Euler de França Belém
Euler de França Belém

Frances Haugen revela como o Facebook usa e abusa de seus usuários-mercadorias

Numa busca frenética pelo lucro, a empresa de Mark Zuckerberg manipula os usuários, reforça o discurso do ódio e os governos nada percebem

Frances Haugen: a engenheira de dados quer salvar o Facebook | Foto: Reprodução

O filósofo alemão Karl Marx certamente não ficaria impressionado com o fato de que o indivíduo se tornou a “mercadoria” (talvez produto) mais comercializado pelas redes sociais e portais de busca. Costumeiramente, o usuário das redes sociais imagina que é “tudo de graça” e que é “sujeito”, mas não é bem assim. O capitalismo não oferece nada sem custo. Entretanto, como parece parte da ativa da “vida” nas redes, a pessoa parece acreditar que é senhora da situação — quando, na verdade, está sendo “guiada” para determinados fins, como debates acerbos e possibilidade infinita de consumo. Especialistas estão preocupados porque aquilo que parecia tão inofensivo quanto um ursinho de pelúcia se tornou um monstro praticamente incontrolável.

“A minha preocupação hoje é que a sociedade civil foi tão erodida pelo advento das redes sociais que não podemos mais falar em sociedade civil. Os Estados Unidos se tornaram uma sociedade não civilizada. A polarização se tornou um veneno. Eu me pergunto se a civilização não está se tornando algo diferente, em uma não-civilização ocidental”, afirma o historiador Niall Ferguson, professor de Stanford.

O professor Eugênio Bucci, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, apresenta uma tese ligeiramente diversa da do pesquisador britânico. O mestre brasileiro postula que, mais do que incivilidade, a polarização está gerando insensatez nas redes sociais. “A tendência é que discursos exacerbados sejam favorecidos nas redes. E isso vai produzindo o efeito bolha: as pessoas que fazem parte delas dentro das redes são governadas por algoritmos e não pelo discernimento racional. O que é um paradoxo, porque tudo o que o Brasil precisa neste momento é de sensatez. Mas parece que os ventos favorecem a insensatez”.

Niall Ferguson e Eugênio Bucci, ainda que observadores agudos, são outsiders. Agora apareceu uma crítica insider, de dentro do sistema — Frances Haugen, ex-gerente de produto do Facebook. Durante algum tempo, ela colecionou documentos e, ao sair da empresa, repassou-os ao “Wall Street Journal”, dos Estados Unidos. Muito do que revela, a rigor, já havia sido apontado em reportagens e, até, em livros. Mas agora é uma ex-facebookista que faz as revelações, corroborando e reforçando críticas anteriores.

Depois da publicação do “Wall Street Journal”, e da repercussão internacional de sua denúncia contra as manipulações — comerciais e políticas do Facebook —, Frances Haugen esteve no Congresso dos Estados Unidos, onde esmiuçou o que havia dito à imprensa.

Daniel Tozzi Mendes resumiu, no “Estadão”, as principais denúncias de Frances Haugen.

Discurso do ódio é potencializado pelo algoritmo

Os formuladores das ações do Facebook, via algoritmos, contribuem para fomentar o discurso do ódio, a intolerância e a desinformação. Porque aquilo que se torna polêmica tende a viralizar e atrair mais pessoas para rede.

Em 2018, depois de uma queda de engajamento dos usuários, o Facebook criou o mecanismo “meaningful social interactions” (“interações sociais significativas”). “Esse mecanismo cria um ‘score’ e atribui às publicações pontos que variam de acordo com seu conteúdo”, resume Tozzi Mendes.

O Facebook privilegia aqueles posts que produzem engajamento “negativo”. Postagens positivas e serenas perdem espaço para mensagens agressivas, que atraem debate e, portanto, a atenção dos usuários. “Quantos mais pontos, maiores seriam as chances de o post aparecer no feed de outros usuários, ganhando mais alcance.”

Instagram e adolescentes

Frances Haugen frisa que o Instagram sabe que “causa impacto na autoestima e saúde mental de adolescentes”. Porém, seus formuladores nada fazem para corrigir o problema. “Relatórios internos da companhia dizem que a rede social aumenta os quadros de ansiedade e depressão entre adolescentes que usam a plataforma”, sublinha Tozzi Mendes.

Pesquisa do Facebook, de março de 2020, constatou que “ao menos 30% das meninas que usam Instagram se sentiam mal com o próprio corpo ou ficavam ainda piores depois de acessar a rede”.

Proteção para os VIPs

Frances Haugen revela que há uma lista de VIPs, que são uma espécie de James Bond do Facebook. Donald Trump e Neymar, por exemplo, têm licença para serem politicamente incorretos. A rede, quando tem de moderá-los, o faz de maneira branda. O “Face” chega a alertar os vips para deletarem determinados conteúdos.

Cidadãos comuns levam “ganchos”, às vezes têm postagens excluídas ou são suspensos por algum tempo. Já Trump e Neymar chamam a atenção dos usuários e geram engajamento. Mais pessoas na rede significa mais consumidores comprando — o que gera dividendos financeiros para o Facebook.

