Euler de França Belém
Euler de França Belém

Marcos Fayad recria histórias do escritor russo Daniil Kharms pra torná-las mais vívidas e universais

A adaptação feita pelo diretor brasileiro não é mera reprodução daquilo que escreveu o escritor russo e isto é um dos pontos fortes de sua peça ou de suas peças

Uma peça adaptada torna-se uma peça de seu autor e do diretor e, sim, dos atores. Porque, a rigor, embora não sejam trabalhos inteiramente distintos — um é pai-mãe e o outro é filho-filha —, o texto escrito é uma coisa e o texto falado-declamado é outra coisa. Portanto, a peça “Cerimônia Para Personagens Estranhos — Miniaturas Grotescas”, dirigida por Marcos Fayad a partir da adaptação de histórias curtas de Daniil Kharms, é tanto do criador patropi quanto do escritor russo.

A adaptação é fiel ao texto de Daniil Kharms, mas a direção de Marcos Fayad e sua recriação pela fala e pelo gestual por parte dos atores, que entenderam bem o espírito das historietas, acrescentam, e muito. Por certo, se o escritor, que morreu aos 37 anos, de fome durante o cerco nazista Leningrado, em 1942, pudesse ver a peça, ou peças, ficaria contente. Entenderia que o teatro, o bom teatro, é representação, é, diria Erich Auerbach, mimese — não mera reprodução do texto original.

A peça de Marcos Fayad funde, sem que percam a autonomia, histórias curtas de Daniil Kharms. Histórias que parecem simples, mas são profundas. Condensar uma história, de característica absurda, em poucas linhas é uma tarefa hercúlea. Depois, representar a história curta, desprovida do que entendemos por lógica, é igualmente complicado e, às vezes, dificulta a interlocução com a plateia. Marcos Fayad e os atores conseguem tornar as histórias mais inteligíveis, mas sem tentar simplificá-los e banalizá-las.

Daniil Kharms: escritor russo

A música, de vários estilos, conecta as histórias e torna-as mais vívidas. O escritor Miguel Jorge diz que, apesar da dificuldade de adaptar as histórias de Daniil Kharms, nota-se a mão firme do diretor, sobretudo quando, ao recriar uma obra de arte, estabelece um diálogo, e não uma dependência total da matriz. Os atores vestidos como clowns, o que permite uma atmosfera lúdica e onírica, captam à perfeição o universo de Daniil Kharms. Isto mostra a intervenção de um diretor atento para tornar um autor difícil, reflexivo, mais acessível, sem simplificá-lo. Teatro é movimento, fala e imagem e Marcos Fayad usa a arte da representação para reviver a arte do contista, poeta e dramaturgo. Para torná-lo, mais do que atual, contemporâneo e, diria Drummond de Andrade, eterno e universal. Daniil Kharms nasceu há 112 anos e morreu há 75 anos, mas a publicação de sua obra, cada vez mais lida e admirada, e a encenação de suas histórias indicam que o autor morreu apenas fisicamente. A longo prazo, pode-se dizer que “venceu” Ióssif Stálin…

Marcos Fayad: diretor que já adaptou Cassiano Ricardo, Guimarães Rosa e, agora, Daniil Kharms | Foto: Facebook

Sobre Daniil Kharms, dada sua trajetória pessoal, de vítima do stalinismo, tende-se a ver sua obra como resposta artística ao totalitarismo soviético. E, de fato, é assim — sem tirar nem pôr. Mas, se fosse uma mera réplica, sua arte ficaria datada. Suas histórias sobrevivem porque são arte esteticamente elaborada e, deste modo, dialogam com a história, com o presente, mas “está” de olho na universalidade, na existência comum de todos os homens. Curiosamente, nas críticas que li sobre o autor, não vi referência ao “Crátilo” de Platão, no sentido da recuperação do sentido das palavras e das coisas. Daniil Kharms queria “limpar” a realidade de sua carga de sentidos e retórica para que os indivíduos pudessem enxergar, diria Gógol, um palmo além do nariz. O autor ensina a ver, a rever e a transver o real, que é sempre mais diverso do que imagina a vã filosofia do senso comum dos poderosos e, enfim, de todos nós.

Teatro do Sesc Centro

A peça — ou peças numa única montagem — ainda pode ser vista na quinta-feira, 6, e na sexta-feira, 7, às 20 horas no Teatro do Sesc, no Centro de Goiânia. Os atores Saulo Dallago, Guerhard Sullivan, Leopoldo Rodriguez e Edimar Pereira merecem palmas, pois ficaram mesmo parecidos com personagens absurdos de Daniil Kharms. E certamente vão melhorar a cada adaptação. Porque teatro é como jazz: há técnica, mas as interpretações variam de uma encenação para a outra. O ator, se não improvisa na fala, às vezes improvisa na ênfase e no gestual…

Livros de Daniil Kharms no Brasil

1 — “Os Sonhos Teus Vão Acabar Contigo” (Kalinka, 291 páginas, tradução de Aurora Fornoni Bernardini, Daniela Mountian e Moissei Mountian). Trata-se da melhor edição dos contos, causos, poesia, peça e novela de Daniil Kharms no Brasil. Além das traduções de qualidade, há uma pequena biografia e um estudo gabaritado de Aurora Fornoni Bernardini. As versões são diretas do russo. O livro pode ser obtido nas livrarias Cultura (www.livrariacultura.com.br) e Travessa (www.livrariatravessa.com.br). Custa: R$ 44,90.

2 — “Esqueci Como se Chama” (Cosac Naify, 47 páginas, tradução de Luís Felipe Labaki, ilustrações de Gonçalo Viana). São “histórias e poemas”. Neste livro para crianças, que deixa qualquer adulto feliz, há a história dos garotos que “vieram” para o Brasil (Marcos Fayad sintetiza-a muito bem, sem perdas). É uma hilária e muito bem formulada. A tradução é direta do russo. Pode ser encontrado na Livraria Amazon (www.amazon.com.br). Custa: R$ 22,10. A edição é belíssima.

3 — “Nova Antologia do Conto Russo — 1792-1998” (Editora 34, 648 páginas), organizada por Bruno Barreto Gomide. Há uma história de Daniil Kharms traduzida diretamente do russo. Custa R$ 85,05 na Livraria Travessa, R$ 95 na Livraria Cultura e R$ 70,81 na Livraria Amazon.

4 — “Poesia Soviética” (Algol, 654 páginas), com traduções do russo de Lauro Machado Coelho, contém poemas e contos-causos de Daniil Kharms. Só pode ser encontrado na Livraria Travessa, a 68 reais, e no Estante Virtual, começando com preço de R$ 30,89.

Para saber mais sobre Daniil Kharms

O russo Daniil Kharms é precursor da literatura do absurdo. Ionesco, Beckett e Camus são seus filhos

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