Na redação do Jornal Opção há pelo menos três especialistas em futebol: Cilas Gontijo, Júnior Kamenach, Luan Monteiro. Sintomaticamente, os três trabalham na mesma bancada. São, às vezes, peremptórios nas avaliações.

Quando Cilas Gontijo faz algum comentário sobre a seleção de qualquer país, Júnior Kamenach pondera: “Tu entende muito pouco do assunto”. Luan Monteiro contrapõe: “Você, Júnior, se comporta mais como torcedor do que como analista”.

Espirituoso, e para espanto dos colegas, Cilas Gontijo saca da “algibeira” um aforismo de Guimarães Rosa: “Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães”. Assim mesmo, quer dizer, não disse “opiniões”.

Tostão jogador
Tostão: craque em campo e no comentário esportivo | Foto: Reprodução

Ao lado, eu, Patrícia Moraes, Ton Paulo, João Paulo Alexandre, Herbert Moraes, Giovanna Campos e Bruna Ariadne ficamos “boiando”. Raunner Vinicius e Thiago Vechy, que entendem de futebol, silenciam-se. Não querem participar das polêmicas. Temem a verve ferina de Júnior Kamenach e Luan Monteiro.

Júnior Kamenach coleciona camisas de time de futebol. Só perde, em número de camisas, para os fanáticos Marcelo Heleno e Iuri Rincon Godinho (dizem que vende até “camisa suada” — comprada no Paraguai — de Ronaldinho Gaúcho na internet).

Não são camisas comuns, não. São oficiais. Nos cinco dias da semana, quando quer, aparece sempre com uma camisa diferente. O fato é que Júnior Kamenach, um vilanovense mais roxo do que vermelho, entende mesmo de futebol. Põe qualquer um no bolso. O Kfourinho de Goiás sugere: “Luan entende mesmo é de Palestina e Hamas”. (Júnior Kamenach, quando o Vila Nova perde, sai de baixo, porque fica bravíssimo, com espírito de Lampião. Luan Monteiro, se não ficar esperto, leva uns “croques”.)

Verdadeiro caniço rebelde, Luan Monteiro olha para Júnior Kamenach, com olhos de ressaca, pra lá de blasé, e costuma dizer: “Sou o Juca Kfouri de Goiás”. De quebra, inquire: “Quem tem a revista ‘Piauí’ deste mês? Não vou pagar 42 reais”. Aí tenho de emprestar meu exemplar, que nunca volta.

No aniversário de Luan Monteiro, brinquei que iria lhe dar de presente o “Kama Sutra para Adolescentes”. Ele riu e disse: “Isto existe?”

Tostão, Kfouri, Trajano e Lacombe

Brincadeiras à parte, Cilas Gontijo, Júnior Kamenach e Luan Monteiro entendem realmente de futebol. Mas, dado o trabalho da redação, pouco escrevem sobre o assunto.

Pelé e Juca Kfouri: um foi craque em campo; o outro é craque fora do campo | Foto: Reprodução

Os melhores comentaristas do país envelheceram. Para mim, que assisti a Copa do Mundo de 1970 numa televisão preto e branco — os “chuviscos” eram as estrelas, por assim dizer —, o melhor crítico de futebol do país é Tostão, da “Folha de S. Paulo”.

Um dos heróis da Copa de 1970, quando jogou como centroavante, Tostão sabe tudo sobre futebol. Não faz a crítica tipicamente histérica de alguns canais de televisão. Faz uma interpretação técnica matizada por sua ampla sensibilidade. Ele escreve muito bem — é um estilista da língua patropi. O ex-craque da seleção e médico está com 79 anos.

Não há a menor dúvida de que Juca Kfouri é um dos melhores comentaristas de futebol do país. E é também um dos mais corajosos. Ao longo do tempo, criticou João Havelange e Ricardo Teixeira, ex-poderosos chefões da Confederação Brasileira de Futebol. Processado várias vezes, nunca recuou.

Mesmo ameaçado de perder o emprego, por exemplo na Globo, nunca desistiu de sua independência crítica. Juca Kfouri, de 76 anos, é um craque do comentário esportivo. Um cracaço. E de uma decência rara. Seus petardos críticos agora são disparados no UOL. Na TV UOL.

José Trajano, de 79 anos, integra a “escola” crítica de Juca Kfouri. Por isso também já foi perseguido. Ele faz parte de uma geração de críticos admiráveis — certeiros e posicionados. A bandalheira do futebol brasileiro nunca ganhou apoio desta geração, ainda ativa e sempre altiva, de jornalistas.

