Espanhola-catalã diz que será preciso repensar as coisas ou marchar para o abismo

O indivíduo comporta-se como criança mimada brincando no parque e, quando a natureza o repreende, não leva a sério. Leva-se uma “bolada”, mas logo se esquece

Halley Margon
de Barcelona
Especial para o Jornal Opção

Rosa Ribas é espanhola e catalã — “catalã, mas não nacionalista”, insiste em dizer. Nascida, em meados da década de 1970, e criada na capital da Catalunha. Filha única de um casal de catalães e formada em letras, é sócia e professora numa escola de espanhol para estrangeiros, a Ole Languages. “Casada desde sempre”, segunda ela, com um jornalista (antropólogo por formação) holandês Paul Koekkoek, são ambos incondicionais torcedores do Barcelona (do argentino Messi e do brasileiro Arthur). Dizer que são incondicionais torcedores do time do argentino Messi e do brasileiro Arthur é, na verdade, uma redundância, pois a única condição do torcedor do Barça é ser incondicional. Assim sendo, Messi é o melhor jogador do mundo desde que o mundo é mundo e quem ousar questionar algum aspecto dessa afirmativa é porque sofre de algum tipo qualquer de demência muito grave. Simpatizante do Podemos (esquerda), da prefeita da cidade, Ada Colau, e também do presidente da República, o socialdemocrata Pedro Sanches, “mas muito mais, na verdade, do governo de coalizão que ele atualmente lidera”.

Rosa Ribas está concluindo a leitura do livro “Acompañando a Simone de Beauvoir — Mujeres, Hombres, Igualdade” (Galaxia Gutenberg, 220 páginas), do franco-argelino Sami Naïr. No período de quarentena, decidiu ler: “Os Buddenbrook”, do alemão Thomas Mann; “La Trama Nupcial” (no Brasil, “A Trama do Casamento”), do americano Jeffrey Eugenides; “Siempre Susan — Recuerdos Sobre Susan Sontag”, da americana Sigrid Nunez, e “Tu Rosto Mañana” (“Seu Rosto Amanhã”, no Brasil), uma trilogia do espanhol Javier Marías. Recentemente, releu “O Nome da Rosa”, do italiano Umberto Eco.

Rosa Ribas, com o gato Trotski: “Estou mais preocupada com as pessoas que estão passando ou vão passar por dificuldades. Acho quase frívolo pensar que não poder tomar uma cerveja possa ser uma das minhas maiores preocupações” | Foto: Arquivo pessoal

Rosa Ribas é culta, inteligente e rápida de raciocínio. Tanto ela quanto o companheiro são “animalistas” — quiçá como Jonathan Safran Foer, autor do espantoso livro “Comer Bicho”, e o filósofo Peter Singer — e nenhum dos dois comem carne. São intransigentes defensores dos animais. Em casa, têm um gato que se chama Trotski, segundo ela por pura casualidade.

Como tem sido para você a experiência de confinamento até agora?

Surpreendentemente, melhor do que eu esperava. Sabia que não ia me cansar, mas tinha medo da parte emocional. Até o momento, tenho conseguido lidar com isso graças a um afastamento praticamente total das informações jornalísticas. Estou lendo muito, estudando e aprendendo no nível acadêmico-intelectual, mas também no nível emocional. Imagino que nessas situações tiramos o pior e o melhor de cada um e é sempre bom saber isso.

Estamos chegando ao décimo primeiro dia sem poder sair de casa. Estamos indo bem? A cidade está se comportando bem?

As pessoas estão levando a situação muito bem, nunca deixam de me surpreender, às vezes até para melhor. Eu diria que em geral estamos nos comportando de maneira civilizada e solidária, em outros lugares, sei que esse não é o caso. Talvez estejamos mais acostumados a sofrer do que no norte da Europa ou talvez nos custe menos limitar nossas liberdades.

Rosa Ribas: “Estamos em casa não tanto para lutar contra o vírus, mas muito mais para ajudar aqueles que foram atacados. É mais um movimento de defesa, não um movimento de ataque. Esse trabalho é para os cientistas e médicos. Eu não vejo isso como uma luta. Depois, quando tivermos que reconstruir nossa sociedade, aí sim teremos que lutar e derrotar o inimigo” | Foto: Arquivo pessoal

A sra. pode dar um exemplo?

