Navios gigantes de potências econômicas circulam pelo mundo contornando legislações trabalhistas

Os armadores preferem gente desprotegida por leis e a um preço o mais baixo possível. É a lógica do capitalista, exposta à violenta luz da linha do equador

Halley Margon

Especial para o Jornal Opção, de Barcelona

“O velho marinheiro”, arte de Gustave Doré

“Errar de terra em terra é meu destino;/No momento em que vejo um rosto num lugar,/Eu sei que é o homem que precisa me escutar,/E meu caso lhe ensino.” Trecho de “A Balada do Velho Marinheiro”, de S. T. Coleridge, com tradução de Paulo Vizioli

São as maiores máquinas fabricadas pelos homens e quase ninguém as vê ou jamais viu. Não que sejam poucas. Agora mesmo são mais de 60 mil e estão por todo o planeta. Atuam mais ou menos clandestinamente ou de todo modo dentro de um sistema de leis criado para protegê-las e servi-las pelas próprias companhias às quais pertencem. Diferentemente de todas as demais cadeias do sistema produtivo não precisam de publicidade. Ao contrário, fogem da visibilidade e preferem atuar nas sombras. Quase ninguém as conhece ou sabe seus nomes, o país de origem dos proprietários ou controladores.

Ao mesmo tempo, dificilmente haverá algo que nos pertença ou que façamos uso que não tenha chegado até nós por intermédio delas. São os navios cargueiros que incessantemente cruzam os oceanos da Terra para abastecer os mercados — do que quer que tenha sido produzido pelos homens e mulheres em cada canto do planeta.

Os maiores, de tão grandes, foram se tornando paradoxalmente invisíveis: na medida em que não cabem mais nos antigos portos, onde sequer há água (profundidade) suficiente para recebê-los, são obrigados a atracarem  noutros, longes das cidades, construídos especialmente para seus descomunais calados.

Maior navio cargueiro do mundo | Foto: Reprodução

Estamos habituados à menção de superpetroleiros, mas um dos desses gigantes recém-lançado ao mar foi fabricado para receber containers, 18 mil a cada viagem (enfileirados dariam uma estrada de 180 quilômetros de comprimento). Batizado como Triple E tem 400 metros de comprimento (quase quatro campos de futebol) e 59 metros de largura, o que é também espaço suficiente para comportar enfileirados dez Airbus A320. Suas dimensões são também um problema, porque, além de não poder atracar em muitos dos portos do mundo, não consegue passar pelo canal do Panamá. Foi construído na Coreia do Sul pelo estaleiro Daewoo e pertence a uma das maiores companhias de transporte marítimo do mundo, a dinamarquesa Maersk. Numa operação normal, essa máquina colossal emprega apenas 19 tripulantes.

Mesmo empregando tão pouca mão de obra, os armadores ou as companhias que lhes servem têm hábitos curiosos na hora de contratar. O barco pode ser alemão, americano, dinamarquês, sueco ou de qualquer outro rico país do primeiro mundo, mas os marinheiros nunca serão alemães, americanos, dinamarqueses, suecos e assim por diante. A razão é muito simples: essa é uma mão de obra protegida por legislação e direitos trabalhistas e sindicatos. Os bilionários donos das companhias não querem saber de nada disso. A eles o que importa é maximizar os lucros até a última gota. Imagine-se: navios transportando milhares de containers, milhões de toneladas, com menos de duas dezenas de trabalhadores quase todos pouco qualificados e mesmo assim o armador prefere contratar gente desprotegida por leis e a um preço o mais baixo possível. É essa a lógica do capitalista, translúcida, exposta à violenta luz da linha do equador.

O truque funciona assim. O proprietário é uma empresa digamos holandesa, mas o barco leva bandeira da Libéria. O navio sob bandeira holandesa estaria regido pelas leis da Holanda. E, por consequência, teria que obedecer à legislação trabalhista, mas também fiscal etc da Holanda. No entanto, se está registrado na Libéria…

A maioria dos navios, sejam japoneses, americanos, britânicos etc, está registrada no Panamá, Ilhas Marshall, e até Mongólia e Bolívia (que não têm acesso ao mar). Aproximadamente 1 milhão e meio de marinheiros torna possível a operação desses 60 mil barcos que neste mesmo instante estão cruzando os mares e oceanos da Terra, longe dos nossos olhos. Os filipinos representam quase 40% dessa mão de obra. Além de serem mais baratos, falam inglês. A Libéria, um pequeno país da costa oeste da África, convenientemente submetido à violência e a frequentes golpes de Estado, é outro dos grandes fornecedores de bandeira para os armadores — e um dos favoritos.

Mare Nostrum — Mare Tenebrosum

Os romanos chamavam de Mare Nostrum (o nosso mar) ao Mediterrâneo, pelo qual tinham um imenso respeito, era o mundo deles, era o mundo inteiro — poucos os que se aventuraram para além do estreito de Gibraltar (exceto, muito antes, os fenícios – mas isso foi tão antes…), onde então se descortinava o desconhecido mar de las Tinieblas, ou Mare Tenebrosum.

