Euler de França Belém
Euler de França Belém

Cursinho indireto sobre o Brasil a partir de livros fundamentais

Machado de Assis, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa são intérpretes do Brasil tanto quanto Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Darcy Ribeiro e Raymundo Faoro

Acatando sugestão do amigo Luiz Afonso Costa de Medeiros, elaborei uma lista mínima de livros fundamentais para compreender o Brasil. Como toda lista, esta é cheia de lacunas. Por exemplo, deveria ter citado Monteiro Lobato e José Lins do Rego. Recomendo, antes de um passeio pelos gênios da humanidade, um turismo pelas ideias dos brasileiros. A leitura dos livros poderá revelar a alma brasileira. Trata-se, lógico, de uma lista mínima, mas de conteúdo múltiplo. As obras podem ajudar na busca do Brasil profundo.

1 – MACHADO DE ASSIS é o clássico brasileiro por excelência, a matriz de tantos outros autores, mesmo daqueles que beberam na prosa modernista de Joyce e Faulkner. É fundamental para se perceber como um autor pode escrever tão bem e pensar o país por intermédio da literatura. Seu manejo da Língua Portuguesa, como a torna mais flexível e rica, impressiona. É possível dizer que Machado de Assis recria o português, tornando-o, definitivamente, uma língua (mais) brasileira. Não se deve morrer antes de ler pelo menos três livros do autor fluminense:

A – “Dom Casmurro”. Romance que, ao fazer pensar, praticamente obriga o leitor a se tornar participante, a se envolver com a história, ora tomando partido, de Capitu ou Bentinho, ora pondo-se em dúvida. O leitor que duvida, inclusive do narrador, é o leitor machadiano por excelência.

B – “Quincas Borba”. É outro romance maior de Machado de Assis, claro que “espremido” entre as potências de “Dom Casmurro” e “Memórias de Brás Cubas”. Ainda assim, um livro notável, muitíssimo bem escrito.

C – “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Talvez o maior romance de todos os tempos do Brasil. Este romance alcançou fama internacional. Merecidamente. A Língua Portuguesa “canta” e “fala” nesta opus magna. Sutilmente, Machado de Assis dialoga com outros mestres, como o irlandês Laurence Sterne.

2 – “Os Sertões”, de EUCLIDES DA CUNHA, é um livro que, ao explicar um fato, a luta dos militares contra os religiosos de Antônio Conselheiro, no sertão da Bahia, explicou o Brasil — tornando-se uma obra-prima tripla. Do ponto de vista jornalístico, histórico e literário. O livro encantou vários autores estrangeiros como o escritor peruano Mario Vargas Llosa, que o usou para escrever um romance, “Guerra no Fim do Mundo”, e o prosador húngaro Sándor Márai, autor de “Veredicto em Canudos”.

3 – “Minha Formação”, de JOAQUIM NABUCO. Livro instrutivo sobre como um homem inteligente e participativo formou-se intelectualmente e, a partir daí, pôde pensar (sobre) o Brasil. É um livro importante para jovens perceberem como se deu a formação de um intelectual brasileiro com grande sensibilidade política. Este monarquista exemplar lutou contra a escravidão e foi embaixador no Brasil nos Estados Unidos. Era conhecido como “Quincas, o Belo”. De preferência, ler a edição da Editora 34, com ótima apresentação de Alfredo Bosi.

4 – “Raízes do Brasil”, de SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA. Um livro fundamental, um clássico, para se entender a formação do país e de seu povo. O autor explica até o nosso jeitinho, o do homem cordial, avesso às instituições. Traz uma análise estupenda do patrimonialismo.

5 – “Casa Grande & Senzala”, de GILBERTO FREYRE. Um livro crucial para entender a história do país e a alma do brasileiro. O autor põe o Brasil  — sua formação — diante dos nossos olhos. Um clássico, muito bem escrito. Freyre era sociólogo, criterioso e rigoroso, mas escrevia como o melhor dos melhores escritores.

6 – “Formação do Brasil Contemporâneo”, de CAIO PRADO JUNIOR. Uma das primeiras análises marxistas da história do Brasil. Um clássico que, como tal, nunca fica datado, apesar, é claro, da existência de livros posteriores que fizeram análises mais densas e precisas.

7 – “O Povo Brasileiro — A Formação e o Sentido do Brasil”, de DARCY RIBEIRO. O livro do antropólogo é um clássico e nos ajuda a compreender porque somos de um jeito e não de outro.

8 – O brasilianista THOMAS SKIDMORE escreveu um livro importante mas pouco comentado: “Preto no Branco — Raça e Nacionalidade no Pensamento Brasileiro”. Extremamente útil para compreender o Brasil do passado e, por isso mesmo, o Brasil do presente. Skidmore tem um livro muito bom sobre a história recente do país: “Brasil: De Getúlio a Castello” (a edição da Companhia das Letras atualiza e corrige a da Paz e Terra).

9 – GRACILIANO RAMOS era de esquerda, mas escapou às algemas do realismo socialista, consagrando-se como um dos mais importantes escritores brasileiros. Seus livros são literatura, é claro, mas são, ao mesmo tempo, um descortinar do Brasil real, com suas misérias e belezas agrestes. Lista mínima:

A – “Vidas Secas” é um dos mais relevantes romances brasileiros. Conta a história de retirantes e, paralelamente, cita um animal, a cachorra Baleia (o nome, por si, é sugestivo: um animal esquálido com nome de um bicho marinho conhecido por seu tamanho e corpanzil). Observe-se também como o Velho Graça escreve bem. A frase parece seca, mas não é árida, não. É, na verdade, precisa. Lembra, e não vagamente, a poesia, só que como prosa, de João Cabral de Melo Neto.

