Não é justo, para homenagear Iris, retirar a homenagem à história e à família de Altamiro Pacheco

Iris Rezende terá as suas homenagens; esperemos que se façam sem acintes à história e à família de Altamiro. Uma troca não é coisa pequena ou é apenas na aparência

Marcelo Franco

É um espanto que tenhamos uma discussão sobre a mudança do nome do Aeroporto Santa Genoveva: querem-no renomear Aeroporto Iris Rezende, em homenagem ao ex-governador e ex-prefeito, falecido recentemente.

Cidades têm camadas históricas que se sobrepõem, e isso nos traz certa sensação de pertencimento. Somos carne, sistema nervoso, alma, personalidade e… história. Ou, mudando um pouco o sentido da famosa frase de Ortega y Gasset, “Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo eu”.

Aeroporto Santa Genoveva | Foto: reprodução

A história é conhecida: Altamiro de Moura Pacheco, nome inscrito com tapete vermelho e banda de música na história goiana, doou o terreno para a construção do aeroporto com a condição de que sua mãe, Genoveva, fosse homenageada, e daí o nome, já velho de décadas, do local de onde partimos para o mundo e para onde retornamos apressados e em busca do prato de pequi que nos faltou em viagens. A questão da doação com a obrigação de homenagem é um problema jurídico que se resolve, creio; o problema real é sabermos o que pretendemos como povo organizado neste espaço geográfico, nesta nesga de terra que aprendemos a amar também por algum sentimento atávico que nos leva à nossa ancestralidade primordial.

Pertencimento, eu escrevi. E aí estão o Iúri Godinho com sua página “Goiás Tem História”, no Instagram, recordando-nos constantemente por que somos o que somos; o Euler de França Belém, com seus textos minuciosos, também não nos deixando ficar desgarrados do nosso passado; o promotor de Justiça Jales Guedes Mendonça, presidente do IHGG, comandando a reforma da antiga e histórica sede do Instituto; o Nilson Jaime escrevendo livros e artigos que nos pregam ainda mais no chão vermelho do Cerrado. Eles e muitos outros.

Ortega y Gasset, filósofo espanhol: “Faça o bem ao lugar onde você nasceu” ou “Bendiz o lugar em que nasceste”| Foto: Reprodução

Há uma tradição, em outros países, de contar histórias de cidades em livros que são quase “biografias”: temos, entre tantos outros exemplos, “Biografia de Lisboa”, de Magda Pinheiro; “Roma” e “Barcelona”, de Robert Hughes; “Jerusalém”, de Simon Sebag Montefiore; “Paris: Biografia de uma Cidade”, de Colin Jones; e “Faust’s Metropolis: A History of Berlin”, de Alexandra Richie. São poucos os exemplos que menciono; poderiam, contudo, ser centenas. Sobre Goiânia, a saga de sua construção está já bem documentada. Ocorre que livros assim existem porque a história dessas cidades quase sempre se acumula como aluvião; ela não se reconstrói com os salamaleques dispensados à personalidade do momento. Iris Rezende terá as suas homenagens; esperemos, então, que elas se façam sem acintes à nossa história e à família de Altamiro. Alguns dirão: uma troca de nomes é coisa pequena: não, não é, ou o é apenas na aparência. Um único nome de edifício ou logradouro traz em si uma história que é parte indissociável da teia da história maior de uma cidade, um Estado, um país — e não menos inseparável de uma narrativa temporal na qual nos inserimos todos. Goiânia sou eu, somos nós, inteiriços por causa de um passado compartilhado.

Altamiro de Moura Pacheco | Foto: Reprodução

“O brasileiro não tem memória”, dizem. Costumo duvidar muito desses conceitos absolutos que tentam sintetizar o caráter de todo um povo; eu diria apenas que somente alguns brasileiros não prezam a memória coletiva, e muitas vezes são as mesmas pessoas que nasceram com colunas vertebrais flexíveis. Dado esse passo, quem impedirá que o Aeroporto Iris Rezende passe a ser, em 50 anos, digamos, o Aeroporto Marconi Perillo?

Marconi Perillo e Iris Rezende: hoje Aeroporto Iris Rezende e, daqui a cinquenta anos, Aeroporto Marconi Perillo? | Foto: Reprodução

O ex-governador Marconi também receberá as suas homenagens, no devido tempo, mas esperemos que até lá tenhamos compreendido que não se fazem homenagens com atos acintosos. “Aeroporto Santa Genoveva” não é um nome que pertence só a Goiânia ou à família de Altamiro de Moura Pacheco: ele pertence a mim, a nós todos que estamos aqui, tocando as nossas vidinhas bestas no mesmo local e no mesmo tempo, vidinhas que podem ecoar na eternidade se levarmos seriamente o compromisso de que só se mantém um tapete com a coesão dos seus fios.

“Benefac loco illi quo natus es”, para ficarmos novamente com Ortega y Gasset.

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