Milly Lacombe foto de Vitor Chambon Divulgação
Milly Lacombe: jornalista crítica, franca, direta — posicionada | Foto: Vitor Chambon/Divulgação

Entre as comentaristas mulheres, ninguém supera Milly Lacombe, de 58 anos. Corajosa e posicionada, é uma espécie de Juca Kfouri do mundo feminino. Uma craque. Aprecio ouvi-la, e não apenas sobre futebol. Ela faz a diferença. E não alisa a cabeça de ninguém. Bate duro, e merecidamente.

Milly Lacombe tem a estatura — como crítica de futebol — de Tostão, Juca Kfouri e José Trajano. Acrescento que sua fala incisiva, sem contemplação, às vezes esconde que suas análises são as mais ponderadas possíveis.

Por que me lembrei dos comentaristas esportivos, começando pelos do Jornal Opção — que são craques consumados?

Enrique Macaya Márquez

Porque li, na internet, uma reportagem sobre o jornalista argentino Enrique Macaya Márquez, de 91 anos, que vai cobrir, este ano, sua 18ª Copa do Mundo. (Galvão Bueno, de 75 anos, cobriu 14 copas.)

Lucidíssimo, vai comentar os jogos da seleção da Argentina. Ele será o comentarista da DirecTV, DSports e DSports Radio. “Sinto que tenho a obrigação de fazer isso”, sublinha, de maneira convicta.

Nenhum outro jornalista cobriu tantas copas como Enrique Márquez. Ele é da era do rádio, passou pela televisão preto e branco e continua firme nos tempos da internet. É um craque da palavra. Há quem brinque que, ao vê-lo, até a bola faz reverência.

“Não sei quanto tempo mais resta, mas vou tentar aproveitar ao máximo o que tenho agora”, afirma Enrique Márquez.

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Vinicius Júnior: craque que pode fazer a diferença na Copa do Mundo | Foto: CBF

A estreia de Enrique Márquez se deu quanto tinha 23 anos, em 1958, na Copa do Mundo da Suécia. Na época, trabalhava para a Rádio Belgrano.

Na Suécia, viu Pelé, o Rei, jogar e encantar o público. O menino tinha 17 anos. “Ele era um jogador com grande capacidade física, além de outros elementos que têm a ver com a parte técnica”, pontua Enrique Márquez.

Tecnicamente, é um bom comentário. Mas há pessoas que, quando veem um Deus nos gramados, por não entendê-lo, faz comentários de Dunga. “C’est la vie”, diriam Luan Monteiro e a amiga-hermana Cynthia Pastor.

Na época dos inícios de Pelé, o melhor jogador do mundo era, para Enrique Márquez, o argentino Di Stefano, estrela do Real Madri. Nenhuma palavra a respeito de outro cracaço — Garrincha. Cilas Gontijo conta que, estando próxima do endiabrado ponta-direita, a bola lhe “pedia” bênção.

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Endrick: o menino craque do Real Madri pode mesmerizar o público na Copa | Foto: Cesar Greco/Palmeiras

Por uma questão de justiça, Enrique Márquez relata que, na juventude, foi amigo de Di Stefano. Portanto, a comparação com Pelé é, de certo modo, suspeita. O argentino era grande, mas poeta menor perto do rei patropi.

A Copa de Neymar, Vini Jr. e Endrick

Mas agora a pergunta que realmente importa: o Brasil vai ganhar a Copa de 2026? Na redação, não encontrei ninguém que acredite na Seleção Brasileira.

O motorista de Uber Celso me disse: “É o seguinte. A seleção é fraca, em termos de conjunto. Mas, individualmente, há craques indiscutíveis, como Vini Júnior, Luiz Henrique, Rafinha e Endrick. Então, repente, um deles pode, ao fazer grandes jogadas, nos alegrar com o troféu”.

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Neymar: em campo pode livrar Vini Jr., Rafinha e Endrick de marcação cerrada | Foto: Reprodução

Ninguém parece acreditar que, se entrar em campo, Neymar vai jogar bem. Até porque estaria mais ou menos “fora de forma”. Penso diferente.

Neymar pode se tornar o grande jogador do time do Brasil na Copa. Porque, quando quer jogar e brilhar, é um craque.

Outra coisa: com Neymar em campo, a marcação será menos cerrada em Vini Júnior, Rafinha, Luiz Henrique e Endrick. Mas eu, ao contrário de Cilas Gontijo, Júnior Kamenach e Luan Monteiro (espero que tenham apreciado a crônica brincalhona), entendo muito pouco de futebol. Quase nada. Sou apenas um, por assim dizer, meio-torcedor. Entre um livro e o campo, fico com o primeiro.