Li uma série de reportagens — poucas originais; parte é mera “recortagem” — sobre a morte da jornalista Glória Maria, que, durante décadas, trabalhou, com o brilho das estrelas, na TV Globo (foi casada com um dos proprietários do Grupo Globo, José Roberto Marinho).

Os textos incensaram a repórter e apresentadora. E não injustamente. Porque era mesmo uma profissional notável.  Alguns textos da mídia e das redes sociais repetem os clichês: “Lutou contra o câncer” e “Foi vencida pelo câncer”. Como será que uma pessoa “luta” contra o câncer? Realmente não sei. Otávio Frias Filho pediu ao editor da “Folha de S. Paulo” que, no seu obituário, não se escrevesse “lutou contra o câncer”.

Por que, dentre tantos repórteres, Glória Maria se destacou, tornando-se uma estrela — aquele tipo de pessoa que, em qualquer lugar, é reconhecida de imediato? A imprensa destacou o fato de que era negra (tão negra quanto minha avó materna, Frutuosa, a Tuosa), uma preta que venceu num mundo controlado pelos brancos.

Mas Glória Maria se destacou, tornando-se um ícone, por ser negra? Talvez tenha se tornado quem se tornou, uma das melhores repórteres da televisão brasileira, devido ao seu imenso talento. O talento de quem era repórter e queria ser, acima de tudo, repórter. Ela enfrentava quaisquer adversidades para fazer suas reportagens. E tudo, para ela, parecia fácil, e, como se sabe, não era. Era uma repórter insistente, dessas que não desistem ante a primeira barreira.

Então, o brilho de Glória Maria advém do fato de que era repórter e queria ser, sempre, repórter. Andou pelo mundo, entrevistando pessoas em vários países, mostrando a diversidade cultural do mundo. Parecia ter o olhar do antropólogo, sem se escandalizar com as diferenças entre os povos. Sua empatia era visível. Seu sorrisão era encantador. E era uma mulher bela e charmosa.

Ao mesmo tempo que descortinava o mundo para os telespectadores, Glória Maria parecia se divertir. Não dava a impressão de que tinha alguma “amizade” com o mau humor.

Glória Maria apresentou o “Fantástico” e o “Globo Repórter”. Não era uma apresentadora ruim. Sabia apresentar. Mas não era o seu forte. Ela estava em casa, em qualquer lugar do planeta, quando reportava, contando histórias de pessoas, entrevistando-as, exibindo lugares bonitos e, por vezes, “estranhos”.

Portanto, todo e qualquer obituário a respeito da jornalista deveria começar assim: “Morre Glória Maria, profissão: repórter”.

Obituários do “New York Times” e do “Guardian

Depois de notar a suposta “pobreza” dos obituários de Glória Maria, o leitor Carlos Henrique pergunta: “Por que os obituários do ‘New York Times’ e do ‘The Guardian’ são, no geral, tão bem elaborados, apesar de escritos em cima da hora?”

O busílis da questão: os obituários dos dois jornais não são escritos às pressas. Pelo contrário, são elaborados com meses ou anos de antecedência, e vão sendo atualizados. Quando uma pessoa morre, os obituários já estão prontos, acrescentando-se tão-somente a causa e a data do falecimento, além de outros detalhes corriqueiros.

Philip Roth

O resultado é que as duas publicações acabam por publicar textos amplos e relevantes, indo muito além da relativa “pobreza” do jornalismo factual: “Morreu Philip Roth, aos 85 anos, no dia 22 de maio de 2018. Escreveu ‘O Complexo de Portnoy’, ‘O Teatro de Sabbath’ e ‘Pastoral Americana’”.

Os obituários bem-feitos incluem a história do indivíduo — no caso, Philip Roth —e um exame criterioso de sua obra.

Os obituários ficam numa espécie de banco de dados. Se a pessoa morre, como a rainha Elizabeth, do Reino Unido, os editores imediatamente postam a reportagem detalhada, despertando a atenção dos leitores, que costumam pensar, aparentemente: “Puxa, que jornal rápido e competente”.

Nem sempre é possível publicar de imediato um texto bem elaborado e longo a respeito de uma estrela, como Philip Roth e Gloria Maria. Por isso os jornais estão certos ao encomendarem, de maneira antecipada, obituários de pessoas famosas. Há, claro, riscos. Um jornal brasileiro publicou uma notícia sobre a morte da rainha e ela estava viva. Ocorre que, como estava doente, com a morte batendo à porta, o obituário estava preparado para ser postado… e acabou sendo postado no momento errado.

Recentemente, ao saber que Pelé estava internado, em estado grave, escrevi quatro textos longos a respeito do rei do futebol. Dois foram publicados com ele vivo e dois depois que havia falecido.

Nos meus textos, sobretudo nos últimos, praticamente não falei sobre a morte de Pelé, porque o assunto havia sido divulgado pelos jornais, revistas, emissoras de televisão de maneira exaustiva e repetitiva. Optei por falar da vida, pois considero que a morte é apenas um “pedacinho” da vida, e não é um fim. Porque a história da pessoa continua, e cada vez mais contada de perspectivas diferentes.

A morte de uma pessoa como Pelé (sua bisavó foi escrava), Philip Roth e Glória Maria não é um “fecho”, e sim, por vezes, uma “abertura”. Suas vidas poderão ser contadas, de modo mais abrangente, depois que forem enterradas ou cremadas.

A vida de Glória Maria não era só “festa”, porque sempre há as contradições, mas, com ela viva, era difícil biografá-la. Agora, haverá mais liberdade — espaço para o registro das ambiguidades e nuances — para compor um retrato menos impreciso e laudatório da grande jornalista.

O melhor biógrafo não é aquele que reúne os defeitos das pessoas pesquisadas para diminui-las, ou as virtudes para exaltá-las, e sim para torná-las mais complexas, nuançadas. Humanas, pois.