Euler de França Belém
Euler de França Belém

Diplomata lança “O Livro Negro do Comunismo no Brasil”

A história do golpismo e do stalinismo das esquerdas brasileiras é pouca contada pelos historiadores. Prevalece uma visão heroica

Há quem acredite que comunistas são advogados renhidos da democracia. Certo, quando estão na oposição – quando não estão no poder –, os comunistas, para abrir espaço para seus projetos tático-estratégicos, se tornam apologistas da democracia.

Mas comunistas não veem a democracia como valor universal, e sim como “etapa” para alguma coisa, quer dizer, para o comunismo, que, ao se tornar poder, expurga a democracia. Carlos Nelson Coutinho, intelectual de esquerda respeitável, escreveu um livro, “A Democracia Como Valor Universal”, no qual sugere que a democracia é um fim, não é uma etapa. Não é o que pensam – ou pensavam – os comunistas.

Gustavo Henrique Marques Bezerra: autor de uma pesquisa exaustiva sobre o comunismo no Brasil | Foto: Facebook

Em 1935, o Brasil não vivia sob ditadura, mas é possível qualificar o governo do presidente Getúlio Vargas de semi-autoritário (entre 1937 e 1945, era uma ditadura totalitária, mas não tão cruenta quanto a nazista, sobretudo, e a fascista). Os comunistas ligados a Luiz Carlos Prestes e Olga Benario, bancados pela União Soviética de Óssip Stálin, decidiram dar um golpe de Estado e se deram mal. Acabaram presos. A alemã Olga Benario foi deportada para a Alemanha de Adolf Hitler e, infelizmente, morreu num campo de concentração nazista. (Prestes autorizou a execução de Elza Fernandes porque temia-se que fosse espiã da polícia. Não era. Mas quase ninguém fala disso. O jornalista Sérgio Rodrigues publicou um livro corajoso sobre o assunto-tabu, “Elza, a Garota: A História da Jovem Comunista que o Partido Matou”.)

Luiz Carlos Prestes: homem de Stálin no Brasil, entre as décadas de 1930 e 1940 | Foto: Reprodução

Os comunistas de 1935, os da Intentona Comunista, não queriam arrancar Getúlio Vargas do poder para instalar uma democracia plena. Na verdade, planejavam retirá-lo do poder para implantar uma ditadura comunista no país – sob inspiração de Stálin, um dos mais cruéis assassinos da história, tendo mandado matar de 25 milhões a 30 milhões de pessoas, única e exclusivamente por discordarem dele. Aliás, muitos foram mortos por pura paranoia, porque nem eram adversários de Stálin e do regime que assumiu o poder em outubro de 1917, com Lênin na linha de frente.

Depois de liderar a Coluna Prestes, um movimento militarista de cunho praticamente messiânico, Luiz Carlos Prestes se tornou comunista e voltou ao Brasil, na década de 1930, devidamente catequizado pelo Comintern, organização dirigida por asseclas de Stálin, como o búlgaro Georgi Dimitrov. Prestes seria o Stálin patropi. Mas, como não soube avaliar a correlação de forças – dado que era voluntarista, pecadilho que comunistas rejeitam –, acabou preso pela polícia de Getúlio Vargas. Mais tarde, ante a tática do “mal menor”, aliou-se a Getúlio Vargas (que entregou sua mulher aos nazistas) contra a UDN de Eduardo Gomes, Juarez Távora e Carlos Lacerda.

Carlos Marighella: o líder da ALN | Foto: Reprodução

Em 1962, a esquerda se dividiu. De um lado, ficou o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão, e, de outro, o Partido Comunista do Brasil (PC do B). O primeiro defendia um caminho pacífico para o socialismo, com “etapas necessárias”. O segundo, adepto da China e, depois, da Albânia – e defensor do legado de Stálin –, defendia a luta armada.

Depois do golpe civil-militar de 1964, as esquerdas tradicionais se atomizaram. O PCB continuou moderado, avaliando que a luta armada mais fortaleceria do que enfraqueceria a ditadura. O PC do B enviou jovens, quase meninos, para organizar um campo guerrilheiro no Sul do Pará e Norte de Goiás (hoje, Tocantins). Isto já em 1966. O grupo, liderado por João Amazonas, Osvaldão Orlando da Costa e Maurício Grabois, acabou descoberto em 1972 e, em 1974, estava inteiramente dizimado. Era uma guerra entre os comunistas e as Forças Armadas. Não era uma brincadeira. Mas é preciso admitir que, a partir de determinado momento, com pessoas presas e não mais capazes de reagir, os militares começaram uma matança, o que merece a qualificação de barbárie e genocídio. Morrer na batalha é uma coisa – tem sua lógica –, mas ser morto, depois de capturado e não ser capaz de reação, é assassinato.

Carlos Eugênio Paz, líder da ALN, admitiu que guerrilha recebeu dinheiro até da Coreia do Norte | Foto: Reprodução

O PC do B pretendia a retomada da democracia, com sua Guerrilha do Araguaia? A história contada pelos comunistas sugere que sim. Mas isto é fake news. Os comunistas pretendiam derrubar a ditadura para substitui-la por outra ditadura – só que de esquerda. A luta pelo retorno da democracia era, a rigor, uma batalha de políticos pacíficos – como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães –, quase sempre ridicularizados pelas esquerdas.

