Euler de França Belém
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Jaques Wagner condena machismo da IstoÉ mas ignora machismo de Lula da Silva

Lula da Silva e Jaques Wagner: políticos do PT inventaram o “machismo do bem” e o “machismo do mal” | Fotos: Lula Marques / Agência PT

Lula da Silva e Jaques Wagner: políticos do PT inventaram o “machismo do bem” e o “machismo do mal” | Fotos: Lula Marques / Agência PT

Nos Estados Unidos, na Inglaterra e na França, a imprensa vasculha a fundo a vida privada de políticos, empresários e artistas (nem jornalistas, que se protegem, escapam). A linguagem pode ser até respeitosa, mas os fatos são mostrados sem contemplação. Na primeira campanha de Barack Obama, que disputava a possibilidade de ser candidato à Presidência dos Estados Unidos com Hillary Clinton, pelo Partido Democrata, a pancadaria, inclusive em termos de intimidade, era intensa. A equipe de Obama vazava para a imprensa novas histórias sexuais do ex-presidente Bill Clinton. Monica Lewinsky era apenas uma de suas muitas conquistas.

Algumas das histórias podem ser conferidas no excelente “Virada no Jogo — Como Obama Chegou à Casa Branca” (Intrínseca, 462 páginas, tradução de Clóvis Marques), dos jornalistas John Heilemann e Mark Halperin.

Na semana passada, a revista “IstoÉ” publicou uma reportagem de capa, com o título de “As explosões nervosas da presidente”, na qual diz que Dilma Rousseff grita e xinga pessoas e joga objetos no chão. Estaria histérica. Seria possível inventar uma história dessa? Seria. Mas a revista, aqui e ali, cita nomes. Na iminência de um impeachment, que a deixará marcada na história do país como uma presidente que, embora aparentemente honesta, terá caído por equívocos administrativos e desgastes provocados por corrupção de aliados, é possível que esteja mesmo nervosa e agitada. Talvez se julgue incompreendida e, sobretudo, não possa dizer que a corrupção não é sua, em termos pessoais, e sim do grupo que a bancou duas vezes para presidente. Ela paga o preço por ter aliados pouco católicos. Há, é evidente, o que se pode chamar de corrupção moral. O gestor não partilha da bandalheira, mas, para obter apoio, pode fazer vistas grossas. Nenhum presidente da República é ingênuo e todos recebem informações privilegiadas sobre o que ocorre às claras e nos porões do governo. Portanto, se não há corrupção financeira pessoal — e tudo indica que não há —, há, ao menos, corrupção moral.

O “ministro” Jaques Wagner, chamado de “Passivo” pela Odebrecht — na propalada lista da propina —, disse que a “IstoÉ” se comportou de maneira machista. Pode ser que haja algum machismo mesmo. Porque, quando um homem grita e bate na mesa, quase todos aceitam como uma coisa normal ou natural. É visto como “macho” e “poderoso”. A mulher logo é apodada de “histérica” e “descontrolada”. O que se espera de uma mulher “insatisfeita” com algum fato é que seja uma lady, uma dama silente.

Porém, quando o ex-presidente Lula da Silva disse que era preciso convocar as mulheres de “grelo duro” — sugerindo que o clitóris é um pênis — para defendê-lo das acusações das oposições, sobretudo das críticas publicadas na imprensa, não se ouviu a voz de Jaques Wagner apontando uma espécie de machismo visceral. Aquilo que diz o “machão” que é nosso aliado, por menos politicamente correto que seja, deve ser perdoado. A esquerda parece ter inventado o “machismo do bem”, o dela, e o “machismo do mal”, o de seus críticos.

A ginástica de algumas feministas, notadamente professoras universitárias, para justificar o machismo de Lula da Silva — na opinião do petista-chefe, as feministas do PT têm grelo duro, quer dizer, são “quase homens” —, beira o cretinismo político. Intelectuais, quando se tornam tarefeiros ideológicos, são tudo — menos intelectuais. Intelectuais podem apoiar Lula, não há problema algum, mas não precisam concordar com tudo o que diz. Afinal, Lula da Silva não é Stálin — os acadêmicos não correm risco algum de morrer ou de ser exilados em Garanhuns, Cuba ou Venezuela se discordarem do guia genial dos petistas.

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