Augusto Diniz
Augusto Diniz

Dois dias antes de morrer, Paulo Henrique Amorim criticou seleção brasileira

Jornalista foi ao Maracanã no domingo, 7, e comentou o desempenho da equipe de Tite que faturou o título da Copa América diante dos peruanos na capital carioca

Em seu último vídeo – dois dias antes de morrer -, o jornalista Paulo Henrique Amorim critica o desempenho da seleção brasileira e a política nacional | Foto: Reprodução/YouTube

“Mas aqui pra nós, essa selecinha do Tite não merece os aplausos da galera.” A frase é o do jornalista Paulo Henrique Amorim, que se despediu hoje do mundo vítima de um infarto pela manhã no Rio de Janeiro. Aos 77 anos, vivia uma situação diferente do restante da carreira. Foi afastado da apresentação do programa Domingo Espetacular, da TV Record, por motivos ainda não muito claros.

Mas como pudemos ver em seu último vídeo – “Uma pátria sem chuteiras e sem povo” – no canal Conversa Afiada, Paulo Henrique Amorim continuava a atuar, com ou sem o alcance dominical da Record. O canal era um desdobramento do blog que rendeu reconhecimento ao profissional por seu posicionamento político e análise de mundo, como também uma série de processos por quem se sentiu ofendido pelo conteúdo do site que tratava os veículos tradicionais de comunicação como PIG, o Partido da Imprensa Golpista.

No seu último vídeo, publicado no YouTube na segunda-feira, 8, Paulo Henrique Amorim contava as impressões que teve da tarde de domingo, 7, quando voltou ao Estádio Maracanã, no Rio de Janeiro, para assistir à final da Copa América, entre Brasil e Peru, de perto. Viu um futebol que o fez ter saudade dos tempos do escritor Nelson Rodrigues: “É! O Nelson Rodrigues tinha razão. O Brasil já foi a pátria de chuteiras”.

Ao conjugar o verbo ir no pretérito perfeito, logo nos primeiros segundos do vídeo, o profissional deixava claro seu descontentamento com o futebol pouco atraente da seleção brasileira comandada pelo técnico Tite naquela final, mesmo com a vitória por 3 a 1 e o título da competição. Com o livro “O Profeta Tricolor – Cem Anos de Fluminense” (Companhia das Letras, 2002) na mão direita, Paulo Henrique Amorim parecia querer dialogar com a mística futebolística do escritor, dramaturgo e cronista esportivo das superstições clubísticas dos cariocas.

O vídeo, que tem 4 minutos e 9 segundos, é uma narrativa de um passado glorioso e vistoso do futebol brasileiro que não volta mais, dentro e fora dos gramados. Ao relatar sua volta ao Maracanã no domingo, Amorim trata o estádio como “o Maracanã do Serginho Cabral e as suas insuperáveis falcatruas”. É preciso incluir no contexto as obras da reforma da maior arena do esporte no Brasil.

“Eu conheci o Maraca do tempo das chuteiras imortais.” E cita Carlos Lacerda (UDN), o vereador que queria ver as obras do estádio construído para a Copa do Mundo de 1950 nas terras da mesma região que Jacarepaguá, onde o hoje presidente Jair Bolsonaro (PSL) quer um novo autódromo para receber novamente as corridas da Fórmula 1 no Rio. “O Maraca fica na Mangueira, na Tijuca, na Zona Norte. O Carlos Lacerda, o maior dos golpistas, queria que o Maraca ficasse longe. Lá onde ele escondeu os favelados que desalojava. Na Vila Kennedy”, observou.

De Pelé a Bolsonaro
Amorim reforça que, para ele, o Maracanã “está onde sempre esteve: no gol de placa do Pelé”. “Agora, onde um suposto presidente da República tomou uma sonora vaia.” O jornalista faz questão de tratar Bolsonaro como “suposto presidente”. E justifica o motivo pelo qual descreve assim o chefe do Executivo nacional: “Porque tentou faturar a seleção como seu ídolo: o ditador, o general [Emílio Garrastazu] Médici no radinho de pilha”.

Médici foi o terceiro presidente da ditadura militar brasileira (1969-1974). O que mais se aproximou dos jogos de futebol. E, claro, se aproveitou politicamente da conquista da Copa do Mundo de 1970 pela seleção formada por Félix, Carlos Alberto Torres, Piazza, Brito, Everaldo, Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino comandada por Zagallo. E que se dava ao luxo de ter no banco craques com Paulo Cézar Caju, Dadá Maravilha e Edu.

Em suas impressões narradas no vídeo, Paulo Henrique Amorim lembra que o geraldino – e o arquibaldino – foram retirados do futebol com o novo Maracanã de ingressos caros, que custavam na final de R$ 130 a meia-entrada no setor mais barato e R$ 890 a inteira na considerada categoria 1. E é aí que o jornalista poupa o antigo torcedor que suportava o cheiro de mijo da geral, uma estrutura ingrata e desconfortável, para ficar mais próximo ao gramado, por não ter perdido muita coisa. “Mas aqui pra nós, essa selecinha do Tite não merece os aplausos da galera. Do geraldino nem do arquibaldino.”

Esperança?
O profissional aponta para um caminho, mesmo que pareça incerto. “E o que fazer? Torcer para a pátria vestir as chuteiras de novo. E torcer para o povo cantar o hino com entusiasmo.” O vídeo é encerrado com imagens feitas pelo próprio Paulo Henrique Amorim no Maracanã, com boné do Fluminense e óculos escuros, a cantar o Hino Nacional junto com os outros torcedores, antes do início da final da Copa América.

Assim como você, Paulo Henrique Amorim, eu também não sinto o mínimo entusiasmo em ver o Brasil em campo. E não é de hoje! Uma pena que a seleção esteja cada vez mais distante do torcedor, não só do geraldino, mas do povo. E que o futebol tenha se distanciado do encanto do Maracanã do gol de placa do Pelé. Mas que a memória, por mais limitada e traiçoeira que seja, saiba dar o devido destaque aos grandes. E que eles sirvam sempre de exemplo.

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