O jornalismo só pode existir plenamente onde existe democracia de fato. Não dá para esquecer os ataques praticamente diários que a imprensa sofreu por parte do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e de muitos integrantes de seu primeiro escalão, durante os quatro anos do último governo.

Conglomerados de comunicação como o Grupo Folha e a Rede Globo viram seus profissionais serem alvos da fúria de militantes de exterma direita, que respondiam com obediência cega aos “apitos de cachorro” dados por seus líderes. Ora, se o próprio presidente se achava no direito de insultar diretamente jornalistas

Por isso mesmo, não é de estranhar que muitos jornalistas tenham feito campanha aberta contra a continuidade do bolsonarismo: era a luta pela própria sobrevivência, em alguns casos de forma literal, infelizmente. Por quê? Porque se temia, em um segundo governo Bolsonaro, um avanço do autoritarismo contra a comunicação institucionalizada.

Um outro grupo, mais engajado, fez campanha aberta para o principal adversário: vários nomes e canais progressistas pediram voto para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em seus programas e comemoravam sua vitória.

Isso não significa, porém, “passar pano” para tudo que o governo federal faz. Como ocorreu no caso de Marcelle Decothé, a assessora sem noção da ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, foram duras as críticas à absurda performance erótica que integrou a programação do evento Em Prosa Brasil – 1º Encontro de Mobilização da Promoção da Saúde no Brasil, realizado em Brasília na semana passada.

Sócio-fundador do canal Porta dos Fundos – grupo conhecido por não ter limites nos textos dos esquetes de humor, inclusive em temas como a sexualidade –, o humorista Antonio Tabet foi bem direto na crítica. “Se o governo tem gente que realmente acha uma baita ideia promover uma dança erótica num evento do Ministério da Saúde, não precisa nem de oposição”, detonou no Twitter.

Outro canal de esquerda que preza pela irreverência, o Galãs Feios também não viu graça na dancinha da “música” Batcu, que proporcionou “momento cultural” para os participantes do evento. “Ninguém é moralista aqui, mas em evento oficial isso não cabe. Isso é prato cheio para a extrema direita compartilhar no ‘zap’. É preciso aprender a não produzir prova contra si próprio”, disse o apresentador Helder Maldonado.

O jornalista e cartunista Maurício Ricardo, um dos influenciadores progressistas mais sensatos e equilibrados, foi contundente: “Se o governo não entendeu o conservadorismo crescente da população brasileira, que é alimentado justamente pelo pânico moral, pelo medo de que se torne uma socidade permissiva demais para os padrões cristãos, entregue a chave do palácio, Lula, e vai para casa.”

O Ministério da Saúde respondeu com uma nota em que tachou como “lamentável” o ocorrido e “inapropriada” a performance no evento, cujo objetivo seria “apoiar a implementação e a gestão participativa da política nacional de promoção da saúde a partir do compartilhamento de experiências e de ampliação do diálogo entre gestores e trabalhadores de diferentes Estados, com momentos dedicados à diversidade cultural.

No início da noite do sábado, 7, foi anunciada a demissão do diretor de Prevenção e Promoção da Saúde do Ministério da Saúde, Andrey Roosewelt Chagas Lemos, responsável pela realização do evento. Em tempos de avanço do conservadorismo e de pânico moral contra a esquerda, é preciso fazer um governo decente em todos os sentidos.