Euler de França Belém
Euler de França Belém

Nadiêjda Mandelstam, a mulher cuja memória reinventou o poeta Óssip Mandelstam

Joseph Brodsky diz que são os poemas, “e não a memória do poeta, que” Nadiêjda “tenta manter vivos. Foi dos poemas, e não dele, que ficou viúva por 42 anos”

Óssip Mandelstsam e Nadiêjda Mandelstam: vidas complexas e arte de alta relevância

No ensaio “Nadiêjda Mandelstam (1899-1980) — Um Obituário” (publicado no esplêndido livro “Menos Que Um — Ensaios”, Companhia das Letras, 230 páginas, tradução de Sergio Flaksman), o poeta russo Joseph Brodsky resgata a história de uma mulher extraordinária. Tão fabulosas são, o indivíduo e sua história, que mais parecem ficções. Nadiêjda (Nadezhda e Nadiedja são outras grafias), mulher daquele que Brodsky considera o maior poeta russo do século 20, Óssip Mandelstam, praticamente reinventou o marido. De algum modo, Mandelstam existe porque foi criado ou, notadamente, recriado por Nadiêjda. Com mais de 60 anos, escreveu suas memórias — publicadas com os títulos de “Hope Against Hope” e “Hope Abandoned”; na União Soviética, saíram apenas depois da pierestróika de Mikhail Gorbachev — e resgatou sua própria vida e, sobretudo, a do poeta. Era tão apaixonada por Mandelstam, principalmente admiradora fiel de sua poesia (de dicção clássica, inicialmente acmeísta, depois tão-somente mandelstamiana), que a decorou integralmente. Mais, decorava as poesias e as cartas dedicadas às amantes do poeta. Não perdia nada.

“Era uma mulher baixa e magra, e com o passar dos anos foi-se encolhendo cada vez mais, como se tentasse transformar-se numa coisa sem peso, algo que se pudesse enfiar às pressas no bolso em caso de fuga” (Brodsky)

O filósofo anglo-letão Isaiah Berlin, a poeta Anna Akhmátova, Brodsky e Boris Schnaiderman afirmam que a memória reconstruída por Nadiêjda é um dos portentos da literatura russa. Lembra a grande literatura do país no século 19. Mandelstam certamente teria ficado entre alegre e estupefato com o sucesso literário de Nadiêjda. No livro “Os Escombros e o Mito — A Cultura e o Fim da União Soviética” (Companhia das Letras, 306 páginas), o crítico e tradutor Boris Schnaiderman constata: um “documento impressionante e vigoroso são as memórias de Nadiêjda Mandelstam, a viúva de Óssip Mandelstam, editadas primeiro no Ocidente e agora bem conhecidas na Rússia, e que revelam um espírito penetrante e mordaz em extremo. Atribuo-lhe uma importância fundamental”.

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Isaiah Berlin, no livro “Estudos Sobre a Humanidade” (Companhia das Letras, 717 páginas, tradução de Rosaura Eichenberg), assinala: “Relatos autênticos da vida da intelligentsia [russa] podem ser encontrados, por exemplo, nas memórias de Nadiêjda Mandelstam”. Na biografia “A Voz da Rússia — Vida e Obra de Anna Akhmátova” (Algol, 512 páginas), Lauro Machado Coelho escreve: “Os dois volumes de memórias de Nadiêjda Mandelstam descrevem a perseguição de seu marido, Óssip Emílievitch, e as suas relações com outros escritores da época. O primeiro volume, ‘Vospominánie’ (‘Memórias’), foi publicado em inglês, em 1970, com o título de ‘Hope Against Hope’; a continuação, “Vtoráia Kníga’ (Segundo Livro), saiu, em 1974, como ‘Hope Abandoned’. (…) A obra só foi publicada na Rússia após a pierestróika.”

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Como Mandelstam, Nadiêjda era uma revolucionária, não em termos políticos. “Na juventude”, conta Lauro Machado Coelho, “tinha sido confessadamente bissexual” e participava de ménage à trois com o poeta e suas amantes. A especialista em literatura Emma Grigórievna Gershtéin conta que, quando estavam falando de Akhmátova, Nadiêjda disse: “Que mulher boba! Não sabia como viver uma relação a três”. Akhmátova, que, segundo Berlin, considerava Mandelstam o maior poeta de sua geração — espécie de sucessor de Púchkin —, escreveu sobre Nadiêjda: “[Mandelstam] Não queria que ela se afastasse dele, não deixava que trabalhasse, era doentiamente ciumento, e pedia a opinião dela para cada palavra de seus poemas”.