B – “S. Bernardo”. Um romance feminista? Também, mas muito mais do que isto. É um livro obrigatório para todos os brasileiros, mas as mulheres, sobretudo, devem lê-lo com interesse.

C – “Memórias do Cárcere”. Não é literatura, mas é tão bem escrito quanto os demais livros de Graciliano Ramos. São suas memórias da prisão no governo de Getúlio Vargas. Um livro notável.

10 – “Os Donos do Poder”, de RAYMUNDO FAORO, é um livro brilhante. Livro de sociólogo, mas também de pensador da história do Brasil. Quem quiser saber por que o Brasil se tornou o que é hoje deve ler este livro ambicioso. Ele “explica” Sarney e, também, Lula da Silva. Quero dizer: explica a mentalidade que gerou Sarney e Lula. Sem a necessidade, claro, de citá-los.

11 – “Grande Sertão: Veredas” e “Sagarana”, de GUIMARÃES ROSA, são dois livros — o primeiro romance e o segundo de contos — decisivos na formação e renovação da literatura brasileira. À primeira vista, são apenas literatura. São mais do que isto. É uma aventura da linguagem passeando pelo Brasil. A linguagem é o ônibus. Há críticos que percebem “Grande Sertão: Veredas” como uma interpretação do Brasil tão ampla quanto as pesquisas de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.

12 – RACHEL DE QUEIROZ escreveu, ainda garota, um romance importante, um clássico. “O Quinze” é um pequeno e lapidado diamante para o cérebro.

13 – “As Meninas”, de LYGIA FAGUNDES TELLES, é uma obra-prima. A autora é extremamente lúcida ao contar fatos sociais e sensível ao descortinar o mundo feminino. E escreve muito bem.

14 – O goiano HUGO DE CARVALHO RAMOS morreu cedo, mas legou-nos uma obra-prima, “Tropas e Boiadas”. O livro influenciou toda a geração posterior — de Bernardo Élis a Guimarães Rosa.

15 – BERNARDO ÉLIS, prosador goiano, deixou vários livros importantes. Citamos dois: “O Tronco” (um romance sobre a história política de Goiás, envolvendo, entre outras, a família Caiado) e “Veranico de Janeiro” (contos). Trata-se de um autor elogiado por Monteiro Lobato e Guimarães Rosa.

16 – “Perto do Coração Selvagem”, de CLARICE LISPECTOR. Trata-se de uma escritora do primeiríssimo time.

17 – Para conhecer a história da ditadura civil-militar de 1964, recomendo os volumes de ELIO GASPARI: “A Ditadura Envergonhada”, “A Ditadura Escancarada”, “A Ditadura Encurralada”, “A Ditadura Derrotada” e “A Ditadura Acabada”. Elio Gaspari pesquisa como um acadêmico rigoroso e escreve como um jornalista talentoso, com precisão e clareza.

18 – Jovens são iconoclastas por natureza. Portanto, menciono “O Livro dos Insultos”, de HENRY LOUIS MENCHEN. O americano consegue ser inteligente e, ao mesmo tempo, divertido. Ele critica autores consagrados e bate sem dó nem piedade. É o único livro estrangeiro que, por enquanto, cito. Ao lado, é claro, de “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J. D. SALINGER. É uma história adulta sobre um adolescente.

19 — Uma joia da coroa é o livro “Minha Vida de Menina”, de HELENA MORLEY. Eis um livro que, na aparência simples, merece ser mencionado como brilhante. É a história de uma garota, descendente de ingleses, que viveu em Minas Gerais. Todo jovem (e não só) deveria ler este livro encantador.

20 – Poesia não pode ficar de fora. O Brasil tem excelentes poetas. Mas, para começo de conversa, é fundamental ler CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE e JOÃO CABRAL DE MELO NETO.

21 – “História da Riqueza no Brasil — Cinco Séculos de Pessoas, Costumes e Governos”, de JORGE CALDEIRA. É uma ampla revisão da história do Brasil que não se prende à bibliografia. Com uma pesquisa inovadora, o autor derruba mitos por exemplo sobre a República Velha — que foi um período de crescimento e não de estagnação.

Pós-escrito

Depois de conhecer um pouco sobre o Brasil, o jovem pode e deve conhecer outras coisas, como o pensamento de Sócrates, Platão, Aristóteles, Maquiavel, Hobbes, Kant, Schopenhauer e, entre outros, Nietzsche. Além da literatura de Shakespeare, Cervantes, Tolstói, Flaubert, Joyce, Proust, Faulkner, Thomas Mann. Claro que tais autores podem ser lidos ao mesmo em que se lê autores, historiadores e pensadores patropis.

Mas proponho que o leitor jovem tome, antes, um banho de Brasil. Púchkin, depois ampliado por Liev Tolstói, disse que, para conhecer mais adequadamente o universo, é importante conhecer a própria aldeia. Eu diria, até, para o jovem começar pela leitura de Machado de Assis, acrescentando à lista “Memorial de Aires”. Sugiro que, além de se interessar pelo conteúdo das histórias dos livros de Machado de Assis, o jovem observe como ele escreve, a elaboração da frase, como “convoca” e “puxa” o leitor para a leitura. Machado de Assis exige, por assim dizer, que seu leitor seja uma espécie de segundo autor. Ele exige o leitor-participante. Moderno? Moderníssimo.

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