Um dos principais jornalistas da BandNews, onde faz as vezes de âncora em dois programas –BandNews FM no Meio do Dia e Jornal da Band –, Eduardo Oinegue virou notícia na semana passada, ao avaliar o relatório Desigualdade S.A, produzido pela organização não governamental Oxfam, que trabalha com busca de soluções para a desigualdade social no mundo.

Indo primeiramente ao levantamento e depois às considerações de Oinegue: segundo a apuração da ONG, somente desde 2020 a riqueza dos cinco maiores bilionários do mundo aumentou em 114%. Já a renda de 60% da população mundial diminuiu. São 5 bilhões de pessoas nessa condição. Entre outros dados de seu relatório, a Oxfam faz duas anotações muito importantes: se tudo seguir o mesmo ritmo, em dez anos a Terra conhecerá seu primeiro trilionário do mundo – ressaltando que esses valores são sempre baseados em dólar; e, pelo mesmo cenário, só será possível acabar com a pobreza global daqui a 230 anos.

A pesquisa foi publicada na segunda-feira, 15, exatamente no começo do Fórum Econômico Mundial, na suíça Davos, onde anualmente se reúne a elite do PIB do planeta. Sete das dez maiores empresas do globo têm um bilionário como CEO ou principal acionista. Somadas, elas valem US$ 10,2 trilhões, o que dá mais do que o PIB de todos os países da África e da América Latina juntos.

Analisando os dados, a diretora-executiva da Oxfam Brasil, Katia Maia, afirmou: “As empresas estão canalizando a maior parte da riqueza gerada no mundo para uma ínfima parcela da população, que já é super-rica. E também estão canalizando o poder, minando nossas democracias e nossos direitos. Nenhuma empresa ou indivíduo deveria ter tanto poder sobre nossas economias e nossas vidas. Ninguém deveria ter um bilhão de dólares!”. Nada que não resuma, por exemplo, o perfil de Elon Musk, um dos integrantes da lista dos cinco.

E aqui passamos à visão de Oinegue. No vídeo da Rádio BandNews onde comenta o tema, ele já abre dizendo que vai “falar de uma notícia polêmica” e que “saiu na imprensa para produzir indignação e confusão”. E passa a avaliar que o estudo culpa os magnatas, insinuando que os maiores bilionários do mundo se enriqueceram às custas da pobreza mundial. Para o jornalista, isso é uma “visão distorcida da economia”.

Oinegue poderia simplesmente não ter responsabilizado o relatório em si, que trabalha com dados. Mas em seu próprio site, o que a entidade escreveu como (longo) título do estudo? “Riqueza dos cinco homens mais ricos do mundo dobrou desde 2020, enquanto a de 5 bilhões de pessoas diminuiu, revela novo relatório da Oxfam”.

Talvez desse então, ter escolhido como alvo de suas críticas as manchetes escolhidas pelos veículos de comunicação. Mas quais foram elas, em alguns dos principais veículos da imprensa nacional? No Valor Econômico, referência do jornalismo na área: “Riqueza dos cinco maiores bilionários dobra em três anos, diz relatório”; na Folha de S.Paulo: “Riqueza dos cinco maiores bilionários dobra em três anos, diz relatório”; a “comunista” Carta Capital diz: “Cinco homens mais ricos do mundo mais que duplicaram suas fortunas desde 2020, diz Oxfam Brasil”; Money Times: “Riqueza dos 5 maiores bilionários dobrou em 3 anos, enquanto 60% do mundo ficou mais pobre, mostra Oxfam”; UOL: “Mundo terá 1º trilionário em 10 anos; conheça os 5 bilionários no páreo”; Estadão: “Fortuna dos cinco homens mais ricos do mundo dobrou desde 2020, segundo relatório da Oxfam”; site da rede CNN: “Desde 2020, cinco mais ricos do mundo dobraram fortunas e 5 bilhões ficaram mais pobres, diz Oxfam”; e o Brasil de Fato, portal de esquerda: “Cinco mais ricos do mundo dobram patrimônio em 3 anos enquanto 60% ficam mais pobres”.

O que se depreende das manchetes colhidas a partir do estudo é que há um olhar predominante na riqueza. Todas destacam as megarriquezas e apenas três também falam da miséria. O UOL chega a incentivar uma “corrida da fortuna”, colocando a lista dos “bilionários no páreo”.

Ao ver o vídeo, que – é bom repetir – fala de um estudo que trabalha sobre dados, percebe-se que o indignado, na verdade, é o próprio jornalista. Oinegue chega a citar o brasileiro Jorge Paulo Lehman e quase “advoga” em nome de ele ter liberdade de construir sua fortuna sem essas “perseguições”. Ele diz que trabalhos como o da Oxfam deveriam “provocar reflexões sobre como promover a reinserção da população mais pobre no mercado de trabalho”, buscando soluções para melhorar a qualidade de vida da população, e não gerar uma rivalidade entre “ricos e pobres”. Ora, falar que bilionário não deveria existir não significa desejar a morte dos super-ricos, mas deixar claro que a existência desse excesso de riqueza é um distúrbio e, portanto, não deveria ocorrer, em um mundo hoje que gerou tanta riqueza a mais nos últimos cem anos.

E Oinegue tenta “consolar” os pobres: diz que a mortalidade infantil reduziu drasticamente desde o início do século passado, o que é fato. A questão é: as conquistas da ciência realmente melhoraram a vida na Terra… mas se todo o mundo tem acesso a uma vacina, quantos podem tratar um tumor de forma eficiente?

Se os bilionários mais do que dobraram seu patrimônio em três anos, enquanto mais da metade da população mundial ficou mais miserável era flagelada com uma pandemia, algo está errado nisso. E o que se encancara é, sim, o aumento da desigualdade social, justamente porque as riquezas totais crescem, mas evidentemente mal distribuídas. Isso não é opinião, é dado.

Então, a conclusão a que se chega sobre a crítica do jornalista: a “perseguição” aos ricos está, talvez, na cabeça do próprio Oinegue.