A Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1939 (com a invasão da Polônia pela Alemanha) e terminada em 1945, há 77 anos, é, por assim dizer, uma obra aberta. Portanto, continuam saindo livros sobre aspectos gerais e específicos (os chamados “detalhes”). Nos últimos anos, as editoras têm publicado obras a respeito da participação das mulheres (fizeram um extraordinário trabalho de espionagem e várias soviéticas lutaram bravamente — algumas eram atiradoras de elite e outras aviadoras) e mostrado que, apesar das imensas dificuldades, muitos judeus reagiram à dominação e violência dos nazistas nos campos de concentração e extermínio.

Há livros amplos, até amplíssimos, que deixam a desejar. E há livros sintéticos que são excelentes. Concluída a leitura, o leitor quer saber mais, mas também sai, não raro, relativamente bem-informado sobre a batalha acontecida na Europa, na África e na Ásia (Antony Beevor sugere que a Segunda Guerra Mundial “começou” na Ásia, na guerra entre a China e o Japão, em 1935, quatro anos antes do início do conflito europeu).

Sobreviventes do campo de extermínio de Auschwitz, localizado na Polônia | Foto: Reprodução

“Segunda Guerra Mundial” (Contexto, 174 páginas), de Francisco Cesar Ferraz, professor da Universidade Estadual de Londrina e doutor em História pela Universidade de São Paulo, não é um livro alentado. Ainda assim, é uma abrangente história da batalha que envolveu ingleses, franceses, poloneses, russos, australianos, italianos, norte-americanos, japoneses e, sim, brasileiros (25 mil lutaram, com bravura, na Itália — vários deles goianos. Aldemar Ferrugem, mais citado como “Ademar”, morreu na Itália. Benvindo Belém de Lima, de Pindorama de Goiás, na época, agraciado com nome de uma rua em Belo Horizonte, foi ferido na batalha e voltou para o Brasil. Morreu com 32 anos).

Às vezes, fica-se com a impressão de que a Segunda Guerra Mundial é um evento apenas europeu. Porém, como sublinha a palavra “mundial”, é um fato histórico que envolveu militares e civis de vários países (e toda a economia global foi afetada pela batalha). O historiador Norman Davies critica autores que “exageram” a participação dos Estados Unidos, quiçá para reduzir a participação da União Soviética. Os dois países foram decisivos, mas as perdas maiores, em vidas de civis e militares, foram soviéticas. A Batalha de Kursk, de julho de 1943, merece um lugar mais amplo na história do conflito. A guerra não acabou unicamente por causa do ataque aliado na Normandia, no chamado Dia D. Os nazistas foram perdendo a guerra aos poucos, e não apenas numa batalha.

Francisco César Ferraz (à esq.) e Frank McCann: historiadores | Foto: Facebook

Há, de fato, um “endeusamento” da Inglaterra e do primeiro-ministro Winston Churchill? Por certo, há. Mas poderia ser diferente? Quando praticamente toda a Europa estava controlada pelos nazistas da Alemanha de Adolf Hitler — a União Soviética era aliada, entre 1939 e 1941, dos alemães e os Estados Unidos se recusavam enviar soldados para o continente convulsionado —, os britânicos não se agacharam e resistiram bravamente. O indivíduo Churchill, com seus discursos candentes, realistas e esperançosos, transformou, digamos assim, cada inglês numa espécie de Churchill 2, 3, 4… milhares. As palavras são armas poderosas, sugere o líder da terra de William Shakespeare e do almirante Horatio Nelson.

O livro de Francisco Cesar Ferraz é bom — até muito bom — porque faz uma síntese precisa da Segunda Guerra Mundial, exibindo amplo conhecimento da bibliografia atualizada. O historiador também apresenta interpretações pertinentes, num diálogo saudável com os pesquisadores mais recentes. O último capítulo, “Precisamos falar sobre extermínio”, é excelente. De cara, o pesquisador assinala que o Holocausto — o assassinato em massa de judeus nos campos de extermínio, e mesmo fora dos campos — não é um “detalhe”. É um acontecimento central da guerra.

Winston Churchill: decisivo na batalha contra Hitler | Foto: Reprodução

Além do leitor comum, que sairá bem-informado, professores de história ganham um material de qualidade e praticamente didático para levar às salas de aula. Há quadros explicando acontecimentos vistos, por vezes, como periféricos, mas que, na verdade, são relevantes: “Do pangermanismo à busca pelo ‘espaço vital’”, “Operação Eutanásia: o início do extermínio sistemático de vítimas do nazismo”, “O massacre de Katyn” (soviéticos promoveram a matança de mais de 20 mil integrantes da elite polonesa, sobretudo oficiais das forças armadas), “A Linha Maginot” (a França não era, a rigor, inexpugnável), “Anne Frank” (cuja história é tão fabulosa quanto dolorosa), “Ultra e Enigma”, “Richard Sorge — O espião perfeito” (o alemão alertou Stálin que a Alemanha iria invadir a União Soviética, mas o líder comunista não acreditou), “Mulheres soviéticas em combate”. As sínteses são precisas, o que, em sala de aula, são um verdadeiro maná.