Essas tremendas superfícies de água são agora como telas de cristal líquido sobre as quais surgem e desaparecem com a rapidez das realidades virtuais linhas que desenham trajetórias e rotas, vetores matemáticos, cálculos financeiros e, às vezes, sugestões para prazeres os mais rasos possíveis.

Festa no mar (transatlânticos e navios de cruzeiro)

As franjas nobres de mares e oceanos foram tomadas pelos navios de cruzeiro (os transatlânticos, na verdade, deixaram de ser atrativos e desapareceram). Enfileirados uns atrás dos outros, quase todos brancos, de uma brancura gigantesca e ostensiva, se assemelham a montagens de lego nas quais a extravagância dos construtores ultrapassou seguidamente os limites de um eventual bom senso. Para chamar a atenção dos consumidores e bater a competição a cada novo modelo se acrescenta mais e mais novas peças na composição. Mas não se trata apenas de inventar chamarizes, isso é parte da trama e, como veremos, também aí os donos do negócio são imparáveis. Trata-se de concentrar numa única peça o maior número possível de casulos destinados a abrigar os seres que se disporão a pagar pela inolvidável experiência de alguns dias a bordo do brinquedo. Chama-se economia de escala e está presente nos manuais de micro economia. Quanto maior o navio maior sua capacidade de transportar gente num só tempo, numa só viagem e com basicamente os mesmos custos fixos de um barco transportando menos gente. Simultaneamente, tamanho se transforma em item adicional para impressionar o cérebro impressionável da clientela. E, voltando aos instrumentos de sedução, amplia o espaço disponível para a implantação de novos tópicos de entretenimento.

Spectrum of the Seas | Foto: Reprodução

Um repertório exuberante

O Spectrum of the Seas, por exemplo, tem no seu cardápio de atrações os seguintes itens: a cápsula North Star, “que se ergue a mais de 90 metros sobre o nível do mar para oferecer vistas de 360 graus do mar e da própria nave”, o SkyPad, “que oferece um mundo virtual”, o Bionic Bar, “onde é possível brincar com robôs”, o RipCord by iFly (!!!), e o simulador de surf FlowRider. Veja-se que o nome de cada uma das atrações, desde o do próprio navio, acrescenta um plus mágico aos elementos naturais da atração.

O barroquismo mais primário copula com o kitsch em cada momento da concepção.

De modo que um simulador de surf não pode, de nenhuma maneira, chamar-se simplesmente simulador de surf. Faltará o elemento que o torna único, diferente de todos os outros milhares de simuladores de surf que existem no mundo. Assim, o que o Spectrum of the Seas oferece é o simulador de surf FlowRider. O Spectrum of the Seas tem 347 metros de comprimento, um volume de 168.000 toneladas e pode transportar 4.200 passageiros. O mais que famoso Titanic (que era um transatlântico e não um navio de cruzeiro) tinha 269 metros de comprimento, 46.328 de tonelagem e podia levar 2.435 passageiros e 892 tripulantes.

Symphony of the Seas | Foto: Reprodução

Mas, pobrezinho do Spectrum… frente ao Número 1, o Symphony of the Seas. Uns desses incontáveis sites especializados informa, orgulhoso, que “o maior navio de cruzeiro do mundo é uma verdadeira cidade flutuante. Com 361 metros de extensão, possui 18 andares que chegam a 72,5 metros de altura” e pode transportar 6.680 passageiros. E, lá de cima, apregoam, “lá de cima, você pode sentir a vertigem no Ultimate Abyss, o slide mais longo do mercado, que desce a toda velocidade por 10 níveis”. Entre suas atrações mais interessantes está o calçadão marítimo, ou Broardwalk, os pratos e coquetéis do País das Maravilhas (Wonderland), o solarium e o animado passeio do Central Park. Pode não parecer muito, mas são apenas algumas das atrações desse espetacular colosso dos oceanos. No Harmony of the Seas (o segundo maior em operação no início dos anos 2020) encontramos: o spa Vitality at Sea and Promenade ou a Royal Suite Class de dois andares, “que possui comodidades de marca de luxo e serviço de mordomo”.

Segue toda um imemorizável repertório de invenções cujo alvo é sempre essa multidão de 30 milhões de pessoas que embarcaram em cruzeiros em 2019. Trinta milhões de seres ávidos por comer, beber e se divertir tão intensa e concentradamente quanto isso seja possível, em intervalos de tempo que variam entre três e dez dias (claro, a oferta de itinerários e tempo embarcado atende a quase todos os gostos e bolsos) — que isso aconteça numa superfície que flutua sobre mares e oceanos é apenas um detalhe que, na realidade, passa praticamente desapercebido.

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