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Augusto Diniz

Negacionistas italianos mentem sobre kiwi testar positivo para Covid-19

Vídeo no YouTube mostra três cientistas na Itália a usarem uma fruta para tentar comprovar que pandemia seria uma farsa, mas fizeram uma confusão sem fim e causaram desinformação

Negacionistas italianos se passam por cientistas para fazer teste sem qualquer fundamento ou lógica para “comprovar” que pandemia da Covid-19 seria uma farsa para a China ganhar dinheiro | Foto: Reprodução/YouTube

A gente tenta avisar. Diz para o tio que precisa parar de acreditar em tudo que recebe com o aviso “encaminhado com frequência” no WhatsApp, que o pai não deve crer fielmente em publicações de imagens printadas no Facebook ou o irmão não pode mensagens sem citar de onde foram tiradas no Twitter. Mas as pessoas insistem em se apegar ao que está mais próximo, por mais absurdo que possa parecer. Vira verdade absoluta nos grupos de família.

Se você contestar vira o chato. Pois eu prefiro morrer chato do que ajudar a espalhar mentira. Ainda mais quando se trata de uma doença que já matou mais de 1,8 milhão de pessoas no mundo e mais de 193 mil no Brasil.

“A maior fraude da humanidade. Muitos estão contaminados, mas muitos nunca tiveram essa doença.. Testes chineses dão positivo até para frutas. Sorria, VOCÊ está sendo enganado! Veja só, cientistas italianos usam o “teste SARSCOV2” rápido de antígeno de fluxo lateral em um kiwi: deu kiwi positivo. A China faturou bilhões vendendo ao mundo essa fraude”, diz uma mensagem que circula nas redes sociais. A informação falsa vem de um vídeo no YouTube em que cientistas italianos colhem o líquido do kiwi e colocam no teste rápido de anticorpos da Covid-19.

Caiu na mentira?

Se você acreditou, sinto lhe informar, mas você foi vítima de mais uma rede de desinformação com afirmações que não se comprovam e não passam de distorções da realidade. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), o único teste capaz de detectar se alguém está com a Covid-19 é o RT-PRC. O exame é considerado o modelo ouro, ou seja, o mais eficaz. Isso se feito no intervalo correto da apresentação dos sintomas. Porque se for realizado em momentos equivocados, pode apresentar resultados errados também.

A história do kiwi ganhou força na terça-feira, 29, nas redes sociais com o vídeo dos italianos. Pronto. Temos a “comprovação” de que a pandemia da Covid-19 foi uma invenção da China para lucrar com a venda de destes, avisa a publicação. Tudo mentira. Os exames da doença, seja para detectar o vírus Sars-CoV-2 no organismo (RT-PCR) ou os anticorpos (testes rápidos), foram calibrados para analisar secreções humanas – saliva, sangue ou material retirado do nariz.

Aplicar extrato de uma fruta ou Coca-Cola, como já fizeram, só confunde o teste. E não serve para comprovar nada. Não foram criados para testar kiwi ou refrigerante. O resultado pode dar qualquer coisa. “Substâncias muito ácidas, por exemplo, podem destruir a proteína do anticorpo do teste. E aí, meu amigo, o teste pode indicar qualquer coisa (inclusive, um falso positivo). Isso não significa que o kiwi esteja infectado e muito menos que os testes (que não foram criados para testar frutas) sejam uma farsa”, explica a verificação feita pelo site Boatos.org.

Não são cientistas

Como mostra o site italiano Butac, as pessoas que aparecem no vídeo do teste positivo com kiwi não são cientistas. É um primeiro sinal de que não sabem o que estavam fazendo ao aplicar líquido da fruta em um teste rápido que analisa material humano. Pecaram, no mínimo, por não entenderem do assunto.

Um dos homens que aparece no vídeo, o médico Mariano Amici, além de não ser pesquisador, é conhecido no país europeu como negacionista da ciência. Os médicos bolsonaristas que insistem em prescrever ivermectina, azitromicina e hidroxicloroquina como tratamento preventivo depois de dezenas de estudos mostrarem a ineficácia dos medicamentos contra a Covid-19 não nos deixam mentir sobre o fato de profissionais da saúde não serem necessariamente entendedores de pesquisas científicas.

Aliás, a Itália acumula durante a pandemia um histórico de negacionistas do uso dos testes de Covid-19 para detectar a doença. “Atualmente, temos o RT-PCR, que pesquisa o RNA do vírus e que vem sendo realizado através da coleta swab (cotonete) nasal (nariz) e orofaringe (garganta), essas amostras são enviadas para o Laboratório Central de Sergipe (Lacen). O melhor momento dessa coleta é a partir do terceiro até o sétimo dia de sintomas”, afirmou a biomédica do Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), Deborah Karlla Gomes, em publicação da Secretaria Estadual da Saúde do Estado de Sergipe.

Experimento equivocado

A biomédica continua: “Há testes rápidos que só medem o IgM, e há os que analisam o IgM e IgG. Os testes rápidos (IgM/IgG) podem auxiliar o mapeamento da população ‘imunizada’ (que já teve o vírus ou foi exposta a ele), mas não têm função de diagnóstico”. Perceberam que a tal comprovação de que a pandemia seria uma farsa não passa de desinformação e experiência equivocada por quem não entende nada de ciência, de metodologia científica, pesquisa na área de saúde, biomedicina e farmácia, além de uma tentativa falsa de gerar desinformação?

Vale ler a conclusão da checagem do site Boatos.org sobre o caso: “Infelizmente, esse movimento de descredibilizar os testes para Covid-19 não é novo. Começou na Tanzânia com o próprio presidente do país afirmando que amostras de mamão, galinha e cabra testaram positivo para Covid-19. Depois disso, houve teste com geleia de maçã e Coca-Cola. O fato é que os testes não foram desenvolvidos para testar substâncias não-humanas”.

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