O fundamental é que, se o leitor não quiser (por falta de tempo e paciência, por exemplo) ler os cartapácios de Martin Gilbert, Richard Evans, Antony Beevor, Ian Kershaw, Richard Overy, Max Hastings e Andrew Roberts, sairá muito informado da leitura da obra de Francisco Cesar Ferraz. Se quiser obter mais informações, sobretudo a respeito de detalhes, aí poderá consultar as obras clássicas e, em geral, gigantes dos autores citados neste parágrafo. Porém, do básico, o pesquisador patropi praticamente não deixa nada de fora.

Livros e filmes sobre a Segunda Guerra Mundial

Após cada capítulo, Francisco Cesar Ferraz arrola leituras complementares e sugere filmes e documentários.

São citados livros dos mais notáveis historiadores da guerra, como Ian Kershaw (biógrafo de Hitler e autor de outros livros, como “Dez Decisões Que Mudaram o Mundo — 1940-1941” e “De Volta do Inferno — Europa, 1914-1949”), Richard Overy (é valioso “Os Ditadores — A Rússia de Stálin e a Alemanha de Hitler”), Andrew Nagorski, David Stahel, Carl Smith, Fernando Lourenço Fernandes (sobre a participação do Brasil na guerra), Cesar Campiani Maximiano (sobre a luta dos brasileiros na Itália), Mark Healy, Paul Kennedy, Richard F. Newcomb, Lester Brooks (sobre a rendição japonesa), Max Hastings (escreveu vários livros sobre a batalha, um deles sobre o Dia D, na Normandia), Vassily Tchuikov, Marcos Guterman (sobre nazistas no Brasil), Robert Wistrich, Norman Davies (faz um balanço da guerra e da bibliografia no livro “Europa na Guerra”), Martin Gilbert (escreveu sobre a guerra, o holocausto e é biógrafo de Churchill), Andrew Roberts (autor do excelente “A Tempestade da Guerra”).

Faltou citar as biografias de Hitler, Churchill (Andrew Roberts é autor da mais atualizada, incluindo os arquivos da família real), Ióssif Stálin, Franklin D. Roosevelt e Charles de Gaulle — grandes operadores da guerra. Eu também incluiria o belo livro “Vida e Destino”, de Vassili Grossman, “A Segunda Guerra Mundial”, de Antony Beevor, “O Terceiro Reich”, em três volumes, de Richard Evans, “Combate Moral — Una Historia de la Segunda Guerra Mundial”, de Michael Burleigh, “Lênin, Stálin e Hitler — A Era da Catástrofe Social”), de Robert Bellately, e “Terras de Sangue — A Europa Entre Hitler e Stálin”, de Timothy Snyder.

Entre os filmes e documentários são mencionados: “A Segunda Guerra Mundial em Cores — A Tempestade se Aproxima”, “Grandes Momentos da Segunda Guerra em Cores — Dunquerque” (direção de Nicky Bolster), “O Banqueiro da Resistência” (de Walraven van Hall), “O Barco — Inferno no Mar” (de Wolfgang Petersen), “O Brasil na Batalha do Atlântico” (de Erick Castro), “A Batalha da Grã-Bretanha — Sozinha” (de Jeremy Isaacs), “Rosa da Esperança” (de William Wyler), “A Batalha da Rússia”, “A Cruz de Ferro” (Sam Peckinpah), “Balada do Soldado” (de Grigori Chukhmai), “A Ponte do Rio Kwai” (de David Lean), Pearl Harbor” (de Michael Bay), “Tora! Tora! Tora!” (de Richard Fleischer), “Duas Mulheres” (Vittorio de Sica), “Patton — Rebelde ou Herói?” (de Franklin Schaffner), “Roma, Cidade Aberta” (Roberto Rosselini), “A Conquista da Honra” (de Clint Eastwood), “Cartas de Iwo Jima”(de Clint Eastwood), “The Pacific” (de Tom Hanks), “A Queda — As Últimas Horas de Hitler” (de Oliver Hirschbiegel), “Uma Ponte Longe Demais” (de Richard Attenborough), “Adeus, Meninos” (Louis Malle), “A Lista de Schindler” (de Steven Spielberg), “Filhos da Guerra” (de Agnieszka Holland), “Noite e Neblina” (Alain Resnais), “Shoah” (de Claude Lanzmann), “A História da Segunda Guerra Mundial” (de Liam Dale).

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