Milhares de pessoas-fakes enviam pedidos de amizade, todos os dias, em busca de incautos. Ao vasculhar “sua” página, o usuário percebe, de cara, que o nome e a foto são fakes. Ao denunciar ao Facebook, às vezes receberá uma mensagem padrão de que se trata de uma pessoa normal, que “existe”. Na verdade, uma verificação simples constataria que quase não há postagens — e, quando há, são mensagens falsas e do estilo robô — e há apenas uma fotografia da pessoa.

Tráfico humano e drogas

A denúncia publicada no “Wall Street Journal” mostra que, a partir de determinado momento, o Facebook, via moderadores, passou a acompanhar, com preocupação real, a utilização da rede “por traficantes de drogas e organizações criminosas envolvidas com o tráfico de pessoas ao redor do mundo”.

Frances Haugen admite que tais conteúdos às vezes eram interceptados por funcionários do Facebook. A cientista de dados ressalta que a empresa “não conseguia eliminá-los completamente”. Segundo Tozzi Mendes, “esse posicionamento permitiu que um cartel mexicano de drogas recrutasse membros de uma facção criminosa ou que mulheres do Leste Europeu fossem submetidas a regimes análogas à escravidão em trabalhos de prostituição”

Agressões em Mianmar e Etiópia

Ao Senado, Frances Haugen relatou que o Facebook teve papel deletério nas crises políticas da Etiópia e de Mianmar. A Global Witness, organização de direitos humanos, constatou, em junho deste ano, “que os algoritmos do Facebook ajudaram a promover e incitar a violência em Mianmar, enquanto o país lidava com a tensão política do golpe militar que derrubou o governo eleito no início deste ano. Lá, quando um usuário curtia uma página de apoio aos militares do país, o próprio Facebook já recomendava ao usuário outras páginas com o mesmo teor, embora estas não necessariamente obedecessem às políticas de uso da rede, já que promoviam o ódio e a violência”.

“O Facebook sabe que a classificação baseada em engajamento é perigosa quando não há sistemas de integridade e segurança, mas essas medidas não foram implementadas na maioria dos idiomas do mundo. O que vimos em Mianmar e agora estamos vendo na Etiópia são os capítulos iniciais de uma história de terror de que ninguém quer saber o final”, disse Frances Haugen aos senadores americanos.

“Acredito que os produtos do Facebook prejudicam as crianças, intensificam a divisão e enfraquecem a nossa democracia”, postula Frances Haugen. “É preciso que o Congresso aja. Essa crise não será resolvida sem a sua ajuda”, disse a ex-funcionária da rede social. “A empresa esconde intencionalmente informações essenciais aos usuários, ao governo dos Estados Unidos e aos governos do mundo todo. A gravidade dessa crise exige que saiamos das nossas estruturas regulatórias anteriores.” É um fenômeno novo, ainda não inteiramente dimensionado.

O professor Mark Hass, da Universidade do Arizona, defende mudanças, na linha de Frances Haugen. “Terá que vir das plataformas, terão que sentir a pressão de seus usuários e de funcionários.” Por isso a denúncia de Frances Haugen — contestada em parte pelo Facebook, mas não na essência (e é provável que uma investigação do governo americano pode acabar provando que o problema é maior do que revela a denúncia da engenheira) — é útil para gerar um debate transnacional.

Curiosamente, o Facebook ofereceu dinheiro — migalhas — para jornais brasileiros combaterem a desinformação orquestrada. O que Frances Haugen revela é que o Facebook é craque em potencializar as redes de fakes news, porque elas geram engajamento e, afinal, mais dinheiro.

“Salvação” do Facebook é a destruição do modelo

Um dos equívocos de Frances Haugen é a ideia de que se pode salvar o Facebook. Talvez não seja possível. Porque, para salvá-lo, é preciso destrui-lo. Portanto, não há salvação.

“Juntos podemos criar redes sociais que podem extrair o melhor de nós mesmos”, afirma Frances Haugen. Não seria uma visão quase idílica da “natureza humana”? Uma fiscalização abrangente e meticulosa, com amplo conhecimento de como as redes se articulam — quando denunciadas, mudam para não mudar, acrescentando um “disfarce” (um controle que, a rigor, não controla) —, é possível. Quando querem, o governo e o Congresso dos Estados Unidos são rigorosos. Mas mudar o homem, acreditando numa pureza impossível de ser alcançada, é praticamente inviável. Para além da manipulação do Facebook, que é um fato — trata-se de uma máquina azeitada de gerar consumo e necessidades não necessárias —, as pessoas que usam a rede social não são meramente passivas, não são objetos. São, ainda que parcialmente, sujeitos do que fazem.

Mark Zuckerberg é jovem, mas repete o velho sistema de monopólio, com o controle do Facebook, do Instagram e do WhatsApp. Recentemente, os três ficaram fora do ar por sete horas, o que prejudicou negócios em todo o mundo. O governo e o Congresso americanos tendem a obrigar o bilionário a vender ao menos um dos seus produtos? Com os melhores advogados e lobistas do país, o empresário vai lutar contra isto, com unhas, dentes e muito dinheiro.

Confira a opinião de Niall Ferguson, professor de Stanford

Professor de Stanford diz que redes sociais estão destruindo a sociedade civil

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