Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro registra a experiência de Samuel Beckett como roteirista e “diretor” de cinema nos Estados Unidos

Samuel Beckett e Alan Schneider: o primeiro roteirizou e orientou e o segundo dirigiu "Filme", nos Estados Unidos, em meados da década de 60

Samuel Beckett e Alan Schneider: o primeiro roteirizou e orientou e o segundo dirigiu “Filme”, nos Estados Unidos, em meados da década de 60

Na bela tradução da peça “Esperando Godot” (Cosac Naify, 238 páginas), de Samuel Beckett (1906-1989), o professor Fábio de Souza Andrade, nas “Sugestões de leitura”, relata: “Para aqueles que se interessam por registros fílmicos, produções para o cinema de 19 das peças beckettianas foram levadas a cabo pelo projeto Beckett in Film, iniciativa da Rádio e Televisão Irlandesa e do Channel 4, reunindo diretores dos mais diversos, como Anthony Minguela, Atom Egoyam, Walter Asmus, David Mamet e Michael Lindsay-Hogg (que dirige ‘Godot’), e atores como Jeremy Irons, John Gielgud e até mesmo Harold Pinter, dramaturgo e Prêmio Nobel como Beckett. O resultado está disponível, em DVDs, no website www.beckettonfilm.com. Em VHS, pode-se encontrar a histórica montagem de ‘Esperando Godot’, de 1961, dirigida por Alain Sch­neider, com Zero Mostel e Burgess Meredith, editada pela Foxrock Videos, empresa de Barney Rosset, o editor americano de Beckett”. A informação está na última página do livro, a 238, e certamente aguça a curiosidade do leitor de Beckett e dos cinéfilos. (O excelente tradutor e crítico Fábio de Souza Andrade comete um deslize mínimo: é Alan, e não Alain.)

Em sete páginas do livro “A Hora Terna do Crepúsculo — Paris nos Anos 1950, Nova York nos Anos 1960: Memórias da Era de Ouro da Publicação de Livros” (Biblioteca Azul, 574 páginas, tradução de Cid Knipel), o editor norte-americano Richard Seaver (1926-2009) relata parte das aventuras de Beckett com o cinema. A história está contada no capítulo 41, “Filme”. Em 1963, para aproveitar o sucesso dos dramaturgos da Grove Press, a célebre editora dirigida por Barney Rosset e Dick Seaver, a produtora de TV Four Star sugeriu que escrevessem roteiros televisivos e ofereceu 80 mil dólares para início de conversa. De cara, o francês Jean Genet (que quis levar Seaver para a cama, segundo “Genet — Uma Biografia”, de Edmund White) rejeitou a proposta. “Mas Beckett, Pinter, Ionesco, Marguerite Duras e Robbe-Grillet — que haviam todos recentemente se voltado à escrita de roteiros para filmes — disseram sim. O primeiro a entregar foi o próprio Beckett, que enviou um trabalho curto, complexo, mas brilhante que, como era de prever, ele chamou de ‘Filme’”, assinala Seaver.

Beckett aceitou o convite para supervisionar a filmagem nos Estados Unidos, em 1964. Alan Schneider (1917-1984), que trabalhava com a obra de Beckett, foi convidado para dirigir “Filme”. O filme teria apenas um ator e, como Beckett o admirava, decidiram convidar Charlie Chaplin. O agente de Chaplin disse que ele “não lia roteiros”. Zero Mostel estava noutro projeto. Jack MacGowran, artista preferido de Beckett, estava participando de um filme. Segundo Seaven, embora “já longe de sua melhor forma”, escolheram Buster Keaton. Beckett admirava seus filmes mudos.

imprensa13“Não se sabia ao certo se ele [Buster Keaton] tinha lido o roteiro ou não; se o fez, é duvidoso que o tenha entendido: era um roteiro extremamente simples envolvendo dois aspectos do mesmo protagonista: um, o que percebia, o outro, o percebido, o primeiro insistentemente procurando, o segundo tentando desesperadamente se esconder”, anota Seaver, como se o universo de Beckett fosse o mais simples do mundo.

Beckett chegou aos Estados Unidos animado e chegou a jogar tênis e a assistir uma partida de beisebol. Enquanto o dramaturgo se divertia ao lado de Seaver e da violinista Jeannette Seaver, Barney articulava a montagem da equipe de filmagem. Depois da escolha de Sch­neider, contratou o cinegrafista Boris Kaufman, que havia trabalhado com o diretor francês Jean Vigo, e o operador de câmara Joe Coffey.

