Euler de França Belém
Euler de França Belém

Demissão coletiva de editores da Época abre discussão sobre limites do jornalismo

Reportagem sobre a mulher de Eduardo Bolsonaro derruba Daniela Pinheiro, Plínio Fraga e Marcelo Fraga. A equipe foi repreendida, publicamente, pelo Grupo Globo

Há uma frase famosa da jornalista Janet Malcolm, da revista “New Yorker”: “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”. Está no livro “O Jornalista e o Assassino” (Companhia das Letras, 176 páginas, tradução de Tomás Rosa Bueno).

O que é o jornalismo? Talvez possa ser resumido assim: um recorte da realidade que, em geral, é apresentado como a realidade toda pelos jornalistas. Deslocado para cobrir um fato, o repórter aparece, de repente — um corpo estranho —, observa e ouve as pessoas, envolvidas ou não. Em seguida, volta à redação e escreve sua reportagem, como se estivesse apresentando à sociedade a verdade, quer dizer, os fatos. Algumas vezes, os fatos, quando a investigação é mais extensa e precisa, desmentem reportagens que resultam em manchetes espetaculares e geram audiência fenomenais. A Escola Base é o exemplo brasileiro mais conhecido. Fiados em investigações policiais mal alinhavadas e em depoimentos emocionais, jornalistas, alguns deles sérios, “sentenciaram” que, sim, proprietários do colégio haviam cometido abuso contra crianças. Você leu certo: “Sentenciaram”. O jornalismo, de alguma forma, consegue fundir, em determinados textos, a figura do policial, do promotor, do juiz e, claro, do repórter. A história da Escola Base era outra, mas, quando esclarecida, a vida de seus proprietários havia sido destruída.

No caso da Escola Base, resta culpar a polícia e uma fonte, digamos, exaltada. Na verdade, a imprensa não pode eximir-se de sua responsabilidade. Há jornais que fizeram mea culpa por terem apoiado a ditadura civil-militar, depois de seu fim, mas nunca assumiram, editorialmente, o erro grave sobre os donos do colégio. O jornalista Emílio Coutinho relata a história do massacre no livro “Escola Base — Onde e Como Estão os Protagonistas do Maior Crime da Imprensa Brasileira” (Editora Flutuante, 136 páginas). Observe que, no lugar de “erro”, o autor escreve “crime”. E crime é, não resta a menor dúvida.

Há outro aspecto do jornalismo que é seu caráter invasivo — daí a frase de Janet Malcolm. O repórter é uma figura sedutora, mesmerizante. Ouve os indivíduos, às vezes de maneira detida, e depois publica uma síntese, nem sempre precisa, do que colheu. Há a ressalva de que depoimentos devem ser confrontados, na necessária busca do contraditório, e daí, por vezes, o resultado, a reportagem, não agrada um lado ou os dois lados. Códigos de ética internos são feitos para “regular” os limites do jornalismo. Mas nem sempre são cumpridos. A grande reportagem às vezes surge exatamente do atropelamento das regras de boa conduta. No momento, discute-se a demissão dos editores da revista “Época” — Daniela Pinheiro (diretora de redação), Plínio Fraga (autor de excelente biografia de Tancredo Neves) e Marcelo Coppola.

A “Época” nasceu inspirada na “Veja”, seria sua principal concorrente, com a estrutura do Grupo Globo. Mas, mesmo contratando jornalistas consagrados, como Augusto Nunes e Paulo Nogueira, ambos egressos da revista do Grupo Abril, “Época” nunca conseguiu competir de igual para igual com a “Veja”. Tornou-se o SBT (ou TV Record) do impresso: a eterna vice-campeã, superando tão-somente a “IstoÉ”, esta, sempre carente de recursos financeiros e, portanto, de estrutura. Com a chegada de Daniela Pinheiro, a publicação, de cara, “desvejou-se” e “piauizou-se”. Quer dizer, se tornou uma espécie de segunda “Piauí”, com reportagens mais bem elaboradas. Trata-se de uma boa revista, mas perdeu espaço em termos de cobertura semanal.

Heloísa Bolsonaro

Recentemente, a “Época” publicou a reportagem “O coaching online de Heloísa Bolsonaro: as lições que podem ajudar Eduardo a ser embaixador”, assinada pelo repórter João Paulo Saconi.

Deixando de se identificar como repórter, Saconi participou de cinco sessões com a coach e psicóloga Heloísa Wolf Bolsonaro — via webcam. Seu marido, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, ficou irritado e informou que iria processar o repórter e os editores.

A revista alegou que não extrapolou os limites éticos do jornalismo. Mas o Conselho Editorial do Grupo Globo manifestou-se contrário à posição da equipe de Daniela Pinheiro.

O Grupo Globo admitiu que a revista havia cometido um “erro”. Na sua opinião, Heloísa Bolsonaro não deveria ter sido percebida como “pessoa pública”. Por levar uma vida discreta, sem envolvimento com a atuação do marido, a coach não deveria ter sido exposta, concluiu a cúpula global.

O código de ética do Grupo Globo enfatiza: “A privacidade das pessoas será respeitada, especialmente em seu lar e em seu lugar de trabalho. A menos que esteja agindo contra a lei, ninguém será obrigado a participar de reportagens”. Adiante, acrescenta: “Pessoas públicas — celebridades, artistas, políticos, autoridades religiosas, servidores públicos em cargos de direção, atletas e líderes empresariais, entre outros — por definição abdicam em larga medida de seu direito à privacidade. Além disso, aspectos de suas vidas privadas podem ser relevantes para o julgamento de suas vidas públicas e para a definição de suas personalidades e estilos de vida e, por isso, merecem atenção. Cada caso é um caso, e a decisão a respeito, como sempre, deve ser tomada após reflexão, de preferência que envolva o maior número possível de pessoas”.

Em si, a reportagem é leve, não é sensacionalista nem tem como objetivo destruir a imagem de Heloísa Bolsonaro; pelo contrário, tornou-a mais conhecida e, certamente, será ainda mais procurada por “alunos”. Mas, a se aceitar as regras do Grupo Globo, foi exposta, sem autorização, desnecessariamente.

A decisão do Grupo Globo, ao desautorizar os editores da “Época”, de maneira pública, também expôs os jornalistas. Se pediram demissão, porque não se sentiram amparados, estão corretos. Entretanto, se foram demitidos, pode-se falar em tempestade em copo d’água. O fato poderia até ser motivo para advertência, porém, dado o histórico de seriedade de Daniela Pinheiro, Plínio Fraga e Marcelo Coppola, não para demissão. É provável que, se Heloísa Bolsonaro não fosse a nora do presidente Jair Bolsonaro, o Grupo Globo nem teria se manifestado, aceitando a explicação plausível de seus editores.

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