Na Suécia, por exemplo, o governo não se atreve a tomar medidas de confinamento porque não quer ir contra a liberdade individual. Há fotos de supermercados na Holanda onde as pessoas lutam para conseguir um pacote de arroz.

A sra. pode visitar seus pais, que são idosos? Tem falado com eles? Como estão vivendo tudo isso?

Minha mãe e meu pai, 77 e 80 anos, respectivamente, estão bem. Eles são muito disciplinados e, apesar de terem algum medo, levam numa boa. Não posso visitá-los porque não precisam realmente de mim, os regulamentos são muito claros em relação a isso e ao tráfego de pessoas. Por outro lado, eles não querem que eu vá (risos), mas eu falo com eles quase diariamente. São muito perspicazes e pragmáticos sobre isso. Em geral as instruções do governo estão sendo seguidas. Todos os meus conhecidos as estão cumprindo com a máxima disciplina, sem questionar seus motivos ou os caminhos, que agora não é o momento. Socialmente, soa muito negativo não cumprir o confinamento. Na Espanha, as pessoas respeitam muitíssimo o pessoal da saúde em geral. Somos um povo bastante solidário e as pessoas acreditam que a melhor maneira de ajudar aqueles que se sacrificam por nós é cumprir pelo menos o mínimo.

Rosa Ribas: ” Além dos conscienciosos e dos idiotas, haverá um grande número de céticos e niilistas e isso é muito perigoso. No momento, não penso no futuro. Isso me serve pessoalmente para verificar que eu estava certa, e que eu sempre tive razão” | Foto: Arquivo pessoal

Uma paisagem desoladora não encaixa com Barcelona

Podemos ir ao mercado e à farmácia. A sra. tem feito isso?

Tento ir ao supermercado o mínimo possível, combino com o meu parceiro e nos revezamos. A verdade é que sair na rua me deprime quase mais do que estar em casa. Para a farmácia no momento, felizmente, não fui.

Como descreveria a sensação de sair e ver as ruas da sua cidade, normalmente tão lotadas, agora tão vazias?

É apocalíptico. Não é da ausência de pessoas que não gosto. Isso quase me agrada. O que faz falta é vida. Meu bairro é um bairro com muitos apartamentos turísticos, uma área de classe média, média alta, com muitas pessoas daqui mesmo, de Barcelona, em grande número de origem catalã. Chama-se Eixample Dret, perto do Arco do Triunfo. É um bairro muito bom, cívico e tranquilo, mas com muita vida. Agora não há nada, menos mal que em Barcelona haja tantos cães e muito mais no meu bairro. Isso significa que ainda há vida humana e animal. Essa paisagem desoladora não encaixa com Barcelona.

Sente falta de sua rotina social? Ia muito a bares, não é mesmo?

Eu ficava sim muito tempo fora de casa, mas também amo estar em casa. Sinto falta de certas pessoas. Conversar, rir, tocar… mas está dando para tolerar. Ficar sem pessoas por um tempo às vezes é bom. Digamos que eu esteja mais preocupada com as pessoas que estão passando ou vão passar por dificuldades. Acho quase frívolo pensar que não poder tomar uma cerveja possa ser uma das minhas maiores preocupações. Esse é um mal menor. E acho que a maioria das pessoas pensa assim. Geralmente, não sou uma pessoa com grandes projetos ou planos futuros. Mas agora, mais do que nunca, vivo um dia por dia, ou uma semana por semana. Sem dar muita importância para o resto.

A sra. estabeleceu uma rotina para viver em confinamento ou apenas deixa as coisas acontecerem durante o dia?

É muito difícil para mim manter um cronograma. Entendo uma rotina como fazer coisas com relativa assiduidade. Isso eu faço. Em outras palavras, tenho uma rotina de conceitos, ao invés de horas. Todos os dias tenho que ler, estudar, praticar esportes, organizar coisas, socializar… a ordem ou o horário não me interessam.

