Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro de Walnice Nogueira Galvão repõe a Guerra de Canudos na ordem do dia

Com suas pesquisas rigorosas, a mestre mostra como a imprensa cobriu a batalha do sertão baiano

Atenção, pare as máquinas. Pensando bem, não pare, não. Que elas produzam mais livros de qualidade quanto “No Calor da Hora — A Guerra de Canudos nos Jornais” (Cepe, 552 páginas), de Walnice Nogueira Galvão. Trata-se de um portento editorial. Ah, sim, não é um lançamento, e sim um relançamento. Mas, de tão bom e oportuno, merece o aplauso dos leitores.

Walnice Nogueira Galvão é a prova de que a crítica atenta contribui para ampliar a qualidade dos livros. A leitura da prosa de Euclides da Cunha — cuja literatura (sim, trata-se de um escritor) reinventa o Brasil — e de Guimarães Rosa (outro intérprete das coisas do país) feita pela crítica é de alta qualidade e nos guia, com mão segura, para compreendê-los de maneira mais ampla e perspicaz.

Ninguém lerá Euclides da Cunha e Guimarães Rosa da mesma maneira, ou de um modo único, depois da leitura dos vários livros de Walnice Nogueira Galvão. Se não fosse preconceito, de matiz machista, diria que Walnice Nogueira Galvão é a Antonio Candido de saia. Talvez seja mais apropriado sugerir que Antonio Candido é o Walnice Nogueira Galvão de calça. Mas aí seria machismo invertido.

Walnice Nogueira Galvão: intelectual do porte de Antonio Candido | Foto: Reprodução

Aos 82 anos, forte e sacudida, Walnice Nogueira Galvão não para. Escreve artigos, publica livros e concede entrevistas do balacobaco. O país, civilizando-se, deveria parar… Pra quê? Para ler seus livros (escreve muito bem também sobre música e até cinema, a sétima das subartes) e escutá-la.

O que o jornalismo fez para recuperar a história de Canudos, dando-lhe nuance, apesar dos excessos verbais e, às vezes, escassez de objetividade, é impagável. “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, começou nas páginas do jornal “O Estadão de S. Paulo”, e terminou em livro, guardando, apesar da linguagem técnica, a vivacidade dos textos escritos para a imprensa. A batalha de Antônio Conselheiro contra os poderes do Estado ganha, na pena ágil e precisa de Euclides da Cunha, um ar, por assim dizer, da “Ilíada”, de Homero. O que se está dizendo é que grandes livros transformam determinados fatos em grandes histórias, em histórias clássicas e universais.

O Brasil fica maior com “Os Sertões”, uma interpretação do Brasil do mesmo porte de “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre. Agiganta-se também com a obra crítica de Walnice Nogueira Galvão (responsável por uma edição crítica do livro de Euclides da Cunha, que talvez deva ser visto como um dos primeiros antropólogo patropis), uma intelectual rara, uma pesquisadora rigorosa. E, para agradar ainda mais os sentidos, trata-se de uma crítica que escreve tão bem quanto os melhores escritores.

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