

Halley Margon
Especial para o Jornal Opção
de Barcelona

A mentira é bruta e pesada. O convencimento é suave. A mentira degrada e ofende. A transparência carrega o véu da beleza. A mentira é feia, já diziam nossos pais e avós, mas parece que as mais altas autoridades da federação decidiram de vez pisotear os bons ensinamentos, o amor à ética e torcer os rumos do país na direção do mau caminho e da indecência. Os seguidores se contam aos milhões. Mas ainda há também os que se sentem enojados, mesmo que impotentes.

A mentira deixou de ser eventual para se tornar método e ciência. É aplicada conscienciosamente, com disciplina e cálculo. Não se pense que ali operem ingênuos. O governo, daí ou de qualquer outro lugar, é coisa para profissionais. Envolve vultosos interesses. Ninguém está lá para brincadeiras. Claro que há governos e governos. Épocas de prosperidade e respeito e, eventualmente, até reconhecimento internacional. O Brasil passou por um período assim não faz tanto tempo. Que agora seja motivo de chacota no resto do mundo apenas prova que o mesmo eleitor que às vezes acerta, também faz escolhas cuja pena acaba se estendendo por gerações.

Pintura de Mike Davis

Um número espetacular e a subnotificação

Ultimamente, habituado a decair nos índices internacionais que qualificam as melhoras dos países, sejam elas quais forem, o Brasil pode finalmente comemorar. No total de pessoas mortas por Covid-19, a cada 100 mil habitantes o país de Bolsonaro aparece mais bem colocado que potências como Alemanha, Reino Unido, França, Holanda e, até, Estados Unidos. Ou seja, tem menos falecidos por número de habitantes que cada uma dessas potências do primeiro mundo. Os índices, cuja fonte é a prestigiosa Universidade Johns Hopkins, são os seguintes.

O número de mortos no Brasil, até 15 de maio, é de apenas 6,5 habitantes para cada 100 mil habitantes. Nos Estados Unidos tinham morrido 25,9 pessoas por cada 100 mil habitantes. No Reino Unido de Boris Johnson 50,1 por 100 mil. Na Espanha 58,5 por cada 100 mil holandeses. Entre os dez países mais atingidos, aquele que mais se aproxima do Brasil é, curiosa mas talvez não acidentalmente, o país dos aiatolás, o Irã, com 8,4 para cada 100 mil. Logo após, a Alemanha, com apenas 9,5 — mas com toda certeza não pelas mesmas razões.

Inúmeras tabelas são divulgadas diariamente com números da pandemia. Essa, pelos paradoxos que apresenta, é particularmente interessante. E nela, não apenas a posição do Brasil chama a atenção. Também a da Bélgica, esse pequeno país de apenas 11 milhões de habitantes. Pois eis que essa pequena e bem apessoada nação da Europa aparece em primeiro lugar na lista de mortos por número de número de habitantes com 77,5 por cada 100 mil.

As razões pelas quais isso ocorre talvez expliquem, pelo reverso, as razões pelas quais o Brasil aparece em último, isto é, como o mais bem posicionado, aquele que tem a menor taxa de mortos por número de habitantes.

Pintura de Mike Davis

É claro que uma taxa de mortalidade tão elevada para um país como a Bélgica acabou chamando a atenção dos analistas e esses imediatamente foram à caça das possíveis explicações. Basicamente, essa taxa “se deve à maneira como o país passou a contar as mortes causadas pelo patógeno”, diz o site da BBC. Os belgas contabilizam não apenas os casos confirmados, mas também os suspeitos. Pode parecer maluquice, mas não para o governo belga. Para eles, essa contagem mais ampla “torna possível combater melhor a doença”. Bom, esse deveria ser o objetivo de todo governo. Colocar a saúde da população como prioridade. Deveria, mas não é. Prova-o mais que qualquer outro o governo brasileiro, a exata antípoda do governo belga. O método de notificação e contagem dos contagiados e mortos pela Covid-19 é apenas um dos exemplos.

O responsável do comitê científico formado pelo governo belga Steven Van Guth disse à BBC que, quando “você não tem capacidade de testar todos, é muito importante contar as mortes que tem a Covid-19 como causa provável… Entendo que alguns podem estar assustados, mas apenas tentamos ser o mais transparentes e honestos possíveis”. Sua chefe, a primeira-ministra Sophie Wilmès explicou que “o governo decidiu ser completamente transparente… mesmo que isso tenha causado um exagero nos números”.

O reverso de transparência e honestidade? Mentira, tapeação, engodo — e subnotificação. De volta ao começo. A transparência é civilizada, a mentira é grotesca — e no Brasil de hoje, desgraçadamente, a desonestidade é método de ação. A consequência é que o país caminha para trás, se brutaliza, e suas instituições democráticas estão desmoronando.

