O “nosso” ditador é bom. O ditador do “nosso” adversário é ruim. Parece que é assim que as interpretações são feitas e vicejam no Brasil.

O presidente do Brasil, Lula da Silva, do PT, parece que não irá à posse dos presidentes eleitos da Colômbia e do Peru.

O colombiano Abelardo de la Espriella e a peruana Keiko Fujimori são de direita, mas não são ditadores.

Os eleitores da Colômbia e do Peru escolheram seus novos dirigentes. Erraram ou acertaram? O tempo dirá. Porém, por antecipação, não se pode dizer que farão maus governos.

Abelardo de la Espriella Foto Reprodução
Abelardo de la Espriella: presidente eleito da Colômbia | Foto: Reprodução

O Chile se tornou antidemocrático por ser gerido por um presidente de direita, depois de ter sido administrado, por vários anos, por presidentes de esquerda? Não. O país dos poetas Gabriela Mistral e Vicente Huidobro (seguramente, o maior poeta chileno, ao lado de Nicanor Parra) permanece democrático, com a direita ou esquerda no poder.

O histórico de Keiko Fujimori é ruim mais por causa do pai, Alberto Fujimori (1938-2024) — derrotou o escritor Mario Vargas Llosa —, que fez um governo tão ruim quanto violento. Resta verificar o que fará, estando no poder, pelo povo do país do poeta César Vallejos.

A rigor, não espero grande coisa de Keiko Fujimori. Porém, se não for bem, os eleitores peruanos poderão trocá-la por outro político. Oxalá, a peruana não se aventure pela via ditatorial.

O entorno do presidente Lula da Silva, do PT, teria recomendado que não vá à posse de Keiko Fujimori e Abelardo de la Espriella. Se não for, demonstrará que governa, não em nome de seu país, e sim de uma ideologia, a de esquerda

A Abelardo de la Espriella é um típico populista, no caso de direita. Dos mais bravateiros. Mas, se apenas o poder revela o político — que, por vezes, vai sendo moderado pelas agruras da realidade (não foi o caso, claro, de Jair Bolsonaro) —, como sugeriu V. S. Naipaul, no livro “Os Mímicos”, é preciso observar o que fará no governo.

Keiko Fujimori presidente eleita do Peru
Keiko Fujimori: presidente eleita do Peru | Foto: Reprodução

Keiko Fujimori e Abelardo de la Espriella podem não ser grande coisa, mas foram eleitos pelo povo de seus países. Os eleitores têm o direito de escolher — mesmo quando o fazem “erradamente” — aquele (ou aquela) que avalia como melhor para si e para a sociedade. Afinal, espera-se, são maduros e responsáveis.

O entorno do presidente Lula da Silva, do PT, teria recomendado que não vá à posse de Keiko Fujimori e de Abelardo de la Espriella. Se não for, demonstrará que governa, não em nome de seu país, e sim de uma ideologia, a de esquerda.

Lula da Silva é presidente de todos os brasileiros. Por isso, deveria ir à posse, mesmo que isto contrarie sua ideologia de esquerda.

(Sim, o petista-chefe é de esquerda. Mas não é comunista. Nem todo político de esquerda é comunista — é o caso do red que formou seu credo a partir do sindicalismo, da Igreja Católica e dos intelectuais da USP, da PUC e da Unicamp.)

Vale insistir num ponto: Keiko Fujimori e Abelardo de la Espriella foram eleitos, são de direita, mas não são ditadores. Aliás, ainda nem estão no poder.

A direita que caminha pelas vias extremas representa um risco para a democracia. Caso do bolsonarismo no Brasil. Tal direita merece crítica e repúdio. Trata-se da direita que pensa em golpe e, por consequência, em ditadura — o absurdamente inominável. Não há e nunca houve nenhuma ditadora boa. Todas são nefastas e devem ser combatidas.

A ditadura cruenta da Nicarágua

Parte da esquerda brasileira, que inclui setores do PT — notadamente os que não comungam o ideário social-democrático de Lula da Silva —, defende o governo de Daniel Ortega na Nicarágua.

Toda ditadura é amoral. Mas há aquelas que são mais amorais, que não aceitam nenhum limite à sua amoralidade. É o caso da ditadura da Nicarágua.

Daniel Ortega da Nicarágua 1
Daniel Ortega: presidente-ditador da Nicarágua | Foto: Reprodução

Daniel Ortega é presidente e sua mulher é “copresidente” — o que é isto, não se sabe direito (ela já foi vice-presidente). Significa, isto sim, que os dois são ditadores. Criaram uma dinastia de esquerda, que nem compartilham mais o poder.

Como se estivesse aprovando o seu AI-5, Daniel Ortega decidiu que “seu” país não terá mais eleições. Do Inferno, na companhia de Lúcifer, Anastacio Somoza, de direita, está com uma inveja danada do “filho” do sandinismo

Ióssif Stálin, ditador da União Soviética, não confiava em ninguém. Ióssif confiava em Stálin e este confiava naquele. Pois Daniel Ortega só confia em Rosario Murillo e vice-versa.