Brodsky conta que, no auge do stalinismo e mesmo depois, por ter sido mulher de um renegado, Nadiêjda “passou décadas fugindo, atravessando as águas negras e as cidades do interior do grande Império, instalando-se em lugares de onde tornava a partir ao menor sinal de perigo. (…) Era uma mulher baixa e magra, e com o passar dos anos foi-se encolhendo cada vez mais, como se tentasse transformar-se numa coisa sem peso, algo que se pudesse enfiar às pressas no bolso em caso de fuga. Não possuía bens materiais: nem móveis, nem objetos de arte, nem biblioteca”. Seu principal bem era seu cérebro, sua memória.

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Aos 65 anos, e isto, afirma Brodsky, “é quase inacreditável”, escreveu seus dois livros de memórias. O poeta insere a obra de Nadiêjda na grande prosa russa do século 19. “Esta prosa, que surge como se saída do vazio, como um efeito sem causa aparente, foi na verdade uma simples decorrência da poesia russa do século 19. Deu o tom para tudo que seria escrito mais tarde em russo, e as melhores obras da ficção russa podem ser consideradas como um eco distante e uma elaboração meticulosa da sutileza psicológica e léxica demonstrada pela poesia russa do primeiro quartel do século passado [Brodsky refere-se ao século 19]. ‘A maioria dos personagens de Dostoiévski’, dizia Anna Akhmátova, ‘são envelhecidos heróis de Púchkin, Onieguins e outros assim’.”

Nadiêjda memorizava poemas de Mandelstam e também de Akhmátova. É uma precursora dos computadores. “Repetir dia e noite as palavras de seu marido morto teve sem dúvida não apenas o efeito de fazer com que as compreendesse cada vez melhor, mas também o de causar a ressurreição da própria voz do poeta, as entonações que lhe eram peculiares, suscitando uma sensação, por mais ligeira que fosse, de sua presença, ao percebermos que ele cumpriria sua parte de um pacto ‘para a felicidade ou a adversidade’, sobretudo para a adversidade. (…) Se existe um substituto para o amor, é a memória. Memorizar, então, é restabelecer a intimidade”, analisa Brodsky.

Ao contar suas histórias, que são as de toda uma geração massacrada pelo stalinismo, Nadiêjda elucidou, sustenta Brodsky, “a consciência do país. (…) Suas memórias são uma visão da história à luz da consciência e da cultura. A esta luz a história franze os olhos, e o indivíduo percebe sua escolha: entre procurar a fonte dessa luz e cometer um crime antropológico contra si mesmo”. Brodsky diz que são os poemas, “e não a memória do poeta, que” Nadiêjda “tenta manter vivos. Foi dos poemas, e não dele, que ficou viúva por 42 anos”.

Mandelstam morreu num campo de prisioneiros, em 1938. Foi condenado porque escreveu um poema chamando Stálin de o “assassino” dos “bigodes de barata”.

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Boris Schnaiderman disse sobre Nadiêjda: “Em meio às condições terríveis de sua vida em  Vorôniej, sujeito a privações extremas, quando sua mulher, Nadiêjda, muito doente e debilitada, decorava os versos que ele [Mandelstam] escrevia, para que não se perdessem, ele criou um poema ‘positivo’, em que fala de um tempo em que Stálin faria despertar a vida e a razão. Parece muito claro tratar-se de uma tentativa de se salvar. Mas, também nos cadernos de Vorôniej, aparece um poema nada canônico e bem sensual, dirigido a uma mulher morena (que não era Nadiejda; esta, aliás, em sua faina desesperada de conservar tudo o que ele escrevera, fazia questão de guardar os poemas e cartas que dirigia a outras mulheres), que profere com carinho e suavidade o ‘nome tonitruante de Stálin’. Ora, é claro que o nome neste contexto não se destinava a manifestar subserviência. Seria ‘identificação com o agressor’, numa escala desmedida? Talvez.” Nadiêjda escreveu: “Ao deixar Vorôniej, Óssip Mandelstam pediu a Natacha [Stempel] que destruísse a ‘Ode’ [a Stálin]. Muitos me aconselham a escondê-lo, como se nada disso tivesse acontecido. Mas eu não faço isso, porque assim a verdade estaria incompleta: existência bifurcada é um fato absolutamente real de nossa época, e ninguém pôde evitá-lo”. Era uma intelectual… honesta.

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