É como se preferíssemos acreditar que Neymar está sendo contratado para jogar a próxima temporada pelo Goiás, tão logo passe a pandemia. Que o próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, estaria interessado na efetivação da transferência, tendo enviado, no começo da semana passada, emissários para tratar do negócio com a diretoria do PSG. Uma fantasia que, óbvio, em seguida mostrará sua verdadeira cara, a do pesadelo.

Estratégia

Desde o início, quando a Covid-19 começou a vitimar a população, o governo do atual presidente não titubeou em revelar o quão leviana era sua política para a pandemia. Também desde o início, encontrou resistências nas suas próprias hostes, de governadores, como o de Goiás, ao ministro da Saúde, que após resistir por um tempo às patacoadas do chefe acabou por pedir as contas e abandonar o barco. Mais gente deixou o navio, como o todo-poderoso e estelar ex-ministro da Justiça.

A pandemia, que não tem nada a ver com isso, continuou avançando e avançando aceleradamente. É como se país e governo vivessem realidades paralelas. Mas, de novo, não se pense que há bobo na história. Ao contrário da população, o governo sabe bem que os números coletados e divulgados não traduzem a realidade. Sabe perfeitamente que os contágios e assim também o número de mortos são pelo menos meia dúzia de vezes maior — estudo da Universidade Federal de Pelotas apontou que para cada pessoa contaminada há 12 não notificados (a pesquisa foi feita por amostragem e testadas 4,5 mil pessoas em  9 cidades). Sabe mas está disposto a pagar para ver. Pagar para ver significa que está disposto a sacrificar vidas. Muitas, milhares, não importa quantas. A aposta já foi feita e não há como voltar atrás. Conta, sim, ainda com o apoio de parte importante daqueles que o elegeram. Pelo menos por hora. Por quanto tempo mais? Isso ninguém sabe.

Atualmente, o número de contagiados no Brasil dobra “a cada cinco dias, a terceira pior taxa do mundo”, diz a BBC. O Imperial College de Londres, que “analisou a taxa de transmissão ativa do covid-19… mostrou que o Brasil é o país que apresenta o número mais elevado entre os 48 países pesquisados (fonte: The Lancet de 9 de maio – a revista, fundada em 1823, é uma das mais importantes publicações de medicina do mundo). No mesmo texto a “Lancet”, revoltada com a situação brasileira, afirma que “talvez a maior ameaça à resposta à Covid-19 no Brasil seja seu presidente, Jair Bolsonaro… (cuja) liderança perdeu a bússola moral, se é que alguma vez a teve”.

As vantagens de ser considerado cretino

Pintura de Mike Davis

Aos poucos, semana após semana, o que foi se revelando é que na estratégica de comunicação do governo Bolsonaro relativa à Covid-19 há um cálculo que se esconde por detrás dessa máscara de estupidez do paspalho pretensamente engraçado — um modelito de operador político vendido pelo ideólogo da ultradireita o americano Steve Bannon (assistam “The Brink” de Alison Klayman, 2019 — misto de documentário e vídeo promocional o filme permite uma visão da performance recente desse caixeiro viajante da política contemporânea).

É claro que desde o princípio os estrategistas do governo sabiam que: 1) a pandemia mataria e mataria muito, 2) que contágios e mortos seriam subnotificados em níveis significativos, 3) que ao contrário do que gostaríamos de acreditar, uma parte importante da base eleitoral do presidente estaria moralmente disposta a aceitar o sacrifício de umas tantas milhares de vidas a mais em benefício da manutenção de uma falsa imagem de normalidade e controle.

Enquanto isso, que bom que sigam cultivando a imagem do simplório. O cretino ou boçal é eventualmente alguém passível de pena e aceitação, mesmo tendo a responsabilidade de altos mandos. Pode soar engraçado e até produzir identificação. O sujeito cruel ou perverso, de sangue frio e amoral, esse é mais difícil de ser tragado. Mesmo num Brasil onde a permissividade com a canalhice e com a mais completa ausência ética se tornou norma.

Enquanto isso

Nesse momento, na Espanha, população e governo, ainda tensos, começam a comemorar as conquistas da dura batalha contra a pandemia, o resultado do esforço coletivo, da seriedade e do empenho do Estado e do corpo político, da disciplina da cidadania (uma palavra usada repetidamente pelos espanhóis com um tom ligeiramente afetuoso).

Dia após dia, contam o declínio dos contágios e celebram a queda no número de falecimentos. Na sexta-feira, 15, foram 138 — no dia 2 de abril, o pior dia desde o início da pandemia, morreram 950 pessoas.

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