Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro sensacional mostra que seis meses de 1945 mudaram o poder no mundo

Um livro brilhante sobre como  uma guerra, a Segunda, criou a  Guerra Fria, espécie de batalha  mais política do que militar

Um livro brilhante sobre como
uma guerra, a Segunda, criou a
Guerra Fria, espécie de batalha
mais política do que militar

A história às vezes é modorrenta, o tempo parece que parou. Porém, de repente, parece que tudo mudou. Fica-se com a impressão de que as forças da mudança — quiçá incontroláveis — “acordam”, de uma hora para outra, e (quase) tudo “muda”. De 1939 a 1945, quando começou e terminou a Segunda Guerra Mundial, o mundo mudou rapidamente. Atores principais, como Inglaterra e França, perderam espaço para atores secundários, como Estados Unidos e União Soviética, os dois novos impérios. Um livro sensacional, “Seis Meses em 1945: Roosevelt, Stálin, Churchill e Truman — Da Segunda Guerra à Guerra Fria” (Companhia das Letras, 493 páginas, tradução de Jairo Arco e Flexa), do jornalista Michael Dobbs, sugere que “quase todos os divisores de águas do princípio da Guerra Fria têm sua origem nos seis meses entre fevereiro e agosto de 1945, período que abrange a morte de FDR [Franklin Delano Roosevelt], o fim da Segun­da Guerra Mundial, a desintegração da aliança anti-Hitler e a divisão da Europa em blocos políticos rivais”.

Muito do que Michael Dobbs conta não tem quase nada de novo. Mas duvido que outros historiadores contem tão bem uma história. O livro é desses que, quando o leitor o pega, não quer mais largar. É muito bem escrito, com os fatos históricos contados a partir da forte presença dos homens, com detalhes — sobre a comida, gostos e idiossincrasias dos líderes, como Stálin, Roosevelt, Winston Churchill e Harry Truman, além de auxiliares, como Averell Harriman, Harry Hopkins, James Byrnes, George Kennan (aqui e ali, erroneamente menosprezado pelo autor, que, ao final, faz justiça e reconhece a força de suas ideias), Molotov — que tornam a obra mais agradável e fácil de ler.

Na pena de Michael Dobbs, os encontros de Yalta (entre Roosevelt, Churchill e Stálin) e Potsdam (entre Truman, Churchill e Stálin) são relatados de maneira impagável. O leitor certamente perceberá o equilíbrio do autor ao tratar inclusive do ditador Stálin. Este, por sinal, ficou com medo da bomba atômica, mas, ao ser informado diretamente por Truman, fingiu não ter dado a mínima importância. Não moveu um músculo. Truman ficou impressionado. Tudo indica que Stálin “enganava”, se enganava, mais Roosevelt do que Truman. O mais provável é que Roosevelt, uma raposa política, tenha percebido cedo que o mundo, a partir de 1945, iria girar em torno de dois sóis, Estados Unidos e União Soviética, que um não poderia ignorar o outro.

Recomenda-se como leitura complementar os livros “A Cortina de Ferro — O Fim da Europa de Leste” (Civilização, 697 páginas, tradução de Miguel Freitas da Costa), da historiadora Anne Applebaum, e “História da Guerra Fria” (Nova Fronteira, 308 páginas, tradução de Gleuber Vieira), do historiador John Lewis Gaddis.

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