Euler de França Belém
Euler de França Belém

Muito além do judô

Uma história de paixão à primeira vista. Uma história que é o próprio edifício da existência, erguido a despeito das tempestades e a despeito da mesquinharia de um povo. Rafaela Silva e o seu “cala a boca” ao Brasil coxinha. Ou uma história de amor

Rafaela Silva: os olhos eram firmes e sem sorriso. Os olhos eram o corpo rijo, ereto, em equilíbrio

Rafaela Silva, judoca de ouro nas Olimpíadas do Rio de Janeiro: os olhos eram firmes e sem sorriso. Os olhos eram o corpo rijo, ereto, em equilíbrio

Luana Borges

Os olhos eram firmes e sem sorriso. Os olhos eram o corpo rijo, ereto, em equilíbrio. Eu nada sabia de judô. Sequer o nome de um golpe. Eu nada sabia de Rafaela Silva. Sequer de sua trajetória de mulher negra, lésbica, de origens humildes da Cidade de Deus. Naquele início de luta que eu via pela tevê, eu nada sabia de nada: só sabia dos olhos. Desses, eu sabia bem… Esses, eu via: o olho firme, de pupilas concentradas, circundantes a cada movimento da rival; o olho fixo, de pupilas penetrantes, que paralisavam cada gingado do corpo da oponente, fixando-o a fim de acertar em cheio o contragolpe.

Mesmo encurvada, na típica posição da luta (nova para mim), Rafaela Silva era toda ereta. Altiva. Enquanto ela fixava e paralisava a oponente, olho rijo de quem aceitou a grande luta, o narrador da tevê dizia uma besteira do tipo: Rafa Silva nem sorri! E eu, que até então nada sabia dela, logo intui: “não sorri não, garota! Cobrar sorriso de uma mulher numa hora dessas? Continue que dá! É sua!”.

Ela devia era lutar. Não era movimento de dente nem de boca, o que era preciso era a circulação rápida da mente, dos olhos e por fim do corpo. Toda concentrada no movimento de se fazer existir. Ela tinha levado punhalada – disso eu soube depois –, chamaram-na de nomes terríveis, tentaram animalizá-la, tentaram fazê-la bicho em jaula, desdenharam sua cor, deslegitimaram seu lugar na luta do judô e da vida, foram vis e ridículos, quase a fizeram desistir. Isso em Londres, em 2012, nas Olimpíadas anteriores.

Mas no tatame que eu via pela tevê, a cena era essa: os olhos firmes e sem sorriso tinham tanto amor pela luta! Eu-inteira, enquanto assistia à disputa, estava em pé, esmurrando minhas próprias mãos, dizendo baixo, e dentro de mim e firme, o nome dela – eu mesma de pupila fixa e circundante, eu mesma Rafaela. “Vaaaai, Rafa, vaaai, porra!” Eu estava apaixonada no primeiro encontro, à primeira vista amorosamente vidrada nos olhos. E vidrada no “no amor à luta” que Rafaela Silva me repassava. É claro que ela ia ganhar!

E na precisão de golpes, e na ansiedade de tentativas de estrangulamento, e na disputa de corpos emaranhados no tatame, e nos movimentos das mãos tão firmes quanto às pupilas, e nos pés que se perseguiam em pisões, eu logo me lembrei de Pequena Flor, personagem de Clarice Lispector em um conto que, tal como a luta de Rafaela, é obra de gênio. Chama-se A menor mulher do mundo, o conto.

O riso e o sonho. O golpe final

A menor mulher do mundo, de Clarice, era assim: uma pigmeia negra, nascida no Congo Central, na África Equatorial. “Quarenta e cinco centímetros, madura, negra, calada”, como vai dizer um narrador que, no início do conto, está contaminado pela visão preconceituosa de outro personagem da narrativa, Marcel Pretre, o explorador francês.

Em literatura, há uma técnica que, se bem executada, faz da história algo ágil e muito prazeroso. Norman Friedman a chamou de “onisciência seletiva”. Por trás do nome pomposo, há algo simples de se entender: os narradores podem se fixar às sensações e aos pensamentos de determinados personagens, focalizando internamente o que se passa em suas mentes e deixando, por outro lado, outros personagens apenas focalizados externamente, sem se atinar ao nível máximo das cenas mentais, dos sentimentos e das percepções desses últimos.

No início de “A menor mulher do mundo”, a sábia Clarice faz exatamente isso: focalizou o explorador francês, por si autoritário e preconceituoso, e propositalmente deixou a pigmeia em estado de mudez. Ela foi nomeada – por seu “descobridor” Marcel Pretre — como Pequena Flor. Lispector é aqui irônica, pois não é por acaso que o menor ser existente no planeta é uma mulher, uma pessoa negra e africana, possuindo atributos que são culturalmente desvalorizados pelas ideologias de um patriarcado racista. E machista.

Não é por acaso, também, que o cientista Marcel Pretre, que a fotografa no Congo Central e toma notas a seu respeito, é um explorador, pois esse termo encerra uma duplicidade de sentidos: ele explora como estudioso, mas também, e muito mais, explora como aquele que diante do abuso quer obter lucro ou vantagens pessoais. Também não é casual ele ser francês, nacionalidade que aponta à identidade de um povo colonizador.