Outros ramos da esquerda – Ação Libertadora Nacional (ALN – liderada por Carlos Marighella), MR-8 (do capitão Carlos Lamarca) e VAR-Palmares, entre outros – se organizaram também em núcleos guerrilheiros. O objetivo de tais grupos era derrubar a ditadura civil-militar e, claro, instalar outra ditadura no país – só que de esquerda. As Forças Armadas, que não queriam “entregar” o poder, reagiram rapidamente e, em pouco tempo – inclusive com o apoio de esquerdistas, como o Cabo Anselmo (e outros menos citados, como Gilberto Prata) –, destruíram as guerrilhas urbana e rural.

Os guerrilheiros brasileiros receberam dinheiro de Cuba e até da Coreia do Norte (a história foi revelada por Carlos Eugênio Paz, o Clemente, último comandante da ALN).

A história cristalizada pelas esquerdas sugere que os guerrilheiros estavam, ao lutar contra a ditadura dos militares e de muitos civis, promovendo a volta da democracia ao Brasil. Nada disso é verdadeiro. Mas fica evidente que, perdendo o combate, tais esquerdas ganharam o debate histórico. Tanto que a luta pacífica pelo retorno à democracia é muito menos pesquisada do que a batalha dos guerrilheiros.

Nos combates ocorridos entre o fim da década de 1960 e início da década de 1970, militares e guerrilheiros mataram várias pessoas. Os mortos da esquerda são lembrados de maneira gloriosa. Entretanto, os que foram mortos pela esquerda nem são lembrados – e são muitos, vários deles inocentes, como guardas de bancos. Tais assassinados não têm a história para ampará-los (foram excluídos). Tanto que suas famílias não têm direito a indenizações.

Por que isto? Como a esquerda fala em nome do “bem da humanidade” parece que lhe é facultado cometer as maiores atrocidades. O presente “ruim” afinal levará a futuro “radioso”. O comunismo, a “pátria” dos iguais, é o nirvana das esquerdas. Como notou o filósofo italiano Norberto Bobbio, os meios corrompem os fins. Quem mata em nome de um futuro paradisíaco – ou percebe a democracia como etapa (e não deixa de ser curioso como, no momento, a esquerda está preocupada com a crise da democracia) –, sacrificando os indivíduos do presente, não constrói paraíso algum. Stálin e seu discípulo chinês, Mao Tsé-tung, cometeram as maiores atrocidades – mataram, juntos, 100 milhões de pessoas – e não edificaram a sociedade perfeita.

Recentemente, o historiador Hugo Studart escreveu um livro seminal sobre a Guerrilha do Araguaia, mas, finalmente, incluindo os militares – cujas vozes se fazem presentes. Trata-se de uma tese de doutorado rigorosa e nuançada – apresentada na Universidade de Brasília (UnB). Engana-se quem avalia que seja a “favor” dos militares. Pelo contrário, mostra, de maneira detalhada, o massacre que cometeram no Araguaia (e revela a cadeia de comando militar, como ninguém havia feito antes, o que possibilita uma melhor compreensão do outro lado da guerra, o das Forças Armadas). Mesmo assim, o livro tem sido “condenado” por desarvorados militantes do PC do B. O motivo é prosaico: o pesquisador ouviu os militares e, por assim dizer, fez uma reforma agrária no tema Guerrilha do Araguaia – democratizando as versões. A história da batalha era “propriedade privada” do PC do B – que a trata como uma coisa heroica, sem contradições (ignora-se inclusive as críticas pioneiras de Pedro Pomar, que pertencia ao partido, mas soube denunciar o equívoco da guerrilha).

João Amazonas, líder histórico do PC do B | Foto: Orlando Brito

Felizmente, para a compreensão da história – que só é história quando se torna inclusiva, quer dizer, quando inclui todos os lados da questão –, a Guerrilha do Araguaia não é mais latifúndio do PC do B e agregados.

Como Hugo Studart, o diplomata Gustavo Marques é um pesquisador corajoso ao lançar “O Livro Negro do Comunismo no Brasil” (Jaguatirica, 872 páginas). Ele já começa a receber “pedradas”, como o doutor pela UnB. Assim como foi estocado, em tempos idos, Osvaldo Peralva, o ex-comunista que publicou um livro devastador sobre os bastidores dos comunistas, “O Retrato” (Três Estrelas, 440 páginas).

Sinopse do livro: “Inspirada em ‘O Livro Negro do Comunismo’, publicado por Stéphane Courtois [e outros] na França em 1997, esta obra, de autoria do diplomata Gustavo Henrique Marques Bezerra, versa sobre a trajetória do movimento comunista e sua influência na vida política e cultural brasileira desde o advento do anarquismo e do marxismo, no final do século 19, até o começo dos anos 1990, com a falência dos regimes comunistas do Leste Europeu. O livro, que tem características monumentais – pois é fruto de mais de 10 anos de intensa pesquisa histórica ampla e minuciosa, em mais de 400 títulos entre fontes primárias (depoimentos, memórias, entrevistas, documentos) e secundárias, nacionais e estrangeiras, e que se divide em seis capítulos, com quase 900 páginas e milhares de notas –, coloca ênfase em fatos geralmente omitidos e/ou pouco explorados pela historiografia brasileira, majoritariamente de esquerda, que revelam o ‘lado obscuro’ dos comunistas e seus aliados no Brasil ao longo do século 20”.

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