Euler de França Belém
Euler de França Belém

Crônica de Roberto Drummond sobre Reinaldo diz muito sobre patrulha da imprensa contra Neymar

O ex-craque do Atlético Mineiro e o craque do Paris Saint-Germain são vítimas preferenciais das polícias do comportamento

Foto: reprodução

Parte da imprensa espanhola (“El País” na co­mis­são de frente) — quiçá com dor de cotovelo —, às vezes repetida pela im­pren­sa brasileira, está agindo co­mo polícia do comportamento quan­do se trata do atacante Ney­mar, do Paris Saint-Germain e ex-Bar­celona. O jovem está jogando mal e pode ser avaliado por uma úni­ca derrota… para o Real Madri? Na verdade, ele está jogando muito bem. Quanto ao individualismo, craques são assim mesmo: são diferentes, não aceitam a mesmice. Porque sabem que, com um lance, po­dem decidir uma partida e, até, um campeonato. Não é puro futebol-arte — é futebol competitivo também.

Enquadrem Neymar, como po­li­ciais do comportamento, e o Gar­rin­cha e o Pelé que existem nele de­­­saparecerá. Retirem sua alegria, e o amor pela bola sofrerá infarto. A im­pressão que se tem é que, tendo inveja de Neymar, querem arranjar um destino ruim para o menino da bola de ouro. O atacante se diverte e joga bem. O que mais precisa fa­zer? Querem que seja um missionário, um anacoreta. Não dá. Tra­ta-se de um jovem de 25 anos, com os hormônios em dia e di­nheiro farto na conta bancária. Ele pre­cisa viver agora, na melhor fase de sua vida. Não há duas juventudes. Por que parte da polícia do com­portamento quer evitar que viva a sua na plenitude?

O centroavante Reinaldo jogou 14 anos no Atlético, de Minas Ge­rais. Chegou lá menino e, desde ce­do, se tornou o astro do time. Pelé, Só­crates, Toninho Cerezo, Zico e o Brasil — todos o admiravam. Era um craque completo, mas os zagueiros, de uma violência ímpar, abreviaram sua carreira. “Olha, até nis­so eu dei sorte. Se o Reinaldo fos­se fisicamente perfeito, poderia bem ser capaz de me relegar ao se­gundo plano”, disse Pelé.

Reinaldo driblava e chutava bem, sua inteligência tática era fora da média — até a bola, se falasse, o cha­maria de Rei, como todos fa­zi­am. Brilhou tanto no Atlético quan­to na Seleção Brasileira. Em 1982, depois de jogar no Torneio de Paris — o Atlético foi campeão —, a diretoria do Paris Saint-Germain decidiu contratá-lo.

No excelente livro “Punho Cer­ra­do — A História do Rei” (Le­tra­mento, 307 páginas), Philipe Van R. Lima relata: “O presidente do clube francês chegou determinado: colocou duas malas em cima da me­sa, uma com um milhão de dó­la­res para Reinaldo e outra com um milhão de dólares para o Atlé­ti­co. Esse valor era uma grande for­tuna na época”.

O presidente do Atlético, Elias Ka­lil, vetou o negócio. “A proposta é boa, mas ele vale muito mais.” Rei­naldo lamentou, mas continuou jo­gando seu belo futebol. Era tão vi­giado e criticado quanto Neymar. A diferença é que, sendo de es­querda, recebia alguma proteção. Ney­mar, que curte a vida adoidado — sem jamais deixar de jogar um bolão —, mas não tem a ver com os bem-pensantes, é crucificado até mais do que o craque mineiro. Do livro de Philipe Van R. Lima, fi­lho de Reinaldo, recolhi uma crônica do escritor Roberto Drum­mond, publicada em 31 de maio de 1981, no jornal “Estado de Mi­nas”, que serve como uma luva pa­ra o caso de Neymar.

Roberto Drummond diz, em síntese: “Deixe Reinaldo viver!” Tal­vez seja preciso sugerir o mes­mo agora: “Deixe Neymar viver”. Se jogar mal num jogo, perdoe. Se jo­gar mal dois jogos, releve. Se jo­gar mal três jogos, critique. Mas ob­serve tanto seu histórico e os jo­gos seguintes. Pegar leve com Ney­mar tornará leve até quem está pe­gan­do pesado contra o craque que, em Paris, é Reymar. Leia o belo texto de Roberto Drummond:

Anistia para Reinaldo!

