Euler de França Belém
Euler de França Belém

Muhammad Ali é o herói indomável do boxe, um precursor qualificado de Conor McGregor

Ninguém lutou boxe tão bem e percebeu que uma batalha às vezes começa ser vitoriosa fora dos ringues. George Foreman perdeu a guerra do Zaire dentro e fora do ringue

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O boxe é arte e o MMA, luta. Mas é provável que os mais jovens conheçam muito mais o irlandês Conor McGregor¹, campeão de MMA e um personagem de James Joyce que saltou para a realidade, do que o lendário boxeador americano Muhammad Ali, que, morto na sexta-feira, aos 74 anos, nos Estados Unidos, permanece e persistirá famoso possivelmente para sempre. É o César, o Sócrates (o grego, não o brasileiro), o Pelé do boxe.

O boxe registra lutadores tão bons quanto Muhammad Ali, que nasceu Cassius Marcellus Clay Jr., no Kentucky (como Abraham Lincoln). Mas nenhum se tornou um marqueteiro tão excepcional de suas próprias qualidades quanto o campeão dos pesos-pesados. A lembrança de Conor McGregor tem a ver isto com isto: o europeu copia milimetricamente o colega boxeador, embora seu talento não chegue à unha do menor dedo do americano.

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Muhammad Ali é aquele tipo de homem único, o que se costuma chamar, na falta de palavras adequadas, “uma força da natureza”. Trata-se do indivíduo que, com sua força de vontade ímpar, move e remove montanhas. Muda o mundo, ainda que apenas na sua área, mas conectando outras mudanças, com seu comportamento entre agressivo e diferenciado. Com suas posições firmes no mundo do boxe — tão corrupto quanto qualquer outra atividade —, com sua negritude exacerbada, mais pessoal do que política e ideológica, pôs o mundo (dos brancos?) aos seus pés. Era o negro que venceu pela que fazia bem feito e que, com o dom da palavra — era um pastor não religioso, ainda que se dissesse “islâmico” —, dominava as plateias, tornando-se, por vezes, uma espécie de presidente informal dos Estados Unidos, um pré-Barack Obama, que é tão palavroso, bonito e elegante quanto o boxeador. Ambos tem um quê de bailarino e de conquistadores carismáticos. Um “ar”, diriam Iúri Rincón Godinho, Carlos Willian e Arnaldo Bastos. “It”, diriam Marcelo Franco e Marco Antônio da Silva Lemos.

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A fama de Muhammad Ali, uma das figuras universais — se tivesse brilhado nos tempos da internet, seria coroado rei dos reis —, começou com as duas vitórias sobre Sonny Liston, que era uma máquina de bater. Há quem acredite que Sonny Liston “vendeu-se”. Provas, objetivas, não há. Mas o boxe, se é arte e luta, é, também e, quiçá, sobretudo, negócio. Sonny Liston, um ex-presidiário, não era tão promissor quanto o falastrão Muhammad Ali, um homem que, se fosse super-herói de gibi e filme, seria qualificado de Mr. Energia ou Sr. Energético.

Nas lutas, dizia-se que Muhammad Ali picava como abelha. De fato, fustigava os rivais, aparentemente batendo de leve — era um peso pesado atlético, nada parrudo —, mas, quando se examinava o rosto de quem estava sendo “picado”, é que se percebia que, na verdade, batia duro. Era, pois, uma abelha, sim, mas gigante.

Porém, se lutava bem, um bailarino no ringue, tão ágil que era difícil de ser encontrado, Muhammad falava melhor ainda. Sua língua era uma metralhadora funcionando a partir de um drone — a sua boca. Era elétrico, nos tempos áureos. Caçado nos ringues, era difícil de ser encontrado, o que aumentava a ira dos adversários. Joe Frazier e Ken Norton, que eram muito bons, caçaram-no de maneira implacável e conseguiram derrotá-lo. Depois, Muhammad Ali venceu os dois — sempre dando espetáculo.

As lutas de Muhammad não eram apenas lutas. Eram espetáculos… artísticos. As pessoas gostavam de assisti-las. Apreciavam vê-lo (ninguém ficava indiferente ao seu charme e carisma). Sabiam, por certo, que no ringue não estava uma pessoa comum, um burocrata do boxe. Era um homem que personifica(va) o boxe. Era o boxe. O boxe como arte, não o boxe puramente como luta, como batalha entre dois homens forte e suarentos.

