Euler de França Belém
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Joffre Rezende, o médico que escrevia e lia almas

Iúri Rincón Godinho

Joffre Marcondes de Rezende morreu hoje e será enterrado amanhã (27 de janeiro), no Jardim das Palmeiras. Era simplesmente uma das cinco pessoas vivas mais importantes na medicina goiana e um dos últimos pioneiros de Goiânia — chegou à capital em 1954.

Fundador da “Revista Goiana de Medicina”, ex-presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia e um médico que escrevia fácil e corretíssimo, melhor que muito jornalista — deixou vários livros e artigos. Extremamente culto, sempre me apoiou. Quando em 2003 lancei a “História de Medicina em Goiás”, pacientemente me orientou. Quando fui curador do Museu da Medicina, mandou um cheque para ajudar na obra sem avisar e sem pedir nada. Quando lancei a revista Medicina em Goiás, revisava e aceitou ser diretor da publicação.

Explorei muito o Joffre. Não apenas profissionalmente. Uma vez fui atacado por uma dor de estômago que ninguém descobria. Endoscopia, colonoscopia, antiácido, comprimido verde, comprimido vermelho. Nada. Depois de passar por uma legião de gastro acabei no consultório do Joffre na Clínica do Aparelho Digestivo, ao lado Castrois Hotel. Mostrei todos os exames. Os remédios. Sem se alterar ele me passou um tranquilizante. Tomei uma semana. Sarei.

Joffre lia a alma das pessoas, assim como faz seu contemporâneo Luiz Rassi. Dizia-me (ele não aceitava que eu começasse as frases com pronome possessivo) que de cada 10 doentes, nove não tem nada. Elogiava o que chamava de minha “capacidade de trabalho”. Sempre sério, sorria poucas vezes. Recebeu em vida todas as láureas profissionais e acadêmicas. Até o último momento manteve seu olhar vívido e interessado em tudo ao seu redor. Um olhar de cientista, um olhar severo. Um olhar, acima de tudo, humano.

Iúri Rincón Godinho é publisher da Contato Comunicação.

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