Rosa Ribas: “Acredito que as medidas que [o governo espanhol] está tomando são justas e necessárias. Só espero que não sejam universais, que a todos os trabalhadores não sejam tratados da mesma forma. A ajuda deve sempre ir de acordo com a necessidade” | Foto: Arquivo pessoal

Barcelona é uma cidade que, como outras cidades da Espanha e da Europa, passou por eventos coletivos tremendamente dramáticos. Na Guerra Civil (1936-1939), por exemplo, foi o último front de resistência contra o fascismo de Francisco Franco. Seus pais e avós viveram esse tempo. A memória disso chegou de alguma forma às gerações atuais. Isso conta? Ajuda?

Depende do nível intelectual e da capacidade empática das pessoas. Eu diria que a grande maioria das pessoas não tem mais a Guerra Civil em mente como um episódio real, e sim como um evento histórico. O que temos agora é uma situação totalmente nova e é muito estranha. Temos tudo o que necessitamos do ponto de vista material, não há um perigo com nome ou um inimigo a ser vencido. O que está acontecendo conosco é algo que não podemos assimilar usando os recursos tradicionais. Acho que é a partir desta segunda semana que vamos começar a perceber o que realmente está acontecendo.

Movimento de defesa, não de ataque

O vírus não é um inimigo a ser derrotado?

Midiaticamente sim, inclusive em um nível individual, como qualquer outra doença, mas socialmente não o vejo tão claramente. Estamos em casa não tanto para lutar contra ele, mas muito mais para ajudar aqueles que foram atacados. É mais um movimento de defesa, não um movimento de ataque. Esse trabalho é para os cientistas e médicos. Eu não vejo isso como uma luta. Depois, quando tivermos que reconstruir nossa sociedade, aí sim teremos que lutar e derrotar o inimigo.

Como você vê o futuro desta crise? Até onde isso vai?

Existem duas opções. Ou repensamos muitas coisas e tiramos algo positivo disso tudo, ou continuamos iguais e vamos para o abismo. Gostaria de pensar no primeiro, mas acho que estamos indo para o segundo. Agora, além dos conscienciosos e dos idiotas, haverá um grande número de céticos e niilistas e isso é muito perigoso. No momento, não penso no futuro. Isso me serve pessoalmente para verificar que eu estava certa, e que eu sempre tive razão. Que sou visionária etc (risos)…

Como assim?

Nós, os seres humanos somos muito arrogantes e estúpidos. Correndo o risco de parecer elitista, ainda penso o mesmo. Às vezes me parece um episódio de justiça poética. Para nos colocarmos no nosso devido lugar, e vejamos o quão insignificantes somos. Ao pensar que o escapismo é o único caminho. Comportamo-nos como crianças mimadas brincando em um parque e quando a mãe natureza nos repreende não levamos isso a sério, é como quando nos acertam uma bolada na cara e reagimos como se não estivéssemos esperando mas logo esquecemos, porque tudo passa. E continuamos votando nos mesmos idiotas, sendo tão ingratos com o meio ambiente, sacaneando com os animais e consumindo como estúpidos sem questionar nada.

Como o governo espanhol está agindo para enfrentar a crise?

Eu quero acreditar que da melhor maneira. Espero que esteja sendo bem aconselhado por cientistas e profissionais da área. Aparentemente, não existe uma fórmula precisa a julgar pela grande diversidade de critérios que são considerados nos diferentes países da Europa. A verdade é que confio no meu governo. Até porque não tenho outra escolha. Acho que está composto por pessoas aptas e com sensibilidade social. A realidade social da Espanha é diferente da do norte da Europa. Gosto de ouvir meu presidente falar de pessoas e não de números, de crise humana e não de crise econômica.

Como em qualquer grande crise social, os menos favorecidos (trabalhadores, desempregados, autônomos, etc.) são mais gravemente atingidos. O que o governo espanhol está fazendo para proteger esses milhões de espanhóis? Isso é suficiente para a sra. ou é preciso fazer mais?

Eu não sei se estão fazendo o suficiente, nunca parece ser suficiente, mas está fazendo muito. Está apresentando um conjunto de soluções e facilidades para trabalhadores e pequenas empresas, impensáveis em qualquer outro governo. Eu acredito que as medidas que está tomando são justas e necessárias. Só espero que não sejam universais, que a todos os trabalhadores não sejam tratados da mesma forma. A ajuda deve sempre ir de acordo com a necessidade.

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