Euler de França Belém
Euler de França Belém

“A História de Lucy Gault”, de William Trevor, é um romance poderoso sobre a tragédia de uma família

O escritor irlandês mostra como a guerra entre povos pode destruir indivíduos e que, por vezes, não é possível corrigir a intensidade do mal que foi feito

William Trevor: um crítico sugere que é maior contista do que o russo Anton Tchekhov — e Graham Greene o compara ao James Joyce de “Dublinenses”

William Trevor: um crítico sugere que é maior contista do que o russo Anton
Tchekhov — e Graham Greene o compara ao James Joyce de “Dublinenses”

Quase cinco vezes menor do que Goiás e com pouco mais de 4,6 milhões de habitantes, a Irlanda é um fenômeno do ponto de visto literário. De lá saíram a poesia e a prosa poderosa de William Butler Yeats e James Joyce. Merecem menção: Laurence Sterne (que influenciou Machado de Assis), George Moore, Samuel Beckett, Flann O’Brien, Jonathan Swift, Bernard Shaw, Oscar Wilde, Iris Murdoch, John Banville, Edna O’Brien e Colm Tóibín. Isto para citar apenas alguns. Um prosador irlandês de rara excelência é William Trevor, publicado recentemente no Brasil. Ele tem 86 anos e é sempre cotado para o Nobel de Literatura. O ensaísta americano Ron Hansen anota, por certo com algum exagero: “Embora possa soar herético, acho que Trevor é superior ao bom doutor russo” (trata-se de Anton Tchekhov). Ao comentar “Angels at the Ritz”, o escritor britânico Graham Greene afirmou que se trata de “uma das melhores coletâneas de contos, senão a melhor, desde ‘Dublinenses’, de James Joyce”.

O belo e doloroso romance “A História de Lucy Gault” (Biblioteca Azul, 283 páginas, tradução de Elisa Nazarian), de William Trevor, saiu no Brasil em 2014. O leitor certamente vai encontrar ecos, o que não quer dizer influência, de um autor mais antigo, Henry James, e de um autor mais recente, Ian McEwan, o do romance “Reparação”.

Ao longo do livro, o narrador planta frases do tipo “o tempo faz com que as lembranças se transformem em invenções”, “tudo acabado, é o que parece, e, no entanto, nem um pouco acabado”, “melhor que fosse um mistério, melhor para a história que continua a ser contada”, “o que aconteceu simplesmente aconteceu”. A personagem Bridget, uma mulher do povo, alerta: “As coisas são como são”.

Em 1921, a Irlanda luta para libertar-se da Inglaterra. Tudo que era inglês era inimigo dos irlandeses. O protestante irlandês Everard Gault, militar que lutou pela Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial e voltou ferido, é casado com a inglesa Heloise Gault, uma mulher bonita, delicada e elegante. Eles são pais de Lucy Gault. Jovens foram à fazenda da família Gault, Lahardane, com o objetivo de incendiar a casa. O capitão Everard atira e fere o garoto Horahan. Mais tarde, localiza a família, pede desculpas e oferece ajuda. É rejeitado. O único tiro dado por Everard “tornou-se, num sonho, o estalar de um ramo cedendo ao vento”.

“A História de Lucy Gault” é um romance poderoso sobre a ascensão  e, sobretudo, queda da família do capitão irlandês Everard Gault, um  militar que lutou na Primeira Guerra Mundial e voltou inválido

“A História de Lucy Gault” é um romance poderoso sobre a ascensão e, sobretudo, queda da família do capitão irlandês Everard Gault, um militar que lutou na Primeira Guerra Mundial e voltou inválido

Temendo ser vítima de um atentado, Everard e Heloise decidem mudar-se para a Inglaterra, onde ela tem recursos financeiros. Lucy Gault pergunta: “Por que temos de ir?” O pai é sucinto: “Porque eles [irlandeses] não querem a gente aqui”. Lucy Gault, uma criança, decide não ir e, para tanto, esconde-se. Os pais a procuram pela propriedade, encontram pedaços de sua roupa na praia e, depois de uma busca rigorosa, concluem que a menina morreu.

Julgando que Lucy Gault era irrecuperável — “Heloise acreditava que a filha tinha se matado” —, Everard e Heloise, que se amavam, vagam sem rumo pela Europa, notadamente pela Itália (como personagens “perdidos” e “reencontrados” de Henry James). “Estamos fingindo de mortos”, diz Everard para Heloise. Esta permanecia linda, mas não era a mesma mulher — a tristeza, derivada da culpa, a corroía. O narrador anota sobre ambos: “Coisas demais deixaram de ser ditas, o capitão considerava agora. Como o amor alimentava o instinto, e os atalhos e economias do instinto, coisas demais haviam sido negligentemente deixadas de lado”. “Todas as lembranças eram de arrependimento, todos os pensamentos sem consolo.”

Na Itália, perguntaram a Everard se era inglês. “Por um instante ele hesitou, não sabendo naquele momento o que ele era. Depois, balançou a cabeça. ‘Não, sou irlandês’.” Não era inglês e, mesmo continuando irlandês, era rejeitado em seu país pelo simples fato de que sua mulher era inglesa.

Enquanto, errantes, pulam de cidade em cidade na Europa, em busca de “oxigênio”, Lucy Gault reapareceu, para a surpresa dos caseiros Henry e Bridget e do advogado Aloysius Sullivan, amigo da família. Estava machucada e, mesmo com tratamento médico, acaba se tornando manca.