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Em 1974, no Zaire, aconteceu a célebre luta entre George Foreman, provavelmente dono da maior pegada da história do boxe, e Muhammad Ali. A lógica dizia: Foreman, o gigante, era invencível.

Foreman e Muhammad Ali foram para o Zaire — e, junto e misturado, um escritor talentoso, Norman Mailer, escalado como repórter. Atentíssimo, Mailer registrou tudo, e muitíssimo bem, no livro “A Luta”, produto de suas anotações jornalísticas.

Mailer, mais hábil e perceptivo que a maioria dos repórteres — sabia que a imaginação é um instrumento eficaz contra a sensaboria do jornalismo —, entendeu, de cara, que iriam se processar duas lutas. Uma fora e outra dentro do ringue. Por isso, passou a acompanhar os dois lutadores, mais Muhammad Ali, de perto, quase colado.

O que Mailer descobriu é que Muhammad Ali começou a vencer George Foreman fora do ringue, na guerra de marketing que moveu contra o oponente. Todos os dias, sem cessar, ele dizia que Foreman estava derrotado e, até, era um homem morto.

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Embora um lutador completo, de raras virulência e elegância, Foreman parecia atormentado por aquilo que dizia o grilo falante do boxe. Não conseguia respondê-lo, não por que não quisesse, e sim porque era impossível enfrentar a metralhadora verbal de Muhammad Ali. Era mais eficaz silenciar do que “lutar” numa área em que não se tinha as armas adequadas. Era melhor aguardar a luta, a supostamente verdadeira — a do ringue.

No dia da luta, com um Muhammad Ali eletrizante, o que se viu no ringue foi um Foreman ligeiramente apático. Digo ligeiramente, porque, na verdade, não lutou tão mal, como se costuma pensar. Chegou a bater duro. Mas, com suas fitas e resistência, Muhammad parecia inalcançável. Lutava bem até quando parecia que não estava lutando, e sim “fugindo”. Os potentes golpes de Foreman não pareciam incomodá-lo. Mas, sim, incomodavam, e muito.

Então, no oitavo round, ou assalto, o gigante caiu. Parecia um edifício de oito andares despencando, sem a tradicional nuvem de poeira. Muhammad Ali havia nocauteado Foreman. Naquele momento, o fenômeno-lenda não nascia — consolidava-se. Era um deus destronando outro deus. Foreman nunca mais foi o mesmo.

O que se provou é que um boxeador por vezes começa a ganhar uma luta, uma grande luta, não dentro, mas fora do ringue. Foreman subiu ao ringue para a luta de sua vida — o Zaire havia se tornado um campo de guerra e o mundo não tirava os olhos de lá (Mailer registra isto muito bem) — e descobriu que, antes de começar a batalha, já estava derrotado. Perdeu a guerra da comunicação, da língua e os punhos não o ajudaram a vencer a batalha do ringue. Muhammad Ali era um atleta do boxe, dos punhos e da língua. Vencia os oponentes primeiro fora do ringue e, neste, confirmava a vitória primeva.

A morte física de Muhammad Ali se deu na sexta-feira, mas sua fama não morre. É mesmo uma lenda cravada pela realidade. Não há quem chegue perto dele — nem Joe Louis, nem Mike Tyson nem qualquer outro.

Aqueles que querem ler uma biografia decente, mas lacunar, devem consultar o excelente livro “O Rei do Mundo — Muhammad Ali e a Ascensão de um Herói Americano” (Companhia das Letras), do jornalista David Remnick, editor da revista “New Yorker”. A mesma Companhia das Letras publicou “A Luta — A História da Maior Luta de Boxe do Século XX”, de Norman Mailer. São obras imperdíveis sobre um grande homem — um herói indomável, que, desde alguns anos, sofria com o Mal de Parkinson.

Nota

¹ Conor McGregor venceu José Aldo, um lutador de alta qualidade, primeiro fora e, depois, no octógono. A impressão que se tem é que o brasileiro chegou à luta derrotado. É o nosso George Foreman.

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Cris Tuxê

Belo texto. Parabéns, Euler Belém.