A crise humanitária é também humana. Em meio ao mais grave episódio de terrorismo envolvendo Israel desde o Holocausto, as redes sociais se tornam palco de outra guerra, a virtual.

No Brasil, isso envolve a polarização de sempre e tem a extrema direita como protagonista, em duas frentes: para atacar o PT e a esquerda, colocando-os como aliados do Hamas; e para se defender, no caso, das acusações por conta dos atos golpistas, comparando a periculosidade dos presos por invadir e depredar os prédios dos Três Poderes aos jihadistas que mataram centenas de inocentes na ação contra os israelenses.

Primeiramente, é preciso falar sobre a postura de ataque coordenado que fica bem evidente. Todos os principais influenciadores – a maioria de políticos com mandato – sempre apresenta os temas de forma muito bem organizada na internet. Durante a semana passada, as fotos de Lula e outras lideranças petistas e de esquerda posadas ao lado de qualquer pessoa árabe (ou mesmo apenas com traços faciais ou vestes características) foram jogadas nas diversas plataformas e espalhadas por aplicativos de conversação.

Grande parte, como sempre, enveredava pelos caminhos das fake news. Notícias falsas atraem porque sempre se constroem em cima de um fato que, no fim, acaba distorcido. Então, para efetivar a “narrativa” – termo que a direita ama usar contra seus adversários –, se baseiam em algo real: há, de fato, uma aproximação entre uma grossa fatia da esquerda brasileira e a causa palestina, bem como Lula e outros petistas, se não mostram grande intimidade, também não têm rejeição às líderes do mundo muçulmano. Desde seu primeiro mandato, o presidente circulou à vontade em mesas com chefes de Estado como Yasser Arafat (Palestina), Muammar Gadaffi (Líbia) e Mahmoud Ahmadinejad (Irã), entre outros. Da mesma forma, aliás, com que esteve com outros governantes ocidentais.

A segunda frente que bolsonaristas buscaram levar adiante dizia respeito à forma de se defender das acusações de terrorismo que eles, os chamados “patriotas”, sofrem desde o 8 de Janeiro. Como quase tudo na perspectiva radical, o “raciocínio” é simplista: colocam lado a lado a foto de uma senhora idosa com uma Bíblia na mão e a de um assassino do Hamas para que a audiência defina quem é terrorista. É como um tratamento de choque para evitar uma discussão sobre o que são extremistas: afinal, há velhinhas simpáticas ao Hamas e que também dão suporte à guerra santa que fazem por lá, assim como por aqui houve homens capazes de colocar bombas em um caminhão carregado de combustíveis em um aeroporto.

Em meio à tragédia que mata milhares e ameaça milhões em um conflito que parece fadado a nunca acabar, do outro lado do Atlântico o interesse é usar politicamente o sangue e as mortes.