Schneider e Beckett começaram a escolher um local adequado, em Nova York, para as filmagens. “Na baixa Manhattan, os olhos de Beckett se iluminaram quando surgiu em nosso campo visual uma antiga parede dilapidada bem junto à ponte do Brooklin. Ele agitou positivamente a cabeça e indicou que era ali que a sequência de abertura deveria ser filmada. (…) A parede, parte de um edifício que seria demolido, era puro Beckett: decadente, irregular, o cimento descascado e se esboroando”, escreve Seaver.

Beckett estava ansioso para conhecer Keaton, e até admitiu que estava nervoso. O ator recebeu o dramaturgo e Schneider num hotel. Os dois “encontraram Keaton assistindo a uma partida de beisebol na televisão e tomando cerveja, apenas acenando com a cabeça a seus dois convidados distintos, cujos esforços para conversar produziam pouca ou nenhuma resposta”. Estava vendo um jogo do Mets.

No começo das filmagens, Schneider, traquejado no teatro, estava “um pouco nervoso”, pois “nunca dirigira um filme antes”. A primeira cena “retratava Keaton, apesar do calor, vestido com um sobretudo e chapéu esfarrapado de onde pendia um lenço, para melhor esconder-se do olho percebedor, rodeando a parede para escapar do perseguidor, finalmente fugindo para a entrada de um edifício de apartamento. Tomada após tomada, com o comportamento imperturbável de Keaton impressionando Beckett cada vez mais à medida que o dia passa com lentidão”.

Entretanto, ao se examinar as primeiras filmagens, Schneider percebeu que estavam imprestáveis. Os produtores não aceitaram a refilmagem, alegando que os recursos financeiros eram escassos. “Foi Beckett que, saindo do silêncio, salvou a situação. Ele disse com tranquilidade que eliminaríamos a cena, que se destinava a definir os dois elementos do protagonista, e manteríamos apenas a imagem de Keaton ao longo da parede, sem os figurantes”, expõe Seaver.

Depois, nas gravações de estúdio, quase não houve mais problemas. “Keaton talvez estivesse até começando a entender sobre o que era o filme.” Curiosamente, Beckett não compartilhava a ironia de Seaver em relação a Keaton. “Beckett (…) assistia a cada tomada com total isenção, silenciosamente encantado com a compreensão intuitiva de Keaton do que precisava ser feito, melhorando a cada tomada.”

Beckett, que era atentíssimo a tudo que envolvia sua obra, trabalhou, depois, ao lado do editor do filme, Sidney Meyers. “O maior prazer da última semana de Beckett [nos Estados Unidos] foi observar Sidney e Alan editarem o filme, dando a ele a forma que o escritor desejava”, detalha Seaver, amicíssimo do autor de “Esperando Godot” e “Malone Morre”. “Filme”, pronto em 1965, foi lançado no Festival de Veneza. Beckett não foi o diretor, é claro, mas, além de roteirista, atuou como uma espécie de co-diretor.

(Seaver conta uma história curiosa. Um dia, depois das filmagens, ele e Beckett foram dormir. “Com a manhã não muito longe mas a casa ainda às escuras, vi minha porta se abrir e uma visão espectral emoldurada na entrada, hesitante e manca, procurando algo ou alguém. (…) A visão deu um passo hesitante, depois dois, para dentro do quarto, e percebi que era Beckett, totalmente nu. ‘Sam’, disse eu, indeciso. ‘Dick’, disse ele, ‘é você?’”. Beckett disse: “Eu achei que aqui fosse o banheiro”.)

Biografias de Beckett

As obras de Beckett têm chegado ao Brasil em traduções bem cuidadas, com apresentações e notas de qualidade. Os professores e tradutores Fábio de Souza Andrade e Ana Helena Souza, para citar apenas dois estudiosos, são responsáveis por trabalhos da mais alta categoria. Quanto às biografias, o país é de uma pobreza surpreendente. “Dam­ned to Fame — The Life of Samuel Beckett”, de James Knowlson, embora considerada a mais qualificada biografia do autor de “Esperando Godot”, não despertou o interesse de nenhuma editora. “Samuel Beckett”, de Deirdre Bair, e “Samuel Beckett — The Last Modernist”, de Antony Cronin, permanecem inéditas. “Beckett” (José Olympio, 182 páginas), de Ludovic Janvier, é fraca. Fica-se com a impressão de que Janvier tenta ser o Beckett das biografias, o que resulta num livro pouco luminoso.

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