Agora, como se estivesse aprovando o seu AI-5, Daniel Ortega, o Stálin da Nicarágua, decidiu que o país da excelente escritora Gioconda Belli — perseguida, exilou-se — não terá mais eleições. Do Inferno, na companhia de Lúcifer, o anjo caído, Anastacio Somoza, de direita, está com uma inveja danada do “filho” do sandinismo.

Gioconda Belli escritora
Gioconda Belli, escritora: perseguida pelo governo ditatorial do presidente Daniel Ortega, perdeu seus bens e até a nacionalidade nicaraguense | Foto: Reprodução

O governo de Anastacio Somoza era uma ditadura cruenta. De direita. O governo de Daniel Ortega é uma ditadura cruenta. De esquerda. Nem os padres da Igreja Católica escapam da persecução estatal. Intelectuais e jornalistas moderados, de esquerda e de centro, estão saindo do país. Para não serem encarcerados ou, quem sabe, assassinados.

Cadê, da parte de Lula da Silva, uma condenação veemente ao regime de Daniel Ortega? Não vi. Não li. Se alguém viu, me envie.

Cubanos criticam ditadura que Lula apoia

Cuba é uma ditadura cruenta. Desde Fidel Castro. Nos tempos atuais, o presidente é Miguel Díaz-Canel. Talvez possa ser dito que é o copresidente e Raúl Castro o presidente efetivo.

É quase inacreditável, mas, aos 95 anos, Raúl Castro ainda manda em Cuba e mantém as Forças Armadas sob controle absoluto. É um mestre titereiro. Miguel Díaz-Canel é o preposto.

Raúl Castro, Lula da Silva e Miguel Díaz: aliados políticos | Foto: Reprodução

O governo de Lula da Silva, que é democrático e defende a democracia, em nenhum momento critica a ditadura cubana. É um — grave — paradoxo político.

Em 2025, entraram mais cubanos do que venezuelanos no Brasil. Em Goiás, há dezenas de cubanos — muitos deles trabalhando em supermercados, como Assaí e Machadão. Num deles, na padaria, trabalha uma jovem formada em Medicina (ainda não tem registro para clinicar no Brasil).

Os cubanos radicados em Goiás têm boa formação educacional e são críticos viscerais do regime comunista de Cuba. Eles ficam estupefatos quando ouvem brasileiros dizendo que querem visitar o país de Lezama Lima, Virgilio Piñera e Wendy Guerra e que o sistema de saúde de lá é “perfeito”.

De cara, os cubanos deploram a ditadura, o Estado policial, e a dificuldade para comprar alimentos. Sobre saúde, garantem que o sistema deteriorou. As dificuldades são tantas — falta tudo (medicamentos básicos, como antibióticos) que os médicos regrediram quase ao “curandeirismo”. Todo médico acaba mais sendo sanitarista ou clínico geral. Receitam? Ora, não há medicamentos. Exceto se parentes ou amigos enviam de outros países, como Estados Unidos e Brasil.

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Lezama Lima: grande escritor cubano que foi perseguido pelo regime de Fidel Castro | Foto: Reprodução

Os cubanos admitem que não ganham muito no Brasil, mas estão “contentes”. Porque têm dinheiro e podem comer o que quiserem e quando quiserem. Podem circular livremente e não são vigiados. Todos os cinco com os quais conversei são negros.

Os cubanos dizem que, vivendo no Brasil, têm um futuro à vista e podem ajudar seus parentes que ficaram em Cuba. “Todos querem sair, menos aqueles que privilegiados pelo regime”, conta um cubano.

Se Cuba vive sob ditadura, e se as pessoas querem escapar de lá — transferindo-se inclusive para o Brasil —, por que o governo de Lula da Silva não faz uma crítica ao regime de Miguel Díaz-Canel e Raúl Castro? Há, por assim dizer, uma irmandade com Cuba (estou entre os que aprovam ajuda humanitária). O país inclusive deve milhões (talvez bilhões) de reais e não paga ao país do petista-chefe.

Então, repetindo o que se disse no início, há, para a esquerda petista, uma ditadura boa — a de Cuba (a de Nicolás Maduro, na Venezuela, também não era desaprovada) —, a de esquerda, e há uma ditadura ruim, a de direita. Aliás, mesmo quando não são ditaduras, os governos de direita são execrados (eu também abomino regimes de direita que são reacionários e, sobretudo, golpistas e, assim, buscam minar a democracia).

Javier Milei não governa sob ditadura, mas o fato de avaliar que o sucesso do mercado vai resolver, direta ou indiretamente, os problemas dos pobres não me agrada. Estive duas vezes na Argentina, no ano passado, e nunca tinha visto o país tão miserável. Mas o presidente argentino foi eleito, o que faz uma diferença enorme.