Até aí, nada de novo na terra do sol: um homem nomeando uma mulher, um branco classificando uma negra. Enquanto ela mesma, a pigmeia (mulher e negra e pequena), estava muda, muda, muda. Ela nada dizia. Ele dizia por ela. A escolha técnica de Clarice – por inicialmente focalizar o narrador em Marcel — endossa o silêncio de Pequena Flor. Ele a nominava. Ele era a ordem.  Fotografava-a. Classificava-a. Ela calada. Ela era a pulsão. A selvageria.  Fotografada, ela “foi publicada no suplemento colorido dos jornais de domingo, onde coube em tamanho natural”.

Outros falaram dela. Os leitores vorazes. Os sedentos de tragédias. “A gente fazia ela o brinquedo da gente, hein!”, disse uma criança de caninos prontos para abocanhá-la, dente caindo para nascer um que melhor morde. Uma mulher diz “mas é tristeza de bicho, não é tristeza humana”, ao avaliar a estampa da pigmeia no suplemento de fim de semana. “Imagine só ela servindo a mesa aqui em casa!”, diz outra madama, empertigada num domingo burguês.

Em uníssono, pareciam negar à pequena mulher o seu estado de existência, sua fome de gente, seu sonho de mundo, sua luta no Congo. Mas então Clarice — que dava baile de inteligência aos coxinhas! — faz a inversão fundamental na trama: passa a focalizar seu narrador em Pequena Flor! E ela fala! E ela luta! Ela é o contragolpe de Rafaela Silva. Ela é a imobilização de mestre que Rafa dá no judô. Ela é o meu estado de felicidade e paixão ao ver Rafa Silva no tatame. Ela é meu encantamento pelo sonho de lê-la, a judoca e a personagem, existindo!

Mais um trecho do conto: “Pequena Flor estava rindo, quente, quente. Pequena Flor estava gozando a vida. A própria coisa rara estava tendo a inefável sensação de ainda não ter sido comida. Não ter sido comida era o que, em outras horas, lhe dava o ágil impulso de pular […]. Mas, neste momento de tranquilidade, entre as espessas folhas do Congo Central, ela não estava aplicando esse impulso numa ação — e o impulso se concentrara todo na própria pequenez da própria coisa rara. E então ela estava rindo. Era um riso como somente quem não fala, ri. Esse riso, o explorador constrangido não conseguiu classificar. E ela continuou fruindo o próprio riso macio, ela que não estava sendo devorada. Não ser devorado é o sentimento mais perfeito. Não ser devorado é o objetivo secreto de toda uma vida. Enquanto ela não estava sendo comida, seu riso bestial era tão delicado como é delicada a alegria. O explorador estava atrapalhado. Em segundo lugar, se a própria coisa rara estava rindo, era porque, dentro dessa sua pequenez, grande escuridão pusera-se em movimento. É que a própria coisa rara sentia o peito morno do que se pode chamar de Amor”.

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Pequena Flor se transforma então em mulher inclassificável, porque viva. Ela se diz: ninguém mais fala por ela ou nomina-lhe a cara. O homem branco atrapalhado. O homem que, quando a mulher negra passa a manifestar o que pensa, passa a ter uma cor rosa-esverdeada – “como a de um limão de madrugada”. “Ele devia ser azedo”, diz a irônica Clarice. Branco azedo!

A sociedade inteira, representada pelos leitores de jornal, muda e perplexa, sem saber onde esconder o constrangimento de ver Pequena Flor fruindo o próprio riso, a própria liberdade, sonhando entre árvores. O Brasil Coxinha perplexo pela maior medalha brasileira: a nossa Rafaela Silva, a nossa Pequena Flor. Rafa siderou e emudeceu seus observadores. Rafa não foi devorada. Rafa riu de seu modo: como somente quem não sorri, pois a luta é séria, ri. Riso, um hino, no hino!

Com sua humildade — de quem assumiu a dificuldade em retornar ao tatame, de quem, honesta no desejo, reinou, lutou, ganhou —, ela foi inteira sonho nos olhos, sonho em mim, movimento de amar.

Ao final do conto, à maneira irônica de Clarice, há um contragolpe no racismo nacional: “Marcel Pretre teve vários momentos difíceis consigo mesmo. Mas pelo menos se ocupou em tomar notas e notas. Quem não tomou notas é que teve de se arranjar como pôde: – Pois olhe — declarou de repente uma velha fechando o jornal com decisão — pois olhe, eu só lhe digo uma coisa: Deus sabe o que faz…”.

Fim de conto.

Aos velhos, ao Brasil escravocrata, que se arranjem como queiram…  Como dá! Às Rafaelas Silvas, a nós que sonhamos junto, esmurrando nossas próprias mãos e gritando de pupilas concentradas, que venha o riso quente! É…  Deus sabe mesmo o que faz!

Diz-se que, do judô, há um ensinamento fundamental: aprende-se a cair, e só depois a se levantar; usa-se o peso do oponente, do outro que olha feio (e tenta de fora classificar o movimento daquele que luta), a seu favor. Em Rafaela, o impulso se concentrara todo na própria pequenez que tentaram lhe atribuir. Os olhos foram firmes e sem sorriso. A oponente atrapalhada. A brasileira que caiu e levantou. Algo se movia, no dentro da judoca, no dentro da gente!  Ela toda concentrada no movimento de se fazer existir. Os olhos eram o corpo rijo, ereto, em equilíbrio.

Agora eu sei o que é o judô. Obrigada, Rafaela Silva. Ouro-você, ouro em nós.

Luana Borges é jornalista, professora da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG, mestra em Literatura.

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Adalberto De Queiroz

Hum, sei. Onisciência seletiva. Bem seletiva. Que Nabuco nos perdoe as mesquinharias. Eis-nos diante delas.