Grandeza de Churchill faz filme com Gary Oldman ser soberbo

Mas será que, como sua sinceridade à flor da pele, o líder britânico sobreviveria sob a égide das patrulhas modernas?

Marcelo Franco

Outro dia vi o Churchill de Gary Oldman, no filme “O Destino de uma Nação”. Me fascinou ver o filme como um tipo de celebração da forma como os britânicos aceitaram Churchill, que chegara a 1940 com fama de bêbado e com erros monumentais no currículo — nos nossos dias, errar não é mais humano: um único deslize e o “meliante” se vê caçado por epígonos de Torquemada na Santa Inquisição (Santa Inquisição: uma espécie de Facebook da Idade Média).

Winston Churchill, Franklin D Roosevelt e Stálin

Dizem que não mais haverá líderes assim — talvez, talvez, mas boa parte da culpa é nossa, os “liderados”: queremos que os nossos governantes sejam pessoas sempre prontas a fazer check in na Esquina da Empatia, incapazes de pensamentos impuros e com disposição para pedir desculpas instantâneas por deslizes verbais; queremos santos, mas santos, vocês sabem, somente são santos depois de comprovarem a própria santidade.

Charge de 1940 exibe a nação inglesa, com Winston Churchill na liderança, arregaçando as mangas das camisas para enfrentar as tropas de Adolf Hitler

O “we shall fight on the beaches” de hoje são envergonhadas entrevistas coletivas, “Peço desculpas por ter usado a palavra ‘judiar’ e aproveito para comunicar que estou doando cem mil reais para a Associação Judaica de Riachão das Emas”, coisas desse tipo — como o filósofo Pascal Bruckner notou, o Ocidente vive, há mais de cinquenta anos, o masoquismo da “tirania da culpa”, uma forma de danação judaico-cristã curiosamente imposta por pensadores ateus.

Churchill: primeiro-ministro britânico (1940-45 e 1951-55) e Nobel de Literatura

Gary Oldman está soberbo, mas soberbo mesmo, sem dúvida, era Sir Winston Leonard Spencer-Churchill, grande porque era também falho.

A Churchill tanto devemos — por isso a ele rezo diariamente no altar do meu panteão pessoal, bebendo com o velho estadista um scotch imaginário e fumando um charuto igualmente imaginário.

A propósito, lembro-me de que Afonso Arinos, um líder jogado ao ostracismo só por ser conservador (ou liberal do tipo inglês, para ser mais exato), disse algo comovedor sobre a morte do seu adversário político Juscelino Kubitschek: “A sua aventura vital foi extraordinária”.

E também sobre JK, sua mãe, olhando as obras de Brasília, disse algo não menos comovedor (usando o seu apelido de infância): “Só mesmo o Nonô para fazer tudo isto”.

Furto as frases e me boquiabro com a extraordinária aventura vital de Churchill, e, sim, só mesmo o velho buldogue inglês para fazer tudo aquilo naquele momento.

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