Livro de Xico Sá “reabre” a história de PC Farias, o tesoureiro de Fernando Collor em 1989
15 agosto 2026 às 21h00

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Há um livro subestimado, “Tudo o Que Vi e Vivi” (Leya, 222 páginas), de Rosane Malta, que merece certa atenção. Porque, como diz o título, a ex-mulher do ex-presidente Fernando Collor “viu” e “viveu”. Portanto, sabe muito sobre o ex-marido e o “primeiro-ministro” Paulo César Farias, o PC.
“Segundo as estimativas mais exageradas”, PC Farias “teria enviado para o exterior 1 bilhão de dólares. Avaliações mais ponderadas falam em 400 milhões de dólares”, conta Rosane Malta (confira resenha do livro no link: https://tinyurl.com/3zahwm8s).

Rosane Collor afirma que, “em algum momento”, ouviu “falar” na quantia de “60 milhões de dólares como sendo o que restou da campanha” presidenciável de 1989 — há 37 anos.
O “suíço” misterioso
Uma das revelações do livro de Rosane Collor é o nome do suíço Gerard, diretor de um banco na Suíça. Possivelmente, um expert em lavagem de dinheiro.
O livro “Morcegos Negros — PC Farias, Collor, Máfias e a História Que o Brasil Não Conheceu” (Record, 420 páginas), de Lucas Figueiredo, menciona o nome de Angelo Zanetti.
Pelas características físicas — baixinho e magro —, Rosane Malta avalia que Gerard e Angelo Zanetti podem ser a mesma pessoa. O fato é que cuidava das finanças de PC Farias e padrinho.

O que aconteceu com a fortuna depositada por PC Farias no exterior? Rosane Malta sugere que foi repatriada. Por e para quem? Por um irmão de PC Farias, que teria “rachado” o dinheiro com o chefão? Não se sabe. A ex diz que Fernando Collor apareceu com mais dinheiro.
O tesoureiro PC Farias contou ao repórter Xico Sá que, para fugir do país, teria subornado o delegado Edson Antônio de Oliveira, então chefe da Interpol no Brasil. Numa entrevista, o jornalista afirma que “parte da Polícia Federal e da Interpol estava comprada pelo esquema PC”
Para entender um pouco mais dos esquema de PC Farias e aliados, é preciso ler “O Tesoureiro — O Esquema de Corrupção, a Fuga Espetacular e a Morte de PC Farias” (Todavia, 144 páginas), do jornalista Xico Sá, ex-repórter da “Folha de S. Paulo”.
Por que Xico Sá sabe tanto de PC Farias? Porque era sua principal fonte no círculo de Fernando Collor, o político que foi eleito presidente da República em 1989, derrotando Lula da Silva, do PT, graças, em larga medida, à estrutura financeira montada pelo tesoureiro.
PC Farias pôs Fernando Collor no Palácio do Planalto e, com suas trapalhadas, ajudou a retirá-lo de lá.

Caçado pela Polícia Federal e pela Interpol, PC Farias, provando que não era néscio e tinha conexões no exterior, escapou do país com extrema facilidade.
Uma quadrilha chilena, regiamente paga, sacou PC Farias do Brasil. O tesoureiro raspou o bigodão, colocou uma peruca e, levado num bimotor, chegou a Buenos Aires — passando antes por Bom Jesus da Lapa, na Bahia, Dourados, no Mato Grosso do Sul, e Assunção, capital do Paraguai.
Assim como o nazista Adolf Eichmann, PC Farias escondeu-se na Argentina. Esperando as coisas esfriarem. De lá escapou para a Europa.
Xico Sá o descobriu em Londres e publicou o furo na “Folha de S. Paulo”. Vaidoso como sempre, o tesoureiro fez questão de informar que havia se tornado vizinho de Diana, a ex-mulher do rei Charles.
PC Farias relatou a Xico Sá que, para fugir do país, teria subornado o delegado Edson Antônio de Oliveira, então chefe da Interpol no Brasil. Numa entrevista à repórter Bia Abramo, do ICL, o jornalista afirma que “parte da Polícia Federal e da Interpol estava comprada pelo esquema PC”.

De Londres, PC Farias fugiu para a Tailândia, país asiático no qual foi preso.
Xico Sá conta que PC Farias era leitor fissurado da obra de Nelson Rodrigues e apreciava falar em latim (ninguém nunca procurou saber se sabia latim mesmo ou se apenas havia decorrado frases aleatórias ou aforismos).
Quem matou PC Farias?
Quem matou PC Farias? Por qual motivo foi assassinado? Não queria devolver dinheiro amealhado com esquemas criminosos ou era um arquivo vivo que precisava ser queimado? Não se sabe. Até hoje.
PC Farias apareceu morto, ao lado da namorada Suzana Marcolino, em junho de 1996, em Alagoas.

A cena do crime foi “remontada”, de maneira canhestra, para parecer que havia acontecido um homicídio e um suicídio.
Foi um trabalho de profissional? A cena do crime ficou quase perfeita? A perícia sugere que não. Mas a autoria dos assassinatos até hoje não foi descoberta. O que sugere tanto profissionalismo quanto envolvimento, provavelmente, de pessoas poderosas.
Suzana Marcolino teria matado PC Farias e se suicidado. Ou o inverso? A Justiça considerou que houve, na verdade, dois assassinatos. Mas o culpado — ou culpados — pelo crime não foi apontado. O mistério permanece.
O que Xico Sá faz é “reabrir” a história — dando pistas para outros jornalistas investigativos procederem à sua própria caçada.
Não há crime que, tido como insolúvel, um dia não possa ser esclarecido. A morte de poderosos chefões — ou poderoso chefão — poderá, quem sabe, contribuir para novas fontes criarem coragem de falar. Um dia alguém — hoje intimidado, com receio de também morrer — abrirá o jogo.


