Euler de França Belém
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Ian McEwan elogia literatura de escritor brasileiro e diz que “seria bem recebido” no Reino Unido

O autor do romance “Reparação” afirma que o prêmio Nobel de Literatura para Bob Dylan foi merecido

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Os repórteres Ruan de Sousa Gabriel e Guilherme Evelin, da revista “Época”, entrevistaram o escritor britânico Ian McEwan, autor do romance “Reparação”, e disseram que seu mais novo romance, “Enclausurado” — no qual o narrador é um feto —, lembra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, a obra mais importante de Machado de Assis e acentuadamente influenciada pela prosa do irlandês Laurence Sterne. No livro do brasileiro — assim como num romance de Philip Roth, “Indignação” (o autor americano reconhece a influência do escritor sul-americano) —, um morto é o narrador da história.

Ian McEwan diz que não conhece “muito” a literatura brasileira, mas disse ter lido Machado de Assis, embora não se lembre de qual título. “Eu estava lendo ‘Barba Ensopada de Sangue’, de Daniel Galera, um escritor brasileiro de quem eu nunca ouvira falar. E achei de um frescor incrível. O Reino Unido está cada vez mais aberto a traduções. E eu imagino que um autor como Galera seria muito bem recebido lá”. Mais não disse. A Companhia das Letras, editora de McEwan no Brasil, lança mais um romance de Daniel Galera, “Meia-Noite e Vinte” (206 páginas).

Inquirido sobre o Nobel de Literatura para o cantor e compositor Bob Dylan, Ian McEwan enfatizou que não tem do que discordar. “Eu comemorei. Eu conheço as canções de Dylan melhor do que meus filhos, mas eles também gostam. Nós nos juntamos para ouvir ‘Tangled up in blue’, ‘Positively 4th Street’, ‘Lay, Lady, Lay’ e ‘Oxford Town’ e bebemos quatro garrafas de vinho. Nos divertimos bastante. Foi um Nobel não só para Bob Dylan, mas também para a música. Sei que alguns puristas que não ouvem Dylan ficaram chateados, mas o que ele faz também é literatura. Nos últimos anos, o Nobel fez algumas escolhas abomináveis, puramente acadêmicas, nada a ver com literatura. A escolha de Dylan vai contra essa tendência”.

Estaria McEwan, considerado um neocon, se apresentando como “moderninho”, “progressista” e tentando agradar os integrantes da Academia Sueca? Não se sabe. Mas, se Bob Dylan merece qualquer prêmio na área de música, como escritor não tem o mesmo nível de Philip Roth, Ian McEwan, Martin Amis, Julian Barnes, Joyce Carol Oates, Don DeLillo, Thomas Pynchon, Cormac McCarthy, Ferreira Gullar, Augusto de Campos, António Lobo Antunes, Mia Couto, Richard Ford e Donna Tartt. O prêmio para o músico sugere, isto sim, que a Academia Sueca não encontrou — ou melhor, não quis encontrar — um escritor de excelente nível e, por isso, deu o Nobel de Literatura para, digamos, qualquer um. Bob Dylan não é qualquer um, como artista pop, mas, como escritor, não está no mesmo patamar de qualquer um dos citados acima.

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