Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro conta a história de mulheres judias que lutaram contra o nazismo de Hitler na Polônia

A historiadora canadense Judy Batalion relata que resistentes, como Niuta Teitelbaum, Renia Kukielka e Vladka Meed, atacaram e até mataram agentes da Gestapo

“Hijas de la Resistencia — La Historia Desconocida de las Mujeres Que Lucharon Contra los Nazis” (Seix Barral, 696 páginas, tradução de Aurora Echevarría), de Judy Batalion, merece tradução no Brasil. A historiadora canadense (o site do jornal espanhol “Abc” a apresenta como “australiana”, mas o site da Seix Barral informa que nasceu em Montreal, uma cidade do Canadá) estudou em Harvard e escreve no “New York Times”, “Washington Post”, “Salon” e “Jerusalém Post”.

Trata-se de mito que os judeus não reagiram às perseguições e massacres promovidos pelos nazistas da Alemanha de Adolf Hitler. Mesmo nos campos de concentração e extermínio, como Auschwitz e Sóbibor, judeus enfrentaram militares fortemente armados da SS. Numa luta desigual, muitos morreram. Nos guetos da Polônia, judeus reagiram e chegaram a matar vários alemães. Mas há uma história a recuperar, porque pouco contada: a das corajosas e eficientes mulheres judias da Resistência polonesa. “Filhas da Resistência” procura tornar conhecida a história daquelas que, correndo riscos, lutaram bravamente contra os genocidas alemães.

Renia Kukielka: judia polonesa que combateu o nazismo | Foto: Reprodução

O que se comentará a seguir deriva da resenha “Trenzas y sed de venganza: la asesina ‘más buscada’ de Polonia que estremeció a Adolf Hitler”, de Manuel P. Villatoro, publicada no “Abc”, na edição de 26 de janeiro de 2022, e do breve comentário da editora. Li também um capítulo do livro, no site da Seix Barral, que versa sobre a fascinante e obstinada Renia Kukielka e sua família.

Pesquisei em vários livros sobre o Holocausto — de Laurence Rees, Martin Gilbert, Nikolaus Washsmann e Saul Friedländer —, em busca de informações sobre as resistentes Niuta Teitelbaum, Renia Kukielka e Vladka Meed, e não há nenhuma linha sobre elas. Exceto em “O Holocausto — História dos Judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial” (Hucitec, 1022 páginas, tradução de Samuel Feldberg e Nancy Rozenchan), de Martin Gilbert. O historiador britânico menciona Vladka Meed, com o nome de Feigele Peltel (nome dado pelos pais), em várias páginas.

Niuta Teitelbaum: a judia que matou quatro assassinos nazistas | Foto: Reprodução

Manuel Villatoro começa sua resenha com a história de Niuta Teitelbaum, uma das integrantes mais ativas da Resistência anti-nazista. A jovem bonita e com ar inocente apareceu na sede da Gestapo, em Varsóvia, e pediu para falar com um alto oficial nazista. “É um assunto pessoal”, disse, com voz trêmula. O soldado de plantão, não percebendo nenhum perigo, acedeu. No escritório, ela sacou uma pistola com silenciador e atirou na cabeça do militar. Em seguida, saiu, “sem levantar suspeitas”. Segundo Judy Batalion, a garota de pouco mais de 20 anos se tornou “a assassina mais caçada pelo Reich”.

Niuta Teitelbaum matou quatro assassinos nazistas.

Judy Batalion diz que, apesar da importância das resistentes, suas histórias, embora documentadas, não mereceram destaque até agora. Seu objetivo é retirá-las das sombras e iluminar suas vidas, recuperando-as para a história.

Vladja Meed: uma guerreira contra o nazismo | Foto: Reprodução

De uma coragem inaudita, as garotas judias criaram células de resistência para lutar contra os nazistas baseados em Varsóvia, na Polônia. “Com astúcia e nervos de aço, as jovens do gueto subornaram guardas da Gestapo, esconderam revólveres em pães [grandes] e ajudaram a construir sistemas de bunkers subterrâneos. Atuaram como mensageiras, combatentes e agentes de Inteligência. Subornaram soldados alemães com vinho, uísque e comida caseira, usaram seu aspecto ‘ariano’ para seduzi-los, e atiraram e os mataram”, relata o site da editora.

