Augusto Diniz

Na guerra eleitoral da vacina de Doria e Bolsonaro, jornalismo se faz presente e necessário

Declarações do presidente da República, do ministro da Saúde e de governadores são verificadas e desmentidas em tempo recorde

Em meio à batalha do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para descredibilizar tudo que é anunciado pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que tenta sair na frente do Palácio do Planalto na corrida pela vacina, trabalho profissional de apuração da imprensa tem ajudado a desmascarar informações truncadas e anúncios além do possível | Foto: Marcos Corrêa/PR

Nunca o jornalismo profissional foi tão necessário. A hipérbole da frase talvez não se cumpra porque o trabalho criterioso de apuração da imprensa comprometida com a informação esteve presente em diversos momentos cruciais do mundo. Mas com um ano de crise sanitária causada pelo Sars-CoV-2, que deixou o mundo em alerta durante todo o ano de 2020, jornalistas são fundamentais para acompanhar, chegar a veracidade de afirmações de autoridades e ir atrás de informações que confirmem ou desmascarem tentativas de se aproveitar do canal direto de comunicação com a população para fazer o jogo político que cada lado da disputa partidária e eleitoral entende ser conveniente.

Quando o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou o cronograma de vacinação contra a Covid-19 no território paulista a partir do dia 25 de janeiro com utilização de doses da Coronavac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, a imprensa estava lá para informar que o imunizante precisa primeiro de ser aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser aplicado na população de São Paulo ou do Brasil. E que a Sinovac ainda não publicou os resultados da fase três de testes da vacina, o que inviabiliza a garantia de que no dia 25 de janeiro São Paulo poderá começar a vacinar qualquer grupo de pessoas.

Entre informações desencontrados e anúncios apressados do governo federal na semana passada em resposta ao cronograma paulista, o ministro da Saúde Eduardo Pazuello disparou uma quantidade sequencial de mentiras em entrevistas e pronunciamentos. A forma afoita com a qual o Palácio do Planalto tentou reagir politica e eleitoralmente ao ato de Doria teve diversos efeitos colaterais. O jornalismo estava presente novamente para mostrar que a única vacina aprovada no mundo em caráter emergencial e já aplicada na população do Reino Unido desde terça-feira, 8, dos laboratórios norte-americano Pfizer e alemão BioNTech, ofereceu doses do imunizante ao governo federal brasileiro há mais de quatro meses.

A coisa fica ainda pior quando o ministro da Saúde diz à CNN Brasil que o País pode, talvez, iniciar a vacinação contra a Covid-19 por meio do governo federal no final de dezembro ou em janeiro com doses compradas junto à Pfizer. Na manhã seguinte, em matéria da rádio Band News FM de São Paulo, os representantes do laboratório dos Estados Unidos em solo brasileiro informaram que não havia sido assinado qualquer contrato de compra pelo governo Bolsonaro. 

Até quando as autoridades voltam atrás em suas afirmações e tentam acusar a declaração anterior de ser invenção, a imprensa se apresenta para comprovar que as informações foram repassadas por determinada autoridade. Na sexta-feira, 11, o ministro Pazuello estava em Goiânia e teria dito ao governador Ronaldo Caiado (DEM) que o governo federal editaria uma Medida Provisória para requisitar as vacinas produzidas, compradas ou importadas no Brasil para que fossem distribuídas apenas pelo Ministério da Saúde. Dada a pressão do governo de São Paulo após as declarações de Caiado, a pasta informou que nunca se manifestou sobre confiscar ou requisitar doses de vacinas contra a Covid-19 que forem adquiridas ou produzidas por governos ou prefeituras.

A imprensa erra? Bastante. Mas ainda assim tem o dever de corrigir o que publica de impreciso ou equivocado. Se não tivéssemos o jornalismo profissional, nos restaria escolher um lado na guerra de quem olha apenas para o voto em 2022 e não quer que você saiba da verdade: que a pandemia, para alguns, pode ser apenas um jogo em busca da eleição – ou até mesmo a reeleição. Na lógica do “se colar colou”, o trabalho do jornalismo profissional, com método de apuração e critério de publicação das informações, é sempre bem-vindo.

Só para lembrar. É a imprensa que tem mostrado que os casos e mortes por Covid-19 têm aumentado, o que muitos cientistas começaram a chamar de possível segunda onda da pandemia no Brasil. Mesmo que você insista em acreditar no que o presidente diz quando chama a doença de “gripezinha” ou que a pandemia está “no finalzinho”, leia informação em veículos confiáveis, mais de um de preferência, não se prenda nos textos e imagens que você recebe no WhatsApp – a maioria é feita pra te enganar mesmo – e dê uma olhada nos número atualizados nos portais noticiosos.

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