Aloysius Sullivan tenta encontrar os pais de Lucy Gault, entra em contato com uma parente de Heloise e um parente de Everard, mas ninguém consegue localizá-los. A menina se torna adulta, sem a presença dos pais e estes “morrem” aos poucos.

Henry, um homem simples, diz para Lucy Gault: “É claro que você não tinha intenção de fazer o mal, menina”. Mas ela tem outra versão: “Eu quis fazer o mal”. Era sua consciência, mais vigorosa e substanciada do que a dos adultos. As pessoas, até garotos da escola, começaram a evitá-la. “A tragédia autoinfligida por uma criança, e o que havia se tornado sua vida desde então, virou assunto para conversa e, para estranhos, pareceu o argumento de uma lenda.” Em Kilauran, um vilarejo, e em Enniseala, uma cidade, não se falava de outra coisa.

Vivendo sozinha, com pais postiços, seus empregados Henry e Bridget, Lucy Gault era infeliz? “Não era solitária, às vezes, mal conseguia se lembrar da solidão.” Por quê? Talvez porque amasse o local, Lahardane. Quando o cônego Crosbie sugere que Lucy Gault deveria “sair pelo mundo”, curtir a vida, Bridget corrige-o: “Isso aqui é o que ela conhece, senhor. Não existe uma concha na praia de que ela não goste. É assim que ela é, cônego, sempre foi assim”. A própria jovem dizia: “Não vou deixar Lahardane. (…) Ah, mas sou feliz. Feliz o bastante, entende?” Sugere o narrador que a garota “fez do fato de ser solitária uma arte”.

Ao mencionar Aloysius Sullivan, que se aposenta, o narrador assinala: “… seu olhar de fora viu Lahardane, e o pequeno agregado doméstico que havia se formado ali, como algo petrificado, preso no drama ocorrido”.

Adulta, tornando-se leitora obsessiva de romances, como a “Feira das Vaidades”, de William Thackeray, Lucy Gault mantém contatos com as pessoas, mas procura não se envolver emocionalmente, até conhecer Ralph. Os dois se apaixonam. Ralph quer se casar com ela. Todos querem que os dois se casem, considerando que a jovem é solitária, “distante” e “sem” parentes.

Lucy Gault diz para Ralph: “Você tem que voltar pra sua vida serena, não ser um visitante na minha. Porque você só poderia ser isso, Ralph, embora eu te ame. Quando amamos um ao outro, estamos roubando o que não nos pertence, o que não é nosso direito. Amado Ralph, temos que nos bastar com as lembranças”. Depois, insiste: “As lembranças podem ser tudo, se decidirmos que é isso que queremos. Viverei uma vida toda feita de lembranças do nosso amor”. Ralph participa da Segunda Guerra Mundial, como soldado, envia cartas, mas, ao voltar, não reata com Lucy Gault, por falta de vontade desta.

Quando Heloise morre, aos 66 anos, na Suíça, Everard volta para a Irlanda, surpreendendo-se com duas coisas. Primeiro, a filha está viva e, inicialmente, são quase estranhos um para o outro. O reencontro sugere que “o passado e o presente tinham, de alguma maneira, se tornado um”. Segundo, é muito parecida com Heloise. Aloysius Sullivan, que havia se tornado uma espécie de tutor, diz para Everard: “Lucy poderia ter se casado. Mas acreditava não ter o direito de amar até que se sentisse perdoada. Nunca duvidou, quando todos nós duvidamos, de que vocês voltariam”. Não se casar, não ter o direito de amar, era uma espécie de pena que Lucy Gault havia imposto a si mesma. Era sua condenação. Ela era a sua juíza.

Everard sofria por Lucy Gault: “Entendia sua particularidade que a tinha impedido de trazer mais alguém para sua inquietação. Ela era excepcional por isso, mas não sabia. Não havia consolo, caso soubesse”.

Certo dia, em Lahardane, Everard recebe a visita de Horahan, que pede desculpas. A desgraça da família Gault o enlouqueceu e ele busca no perdão a sua redenção. O idoso capitão o trata bem, o que parece não agradar Lucy Gault. Porém, mais tarde, quando Horahan é internado num hospício, ela é o visita, sem se identificar, e, quando ele morreu, vai ao seu funeral. É como se estivesse fechando o ciclo da tragédia. “A jornada feita em busca de redenção”, quem sabe.

Freiras ficam escandalizadas com a tranquilidade de Lucy Gault. “Por que o passado foi minimizado? De onde veio a compaixão quando não deveria ter restado nenhuma?”

Ralph uma vez escreveu para Lucy Gault: “As coisas são como são. Ninguém tem culpa”. Mas não é assim que funciona a vida e o romance trata de vidas imaginárias que, muitas vezes, aproximam-se das vidas reais: os indivíduos sentem (e têm) culpa. Por que são saudáveis? Porque são humanos. Até o ensandecido Horahan sentia uma culpa avassaladora, destruidora e incontornável.

Sobre a Irlanda, Everard, um homem polido e elegante, escreve para o irmão Jack: “Irlanda das ruínas, é como a ouvi chamarem, mais ruínas e sempre mais”.

“A História de Lucy Gault” é um romance muito bem escrito, com a tessitura da prosa de Henry James — claro que modernizada pós-James Joyce —, sobre a ascensão e, sobretudo, queda da família Gault. “Os romances eram um reflexo da realidade, de todo o desespero e de toda a felicidade do mundo, na mesma proporção. Por que os erros e as tolices — na realidade também — não podiam ser consertados a tempo?” Por quê? Porque é impossível. A vida é avessa ao planejamento, aos ajustes. A vida é “torta”. Torna-se “reta” apenas na retórica dos homens.

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