É o que hoje venho pedir. Por­que Reinaldo vive numa prisão.
Chega de dizer que Reinaldo não pode patrocinar festas beneficentes.
Que Reinaldo não pode dormir depois das dez da noite.
Que Reinaldo não pode acordar antes das seis da manhã.
Que Reinaldo não pode amar.
Que Reinaldo não pode se entregar a uma furiosa paixão.
Que Reinaldo não pode frequentar uma roda tão alegre.
Que Reinaldo não deve entrar em bares, nem em boites,
Nem em festas.
Chega de ficar vigiando Rei­nal­do.
De querer saber aonde Rei­nal­do vai, com quem vai.
Chega de querer saber por que Reinaldo está tão alegre.
Ou por que, subitamente, Rei­nal­do ficou triste.
Chega de ficar fiscalizando se é mesmo guaraná que Reinaldo tem no copo.
Ou se é uísque que existe no co­po de Reinaldo.
Chega de ficar vigiando os passos de Reinaldo em Ouro Preto, em Barbacena, Juiz de Fora, São Jo­ão Del-Rei, ou no inferno.
Chega de ficar cercando Rei­nal­do com um arame farpado de ou­ro.
Chega de ter as belas e justas e respeitáveis intenções com Reinal­do, belas e justas e respeitáveis in­ten­ções que justificam a invasão da vida privada do jogador.
Chega de fofocar com Reinal­do.
Chega de inventar histórias so­bre Reinaldo.
Chega dos que procuram o Atlé­tico para contar travessuras de Reinaldo.
Olhem: Reinaldo não é mais o baby-craque.
Reinaldo é um homem, dono do seu próprio nariz, e o fato de ser um ídolo não justifica que queiram aprisionar Reinaldo.
Chega de arranjar uma noiva para Reinaldo.
Chega de querer arranjar uma esposa para Reinaldo.
Já basta a existência de centenas de milhares de casamentos arranjados no Brasil e, como não podia dei­xar de ser, em Minas.
Deixem Reinaldo escolher livremente a mulher de sua vida.
Oh, Reinaldo não é mais baby-craque e, além de tudo, tem que ser livre.
Reinaldo tem que ser livre para tudo, menos para uma coisa: estragar seu belo futebol, seu genial fu­te­bol.
Tudo o que afetar o futebol de Reinaldo tem que ser afetado.
Mas isso não quer dizer que ele deva viver em uma prisão dourada.
Eu penso que Reinaldo vive numa encruzilhada: ou ele coloca seu futebol acima de tudo ou acabará perdendo, não só o lugar na seleção brasileira, acabará também entrando num beco sem saída, num beco dramático.
Mas, para isso, Reinaldo não pre­cisa viver numa prisão.
Não precisa abrir mão de prazeres inocentes e nem precisa ser vi­giado como se fosse criminoso.
O que acontece com Reinaldo é que ele, desde que chegou ao Atlé­tico, foi mimado e fiscalizado. Ou­tro dia, Lúcia Helena Guimarães, ex-relações públicas do Atlético e pessoa da minha amizade, estava me dizendo: — O Reinaldo nunca pôde fazer o que os garotos da idade dele faziam. Sabia que até pa­ra ir ao dentista, o Reinaldo não podia ir sozinho, que o Atlético não deixava?
Eu é que levava o Reinaldo ao den­tista.
Dessa maneira, hoje, que Rei­nal­do vive com a família, que tem di­nheiro, fama, e uma vida de rei, ele vive a situação daquele rei da his­tória, um rei que, quando criança, nunca brincou, e que, depois de adul­to, resolver brincar de ser criança.
Aos 16 anos, Reinaldo devia ter saudade dos 14 anos.
Aos 18 anos, Reinaldo deve ter sentido saudados dos 16 anos.
Eu imagino que ele foi acumulando saudades e que hoje, aos 24 anos, tem saudades dos 22, dos 21, dos 20 anos, dos 19 anos, dos 18 anos.
Isso é terrível: então que Rei­nal­do viva sua condição de ho­mem solteiro, livre, com liberdade pa­ra tudo, inclusive para aparecer nas revistas não apenas de futebol.
Minas, essa Minas que eu amo, é uma espécie de presídio.
Minas arma seus filhos de um ma­terial destinado a mudar o Bra­sil, seja no futebol, na política, na mú­sica, na literatura, seja nas finanças.
Mas Minas sempre pune os seus filhos.
Um jogador como Zico, como exemplo, que joga num clube de massas irmão do Atlético, que é o Flamengo, é res­peitado na sua in­di­vi­dua­lidade. E mesmo Zico se ar­ma, co­mo um deus, e forma uma bar­­reira para que não se aproximem dele. Vocês dirão: — Zico não vive nos bares e boates…
Eu direi: — Zico vai a muitos bares e boates, acompanhado da mu­lher e dos amigos, e todos acham natural lá no Rio…
Aqui, já vi pessoas atleticanas e cru­zeirenses se aproximarem de Rei­naldo e falarem, por exemplo, com ele: — Falcão é muito melhor do que você…
Ou: — Você não pode ser com­parado com o Tostão, porque o Tos­tão jogava bem noventa e no­ve por cento dos jogos e você joga bem só um por cento…
Minas é uma terra bela, mas cruel: é como certas mulheres, que pi­cam em pedaços o homem que amam (ainda que se despedacem por dentro).
Minas avisa a seus filhos que es­tão se tornando famosos agredindo-os.
Reinaldo sabe disso: sabe disso na pele e no coração.

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