Franz Kafka again? O de “O Processo” ou, quem sabe, o de “O Castelo”?

Luciane Barbosa Farias é casada com Clemilson dos Santos Farias, o Tio Patinhas, um dos líderes do Comando Vermelho (CV).

Luciane Farias esteve no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e na Câmara dos Deputados. A imprensa moitou, não no sentido de esconder, e sim de praticamente ignorar o assunto — mencionado en passant.

Em seguida, Luciane Farias foi ao Ministério da Justiça, em Brasília, reclamar de revistas vexatórias em presídios e, por certo, otras cositas más.

Ao Ministério da Justiça, Luciane Farias foi levada por Janira Rocha, ex-deputada do PSOL, e por Camila Guimarães, advogada. É essencial saber que a mulher do faccionado não pediu audiência — era tão-somente acompanhante, aparentemente.

A imprensa concentrou-se na informação de que Luciane Farias foi recebida pelo secretário nacional de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, Elias Vaz (PSB). Porque, não se sabe. Talvez devido a velha fixação de “derrubar mais um” (o que o filósofo da USP José Arthur Giannotti por certo chamaria de “a ética do deslize”). Mas a pergunta chave deveria ser outra: por que Janira Rocha e Camila Guimarães levaram Luciane Farias ao Ministério de Justiça (um lugar público, por sinal) sem avisar de quem se tratava? Andar com uma suposta integrante do Comando Vermelho, ou apenas mulher de um dos chefes do CV, é no mínimo suspeito.

E nada é mais suspeito que Luciane Farias tenha ido ao Ministério da Justiça no momento em que o ministro Flávio Dino e o governo federal estão endurecendo no combate ao crime organizado, notadamente no Rio de Janeiro — onde exatamente o Comando Vermelho é a facção dominante.

Flávio Dino, ministro da Justiça: firme no combate ao crime organizado | Foto: EBC

Kafka diria a Josef K: há gente — das mais mal-intencionadas — tentando manchar a imagem de auxiliares do presidente Lula da Silva, sobretudo a de Flávio Dino (por sinal, excelente ministro — e cotado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal, o que incomoda muita gente, é claro). Por isso, mais do que nunca, o ministro da Justiça e seus assessores, como Elias Vaz, têm de ficar atentos a possíveis armadilhas. Sublinhe-se que há, inclusive, a possibilidade de possíveis ligações de políticos com o crime organizado, especialmente no Rio de Janeiro — onde máfias similares às italianas, mesclando o crime organizado com milícias, atuam à luz do dia. A morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes resultam, possivelmente, deste consórcio criminoso.

Elias Vaz: vereador e deputado federal atuante

Como o país não conhece Elias Vaz, e há tanta contaminação na sociedade brasileira, é precisar dizer umas palavras sobre o político goiano.

Elias Vaz é um político decente. É o primeiro ponto. Não há uma notícia de que tenha envolvimento em falcatruas — e sua carreira política já é longa.

Vereador em Goiânia, sem fazer barulho, era, provavelmente, o mais qualificado. Poucos políticos (e mesmo técnicos) entendem tanto de Goiânia e de Legislativo quanto Elias Vaz. Durante anos, foi um vereador exemplar, dos mais qualitativos. Os prefeitos sabiam que, quando Elias Vaz discutia um tema, era preciso investigá-lo com seriedade e profundidade. Porque ele sabia, sempre, do que estava falando. Nunca debate um assunto de auê.

Dada sua trajetória notável na Câmara Municipal de Goiânia, Elias Vaz foi eleito deputado federal em 2018.

Na Câmara dos Deputados, Elias Vaz foi um deputado preocupado com o desenvolvimento do país. Isto é: não estava interessado apenas no crescimento econômico, mas também, e sobretudo, no desenvolvimento, que é quando se reparte os ganhos da expansão da economia com a sociedade. Não era adepto da história de Delfim Netto de que era preciso fazer o bolo crescer para depois reparti-lo (nas gestões apoiadas pelo economista o bolo nunca chegou a ser repartido). Na sua visão é preciso repartir o bolo logo, ou seja, durante o processo de crescimento, e não após. Porque depois os trabalhadores ficarão a ver navios… sempre.

Concentrado em Brasília, com o objetivo de fazer um mandato qualitativo — o que foi bom para o país e para Goiás —, Elias Vaz descuidou-se da política provinciana. Noutras palavras, não se comportou de maneira populista. Agiu de maneira republicana com os prefeitos, sem os salamaleques de sempre, aqueles com inaugurações faraônicas e foguetório.

Então, Elias Vaz não foi reeleito em 2022, e não por ter sido um deputado ruim, e sim, pelo contrário, por ter sido um deputado gabaritado. Embora político, faltou ao ex-deputado exatamente fazer política. Ele não gostava de aparecer e dava poucas entrevistas. Era focadíssimo no seu trabalho em Brasília. Esqueceu-se da máxima de Antônio Carlos Magalhães, o ACM: “Só é forte na Corte quem é forte na província”.

No Ministério da Justiça, é um auxiliar eficiente, sempre presente. Dedicadíssimo. Por ser afável e democrático, recebe e conversa com todo mundo. Ou seja, num terreno minado, sua virtude — ser aberto ao diálogo — às vezes se torna um problema.

Em suma, o país precisa saber: Elias Vaz é um político decente. Portanto, não vale a pena queimar a sua — boa — imagem por um lance que, a rigor, tem pouca importância.