A pesquisa e a construção de uma história que existia, mas não estava devidamente contada, duraram uma década. Judy Batalion cavoucou tudo que era possível e escreveu uma história que tem sido apontada pela crítica como exemplar, no sentido de recuperar a história das mulheres resistentes, de maneira documentada, com alta precisão.

Judy Batalion: historiadora canadense | Foto: Reprodução

O centro da história de Judy Batalion é a judia Renia Kukielka, tanto que o primeiro capítulo do livro é todo sobre sua família, que era sionista e planejava morar na Palestina, em busca de uma pátria verdadeira, porque, embora apreciasse a Polônia, sentia-se, por vezes, como estrangeira em seu próprio país. Tratava-se de uma família de classe média, que, culta, apreciava música e literatura. Desde pequena, Kukielka era esperta e atenta, e acompanhava os passos da sionista Sarah, sua irmã mais velha.

De Kukielka, afirma Judy Batalion, “deriva” as demais histórias. “Nasceu em Cracóvia e era boa estudante [a melhor aluna da sala], porém a ascensão do nazismo travou” seus estudos e sua vida. “Foi presa num gueto, do qual escapou em 1943, ao entender que ia ser assassinada.”

Aos 18 anos, “como parecia ariana” e se apresentando como “cristã”, Kukielka se tornou “mensageira” da resistência polonesa. “Contato entre dois guetos, ajudou a organizar levantes. Se encarregou de comprar armas e ajudou presos a escaparem, arriscando sua própria vida”, relata Judy Batalion.

A história da mensageira Vladka Meed (mencionada por Martin Gilbert, em várias páginas candentes; ela deixou relatos sobre a vida e as lutas dos judeus nos guetos) também é contada no livro. A mensageira “trabalhou na zona ariana de Varsóvia como integrante de um movimento bundista [no livro menciona-se o Bund, “um grupo socialista da classe operária que promovia a cultura judaica” e postulava que a Polônia era a “casa” dos judeus]. Ajudou a armar um gueto para que se levantassem contra o invasor de mil formas. Introduziu dinamite num buraco que fez com uma colher, roubou um mapa de Treblinka, revelou aos jornalistas a existência dos campos de concentração”.

Vladka Meed teria ajudado cerca de 10 mil judeus.

Edição portuguesa do livro de Judy Batalion | Foto: Divulgação

A imprensa avaliou positivamente o livro de Judy Batalion. “Uma investigação excepcional, fascinante”, disse o “Wall Street Journal”. “Vibra de orgulho e ira”, anotou a “New York Times Book Review”. “Comovente, inquietante e magnificamente escrito”, sublinhou “The Economist”.

Eis uma dica para as editoras brasileiras que se interessam tanto por história quanto pelas lutas das mulheres.

O site da editora Seix Barral contém o primeiro capítulo do livro de Judy Batalion, com pouco mais de 29 mil caracteres. Conta-se a história da família judia de Renia Kukielka na Polônia, de suas lutas para sobreviver, inclusive aos preconceitos, mas termina com o início da Segunda Guerra Mundial, em 1º de setembro de 1939. A Polin (Polônia em hebraico) — que significa “aqui nos quedamos” (ou “aqui ficamos” ou “aqui nos fixamos”) — deixava de ser um território seguro e tolerante para os judeus, como Moshe e Leah Kukielka, pais, e Zvi, Sarah, Aaron, Esther e Yaacov, irmãos de Renia.

Há uma edição publicada em Portugal com o título de “As Resistentes: Mulheres Judias Que Combateram nos Guetos de Hitler — A História Não Contada” (Planeta, 584 páginas, tradução de Mário Dias Correia). No site da editora, é possível ler 36 páginas, que contêm a “Introdução — Machados de guerra” e o “Prólogo: Um salto no tempo — defesa ou salvamento?” Relata-se a história da brava resistente Frumka Plotnicka, que, entre escapar (para a Palestina) e lutar (na Polônia), optou pela batalha contra os nazistas — o que encorajou os demais combatentes, homens e mulheres. Era uma líder notável.

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